Os ataques de password spraying deixaram de ser ruído de fundo nos registos de autenticação. A empresa de segurança Huntress reporta que o volume deste tipo de ataques disparou nos primeiros seis meses de 2026 e que uma única campanha, apoiada num fluxo de autenticação legado do Microsoft Entra ID, gerou dezenas de milhões de tentativas de início de sessão em apenas duas semanas — comprometendo contas em organizações que, em muitos casos, já tinham autenticação multifator (MFA) ativada. O detalhe que interessa a quem gere identidades não é a escala, mas o caminho: um fluxo OAuth obsoleto, o ROPC, que envia utilizador e palavra-passe diretamente para o endpoint de token, sem qualquer desafio interativo.
Resposta rápida: A Huntress diz ter observado um aumento superior a 155 vezes no volume de ataques de pulverização de credenciais na sua base de clientes em 2026, com uma média de cerca de 1964 tentativas falhadas por mês por tenant. Uma campanha contra o Azure CLI usou o fluxo OAuth ROPC para validar credenciais antigas expostas em fugas de dados e escapar a políticas de Acesso Condicional mal delimitadas. A ação recomendada é bloquear explicitamente o ROPC e a autenticação legada, exigir MFA para todos os utilizadores, todas as aplicações cloud e todos os tipos de cliente, sem exclusões, e rodar palavras-passe reutilizadas.
Um aumento de 155 vezes num semestre
Segundo a empresa, “nos últimos seis meses, a Huntress observou o volume de ataques de pulverização de credenciais aumentar mais de 155 vezes” na sua base de clientes. O pico verificou-se sobretudo entre o final de maio e o início de junho, com um valor médio atual de cerca de 1964 tentativas falhadas por mês e por tenant protegido. É um número relevante para as equipas de deteção: com este volume de base, organizações que dependem de contagens de falhas de autenticação não veem sprays deste tipo nos seus painéis, porque a taxa de falhas por conta é demasiado baixa para acionar os limiares habituais.
A lógica do ataque é diferente da força bruta clássica. Em vez de testar muitas palavras-passe contra uma só conta, a pulverização testa um conjunto limitado de palavras-passe prováveis ou previamente expostas contra muitas contas, para evitar os limiares simples de bloqueio. A atividade parece explorar especificamente combinações antigas de utilizador e palavra-passe já comprometidas em fugas de dados e que nunca foram rodadas. A seleção de vítimas não é setorial: a Huntress afirma que o alvo depende inteiramente da prevalência das palavras-passe em listas de combinações comprometidas, e não do tipo de negócio ou da indústria.
O papel do fluxo ROPC e do Azure CLI
O vetor central é o Resource Owner Password Credentials (ROPC), um dos fluxos originais do OAuth 2.0. Os atacantes reenviam combinações antigas de utilizador e palavra-passe obtidas em fugas de dados contra o fluxo ROPC, que envia as credenciais diretamente para o endpoint /token sem MFA interativo. Este fluxo pode emitir um novo token delegado ao utilizador quando é fornecida a combinação correta de utilizador e palavra-passe. Numa autenticação moderna, o utilizador é redirecionado para a página de início de sessão da Microsoft e é aí que o Acesso Condicional insere o desafio de segundo fator; o ROPC salta essa etapa e pede o token num único passo.
A própria Microsoft desaconselha o mecanismo: na documentação do Entra ID indica que o fluxo ROPC é incompatível com o MFA e que, depois de o MFA ser ativado no tenant, as APIs baseadas em ROPC passam a lançar exceções. Na documentação das bibliotecas MSAL, a empresa é explícita: o fluxo ROPC foi descontinuado devido a riscos de segurança e deve ser substituído por um fluxo mais seguro. Há ainda uma consequência prática relevante para quem já avançou para autenticação sem palavra-passe: contas sem palavra-passe não podem iniciar sessão com ROPC, pelo que funcionalidades como FIDO ou a aplicação Authenticator não funcionam nesse fluxo.
Cronologia da campanha
| Data (2026) | Evento reportado pela Huntress |
|---|---|
| 11 de junho | Criação de um registo de maintainer em endereços IPv6 do intervalo usado no ataque, um dia antes do início da campanha |
| 12 a 21 de junho | Entre duas e quatro contas comprometidas por dia, com exceção de 19 de junho (12 identidades) |
| 22 de junho | Escalada: 30 identidades em 23 empresas num único dia |
| 12 a 26 de junho | Mais de 81 milhões de tentativas de autenticação e pelo menos 78 contas comprometidas em 64 organizações |
| Após suspensão pela LSHIY | Atividade migra para a FranTech (AS53667), em intervalos IPv6 |
| 15 de julho | Nova ronda de atividade a partir da 3xK Tech GmbH (AS200373), já sobre IPv4 |
A cadência foi de duas a quatro contas comprometidas por dia entre 12 e 21 de junho, com exceção de 19 de junho, quando 12 identidades foram comprometidas; a 22 de junho o padrão mudou, com 30 identidades em 23 empresas, e no total foram 78 contas em 64 organizações. A Huntress encontrou endereços IPv6 recentes no intervalo atacante, incluindo um registo de maintainer criado a 11 de junho de 2026 — um dia antes do início da campanha —, o que sugere infraestrutura provisionada especificamente para a operação; a empresa reportou a atividade pelo contacto de abuso da LSHIY, sem resposta.
