Adis Abeba, capital da Etiópia, acolheu a primeira conferência pan-africana dedicada à interseção entre cibersegurança e inteligência artificial. Organizada pela Comissão Económica para África das Nações Unidas (UNECA) em parceria com a Associação Etíope de Cibersegurança (ECySA), a conferência reuniu políticos, líderes do setor tecnológico e parceiros de desenvolvimento de todo o continente sob o mote “Riscos, Resiliência e Imperativos Estratégicos para África”.
O que se debateu
A conferência abordou a cibersegurança enquanto prioridade estratégica para os estados africanos, com particular ênfase nas implicações da adoção crescente de inteligência artificial nos setores público e privado. A vice-secretária executiva para apoio a programas da UNECA sublinhou que as revoluções tecnológicas raramente distribuem os seus benefícios de forma equitativa — e que os países que investem, inovam e governam com visão estratégica são os que colhem os maiores frutos, enquanto os que hesitam arriscam tornar-se consumidores passivos de tecnologias criadas por outros.
O presidente da ECySA, Berhanu Beyene, descreveu esta primeira edição como o início de um diálogo continental contínuo, “assente em realidades operacionais e não apenas em quadros teóricos”, e reforçou que a cibersegurança representa hoje “uma prioridade para os negócios, a governação, a investigação e a soberania nacional”.
O contexto continental
A iniciativa insere-se num momento de virada regulatória significativa no continente africano. Segundo um levantamento recente, 44 países africanos já dispõem de legislação de proteção de dados e 38 contam com autoridades de fiscalização ativas. A União Africana aprovou a sua Estratégia Continental de IA — estruturada em duas fases, até 2026 e pós-2028 — com foco em soberania digital, capacitação técnica e interoperabilidade entre estados-membros.
O panorama é diverso: a Nigéria avança com um projeto de lei para sistemas de IA de alto risco que prevê multas até 2% da receita anual local; o Quénia aposta numa estratégia multissetorial centrada em média e finanças; a África do Sul adota uma abordagem baseada em direitos; a Etiópia centraliza a governação e prioriza a IA para fins sociais. O relatório Global Cybersecurity Outlook 2026 do Fórum Económico Mundial, por sua vez, assinala que 63% das organizações na África Subsaariana enfrentam desafios significativos para atingir os seus objetivos de segurança — um indicador da dimensão da tarefa que os países africanos têm pela frente.
Porque é que isto importa
A criação de um fórum pan-africano permanente sobre cibersegurança e IA representa um passo relevante para a consolidação de uma abordagem coordenada a nível continental. Para Portugal, com laços históricos e económicos profundos com vários países africanos — e com o papel crescente que empresas portuguesas desempenham na transformação digital nesses mercados —, os desenvolvimentos regulatórios e de governação de IA em África são cada vez mais relevantes para a gestão de risco nas operações internacionais.
Esta informação tem carácter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela ONU News, UNECA e ECySA.
