Europa avança na conectividade e IA, mas fica aquém das metas para 2030 em chips, talento e cibersegurança

O quarto relatório anual da Comissão Europeia sobre a transformação digital, publicado em junho de 2026, apresenta um quadro de progresso real mas insuficiente: a Europa avança na conectividade e na adoção de inteligência artificial, mas mantém lacunas estruturais significativas nas áreas dos semicondutores, do talento tecnológico e — com especial relevância para este espaço — da cibersegurança. O documento, conhecido como “State of the Digital Decade 2026”, sublinha que a UE arrisca não cumprir as metas da Década Digital para 2030 caso não acelere o ritmo de investimento e coordenação.

Os progressos: 5G e adoção de IA nas empresas

No lado positivo, o relatório regista que 96,8% dos lares europeus têm cobertura 5G básica, um valor que representa uma melhoria significativa face aos anos anteriores. A adoção de inteligência artificial pelas empresas europeias cresceu 48% em 2025, refletindo uma aceleração da transformação digital no tecido empresarial do continente.

A Connect Europe, associação que representa o setor das telecomunicações, salientou em declaração de junho de 2026 que a conectividade avançada é a “infraestrutura invisível” que sustenta a ambição digital da Europa, sendo essencial para o desenvolvimento de um ecossistema de nuvem soberano e para a liderança em inteligência artificial.

As lacunas: semicondutores, talento e cibersegurança

O retrato torna-se mais preocupante nas áreas estratégicas. No domínio dos semicondutores — componentes essenciais para qualquer sistema digital, desde smartphones a sistemas de armas e infraestruturas críticas — a UE detém apenas 9% do mercado global, muito abaixo da meta de 20% prevista para 2030. Esta dependência de fornecedores externos, sobretudo asiáticos e americanos, representa uma vulnerabilidade geopolítica e de segurança nacional.

No campo do talento tecnológico, os especialistas em TIC (tecnologias de informação e comunicação) representam apenas metade do número necessário para 2030. O relatório projeta que a Europa terá cerca de 12 milhões de especialistas em tecnologia no final da década, quando o objetivo é chegar aos 20 milhões. Em Portugal, 32% das organizações reportam dificuldades em recrutar talento digital, e metade dos CEOs identificam a falta de competências técnicas como a principal barreira à adoção de IA.

Na cibersegurança, o relatório é explícito: apesar de progressos regulatórios significativos — NIS2, DORA, CRA — a Europa mantém uma dependência estrutural de fornecedores externos, com empresas europeias sub-representadas na liderança global do setor. A maioria dos produtos e serviços de cibersegurança utilizados por organizações europeias é desenvolvida fora do continente, criando riscos de soberania.

O alerta sobre o financiamento

Um dos alertas mais concretos do relatório diz respeito ao financiamento: quase metade do orçamento público incluído nos roteiros nacionais da Década Digital expira em 2026. Sem garantia de continuidade de financiamento pós-2026, a Comissão alerta para o risco de abrandamento do progresso precisamente quando é necessário acelerar.

Implicações para Portugal e para a cibersegurança nacional

Para Portugal, o relatório surge num momento de aposta declarada na transformação digital. A Agenda Nacional de IA (ANIA), aprovada pelo governo português, estabelece metas ambiciosas de adoção de inteligência artificial e de reforço da capacidade computacional nacional — de cerca de 170 megawatts em 2025 para cerca de 980 MW em 2030.

Na perspetiva da cibersegurança, as conclusões do relatório europeu reforçam a urgência de Portugal investir em competências nacionais nesta área — não apenas para cumprir obrigações regulatórias como a NIS2 (transposta pelo Decreto-Lei n.º 125/2025), mas para reduzir a dependência de tecnologias e serviços externos em domínios críticos para a segurança nacional e das organizações.

Fonte: Relatório “State of the Digital Decade 2026” da Comissão Europeia, de 17 de junho de 2026; Connect Europe; dados do Governo Português sobre a ANIA.