A sua VPN gratuita no Chrome pode estar a enviar tudo por um proxy alheio

Uma investigação da equipa de threat research da Socket veio expor uma das maiores operações alguma vez documentadas na loja de extensões do Chrome envolvendo falsas VPN. A equipa identificou uma campanha com 737 extensões maliciosas de VPN e proxy na Chrome Web Store, com mais de 75 mil instalações, publicadas a partir de 40 contas de programador e dirigidas sobretudo a utilizadores de língua russa que procuram aceder a serviços bloqueados; 274 dessas extensões imitavam 66 marcas estabelecidas de VPN, incluindo Proton VPN, NordVPN e AmneziaVPN. O problema não é geográfico: qualquer pessoa que instale uma extensão «VPN grátis» no navegador, incluindo em Portugal, está a confiar todo o tráfego do browser a quem controla o servidor do outro lado.

Resposta rápida: Investigadores da Socket documentaram 737 extensões de VPN e proxy na Chrome Web Store que encaminhavam todo o tráfego do navegador por servidores SOCKS5 controlados por um único operador. Centenas usavam nomes e imagem de marcas legítimas para ganhar confiança e pediam apenas a permissão proxy, que parece inofensiva mas decide para onde vai a navegação. Reveja hoje as extensões instaladas no Chrome e no Edge, remova as que prometem «VPN grátis» sem fornecedor identificável e, em contexto empresarial, imponha uma lista de extensões autorizadas.

Uma operação industrial: 737 extensões, 40 contas, um só destino

A dimensão é o que distingue este caso das habituais notícias sobre extensões maliciosas. Em vez de duas ou três aplicações fraudulentas, os investigadores mapearam centenas de publicações aparentemente independentes que convergiam para a mesma infraestrutura. A Socket refere que, das 737 extensões identificadas na campanha, 274 imitavam marcas de confiança e 520 encaminhavam todo o tráfego do navegador através de infraestrutura partilhada, sendo que o plano pago anunciava 200 nomes de servidores, nenhum dos quais resolvia.

Esse último detalhe é revelador: quem pagava uma subscrição «premium» estava a comprar servidores que, na prática, não existiam. O tráfego era encaminhado por proxies SOCKS5 controlados por um único operador na porta 1082, colocando o agente de ameaça numa posição de adversário-no-meio, enquanto os planos pagos anunciavam servidores em cinco países que não resolviam.

Como o desvio de tráfego era feito

O mecanismo é tecnicamente simples e, por isso mesmo, eficaz. Uma extensão com a permissão proxy pode reconfigurar o Chrome para enviar todos os pedidos por um servidor à escolha do programador. Não é preciso injetar código nas páginas nem pedir acesso a «todos os sites»: basta redirecionar a saída. Em 520 dos 522 pacotes analisados, as extensões configuravam o Chrome para usar um servidor SOCKS5 fixo na porta 1082, com regras de exceção que abrangiam apenas endereços locais, pelo que a navegação de todos os separadores passava a seguir por esse relé depois de o utilizador carregar em «Ligar».

Importa ser rigoroso quanto ao alcance do risco. A investigação não afirma que os operadores recolheram ou usaram indevidamente todos os dados encaminhados, mas confirma que a infraestrutura ocupava uma posição que permitia observar o tráfego enquanto a extensão estava ligada — expondo destinos visitados, metadados de ligação e o endereço IP de origem, sendo que pedidos em HTTP simples poderiam revelar todo o seu conteúdo. Por outras palavras: mesmo sem qualquer roubo ativo de credenciais, o operador ficava com um mapa da navegação de dezenas de milhares de pessoas.

Elemento observadoDetalhe reportado pela Socket
Extensões identificadas737, em cerca de 40 contas de programador
Instalações acumuladasmais de 75 000
Imitação de marcas274 extensões, 66 marcas (ex.: Proton VPN, NordVPN, AmneziaVPN)
EncaminhamentoSOCKS5 na porta 1082, com exceção apenas para endereços locais
Permissão pedidaessencialmente proxy
Evasãoresolução por DNS cifrado em 104 casos; configuração remota em 66 extensões
Plano pago200 hostnames anunciados; nenhum resolvia

As técnicas de ocultação merecem nota. As extensões pediam geralmente apenas a permissão proxy, que a um instalador distraído parece limitada mas controla para onde vai o tráfego; em 104 casos resolviam os anfitriões do proxy através de serviços de DNS cifrado, entregando ao Chrome um endereço em bruto e reduzindo a visibilidade de uma consulta de domínio normal, e em 66 extensões havia configuração remota. A campanha recorreu ainda a DNS-over-HTTPS para evasão, substituição de código após aprovação e manipulação coordenada de avaliações. A substituição de código depois da aprovação é o ponto crítico para quem confia na revisão das lojas: a versão analisada pela plataforma pode não ser a versão que chega ao utilizador semanas depois.

Marcas legítimas usadas como isco

O uso indevido de nomes conhecidos não é novidade nem exclusivo desta campanha. Este ano, a Proton veio publicamente alertar para extensões falsas com a sua marca na loja do Chrome, sublinhando que várias permaneceram disponíveis durante semanas antes de serem removidas, que notificou a Google pelo menos três vezes e que considera o processo de remoção demasiado lento. Para o utilizador comum, o resultado prático é que o logótipo e o nome numa listagem da loja não constituem prova de autenticidade.

Também não é a primeira vez que a mesma equipa de investigação documenta este padrão de negócio. Em dezembro de 2025, a Socket descreveu duas extensões «Phantom Shuttle», distribuídas desde pelo menos 2017, que se apresentavam como VPN e desviavam autenticação de proxy para intercetar tráfego e exfiltrar credenciais para infraestrutura do atacante. A lógica repete-se: uma fachada comercial credível, uma subscrição paga e, por trás, controlo total do caminho do tráfego.

O que fazer agora: verificação em cinco minutos

  • Abra chrome://extensions (ou edge://extensions) e ative o modo de programador para ver o ID de cada extensão instalada.
  • Remova qualquer extensão de VPN ou proxy que não corresponda a um fornecedor que subscreveu e cuja identidade consiga confirmar no site oficial da marca.
  • Desconfie de listagens que pedem a permissão proxy sem explicar quem opera os servidores, ou que prometem acesso ilimitado sem custos.
  • Verifique as definições de proxy do sistema e do navegador após remover a extensão, para garantir que a configuração voltou ao normal.
  • Se usou uma destas extensões em contas sensíveis, altere as palavras-passe, termine as sessões ativas e ative autenticação multifator.
  • Em ambientes empresariais, aplique políticas de grupo para permitir apenas extensões autorizadas e bloquear a instalação livre a partir da loja.

Porque é que isto importa às organizações em Portugal

O navegador transformou-se na principal aplicação de trabalho — correio, ERP, CRM, consolas de administração cloud — e as extensões são, em muitas PME, uma camada de software não gerida, instalada por iniciativa individual e sem inventário. Uma extensão que desvia tráfego coloca-se entre o colaborador e todos esses serviços. Mesmo quando o conteúdo segue cifrado por HTTPS, o operador do proxy fica a conhecer que serviços a organização usa, com que frequência e a partir de que endereços — informação que alimenta campanhas de phishing dirigido e de fraude ao CEO.

Do ponto de vista legal, se dados pessoais de clientes ou colaboradores forem expostos por esta via, aplica-se o RGPD e as obrigações de avaliação de risco e, quando aplicável, de notificação à CNPD no prazo de 72 horas. Para as entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança, que transpõe a diretiva NIS2, a gestão do risco associado a software de terceiros no posto de trabalho encaixa diretamente nas medidas de segurança da cadeia de abastecimento e na higiene informática exigidas às organizações, com o CNCS e o CERT.PT como pontos de contacto nacionais para reporte e apoio a incidentes. Uma política simples de controlo de extensões — inventário, lista de autorizadas e revisão periódica — é das medidas com melhor relação entre esforço e redução de risco.

Perguntas frequentes

Como sei se instalei uma destas extensões?

Abra a página de extensões do navegador e reveja tudo o que tenha «VPN» ou «proxy» no nome. Se não consegue identificar o fornecedor, se nunca subscreveu o serviço ou se a extensão apareceu sem instalação consciente, remova-a. Confirme depois as definições de proxy do navegador e do sistema operativo.

Uma extensão de VPN é o mesmo que uma aplicação de VPN?

Não. Uma extensão atua apenas dentro do navegador e, em muitos casos, limita-se a configurar um proxy, sem o túnel cifrado ao nível do sistema que uma aplicação de VPN estabelece. Por isso, a confiança recai inteiramente em quem opera o servidor de destino.

A permissão «proxy» é assim tão perigosa?

Parece limitada, mas determina o caminho de todo o tráfego do navegador. Quem controla esse caminho vê os destinos visitados, metadados de ligação e o endereço IP de origem, e pode ver o conteúdo de pedidos que não sejam cifrados.

O que deve fazer uma PME para reduzir este risco?

Inventariar as extensões instaladas no parque informático, definir uma lista de extensões autorizadas por política de grupo, bloquear instalações livres a partir das lojas e incluir o tema na formação de sensibilização. Em caso de suspeita de exposição de dados pessoais, avaliar a obrigação de notificação à CNPD.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela equipa de threat research da Socket e por declarações públicas de fornecedores de VPN visados pela imitação de marca.