Indicadores e infraestrutura: um jogo de “whack-a-mole”
| Indicador | Detalhe |
|---|---|
| ASN principal | AS32167 (LSHIY LLC) |
| Intervalo IPv6 inicial | 2a0a:d683::/32 |
| Segundo ASN da LSHIY | AS955 |
| Infraestrutura seguinte | FranTech AS53667, intervalos 2605:6400::/32 e 2605:6404::/32 |
| Atividade posterior | 3xK Tech GmbH AS200373, sobre IPv4 |
| Aplicação abusada | Azure CLI, via fluxo OAuth ROPC |
A atividade tem origem num intervalo IPv6 (2a0a:d683::/32) controlado pela LSHIY LLC (AS32167), sendo que a LSHIY opera dois ASN distintos — o AS32167 e o AS955 — e terceiros reportam que os intervalos IPv6 associados a ambos têm origem na China. Após a intervenção do provedor, a atividade migrou para a FranTech (AS53667), nos intervalos IPv6 2605:6400::/32 e 2605:6404::/32, com 87% das contas pulverizadas a partir da FranTech a terem sido já visadas a partir da LSHIY. A 15 de julho de 2026, a Huntress identificou uma nova ronda de atividade a partir de um segundo provedor, a 3xK Tech GmbH (AS200373), e com essa mudança os atacantes conseguiram voltar aos níveis de volume da campanha original, com cerca de 1,5 milhões de tentativas de autenticação por dia durante vários dias. A facilidade em trocar de provedor transforma o bloqueio de infraestrutura num problema recorrente para os defensores — razão pela qual bloquear intervalos de IP é, no melhor dos casos, uma medida temporária.
Porque é que o MFA não travou os acessos
Este é o ponto mais incómodo do caso. Muitas das organizações comprometidas tinham políticas de Acesso Condicional ativas. Na análise de um subconjunto de vítimas, a Huntress examinou 23 empresas afetadas, das quais oito não tinham MFA implementado; nas restantes 15, o MFA não se aplicava às tentativas de início de sessão do atacante porque as políticas estavam limitadas a certas aplicações ou grupos de utilizadores, dependiam de localizações fidedignas ou permaneciam em modo de relatório. Um terço dessas 15 tinha o MFA delimitado a utilizadores específicos, deixando de fora determinados grupos. Há ainda um detalhe operacional a retirar: em vários casos, inconsistências de geolocalização rotularam os IP atacantes como endereços dos EUA, permitindo-lhes escapar à lógica de “localização fidedigna” ainda que outra telemetria os situasse na China.
A leitura da própria Huntress é de que o problema não está no conceito: isto não significa que o MFA esteja quebrado, significa que as políticas de Acesso Condicional têm de ser delimitadas para serem efetivamente aplicadas. A empresa admite mesmo que houve negócios com uma política explícita destinada a bloquear este vetor específico que ainda assim foram atingidos.
Mitigações concretas
- Exigir MFA para todos os utilizadores, todas as aplicações cloud e todos os tipos de aplicação cliente, sem exclusões.
- Bloquear métodos de autenticação que não conseguem satisfazer um requisito de MFA, incluindo a concessão legada
ROPC. - Usar uma definição forte de Acesso Condicional, como
userStrongAuthClientAuthNRequired, para impor autenticação forte ao nível do cliente e bloquear oROPC. - Reforçar a higiene de palavras-passe, considerar opções sem palavra-passe, desativar o
ROPC(ou as aplicações que dependem dele) e restringir a aplicação Azure CLI a utilizadores não administradores. - Não priorizar a resposta pelo volume de pulverização — os tenants mais pulverizados são frequentemente os menos comprometidos —, mas sim pela validade das credenciais.
- Caçar sinais nos registos de identidade: rajadas de falhas de autenticação, inícios de sessão invulgares via Azure CLI, tentativas repetidas em muitas contas, sucessos após atividade de spray e autenticações a partir de ASN suspeitos.
Porque é que isto importa em Portugal
Para as organizações nacionais, o tema deixou de ser apenas boa prática técnica. O Decreto-Lei n.º 125/2025, publicado a 4 de dezembro de 2025, aprovou o novo Regime Jurídico da Cibersegurança, transpondo a Diretiva (UE) 2022/2555, e entrou em vigor a 3 de abril de 2026. Esse diploma sobre o Regime Jurídico da Cibersegurança e a NIS2 define nove áreas de medidas obrigatórias no artigo 27.º, que incluem tratamento de incidentes, continuidade de negócio, segurança da cadeia de abastecimento, gestão de vulnerabilidades, formação periódica e autenticação multifator. Ou seja, ter MFA “ativado” mas com exclusões que deixam passar autenticação legada pode ser exatamente o tipo de lacuna que uma auditoria de conformidade vem expor — sobretudo porque os administradores, diretores e gestores podem responder individualmente por ação ou omissão, com dolo ou culpa grave, nos termos do n.º 2 do artigo 25.º. A concretização prática já existe: foi publicado o Regulamento n.º 756/2026, que concretiza a aplicação do RJCS aprovado pelo Decreto-Lei n.º 125/2025, sendo o CNCS a autoridade nacional de cibersegurança e a entidade que integra a equipa nacional de resposta a incidentes.
Há também um ângulo de proteção de dados. Uma conta Microsoft 365 comprometida dá tipicamente acesso a correio eletrónico, ficheiros e diretórios com dados pessoais de clientes, colaboradores e parceiros, o que pode configurar uma violação de dados pessoais com obrigações de notificação à CNPD nos termos do RGPD. Para as PME portuguesas, que raramente têm equipas dedicadas a identidade, a mensagem operacional é simples: validar se as políticas de Acesso Condicional cobrem realmente todos os utilizadores e todos os tipos de cliente, confirmar que nenhuma política crítica ficou em modo de relatório e rodar palavras-passe que apareçam em fugas de dados conhecidas. Vale ainda recordar que estes ataques não exigem sofisticação — vivem de credenciais antigas nunca alteradas e de exceções de configuração esquecidas há anos.
Perguntas frequentes
O que é um ataque de password spraying?
É um ataque a credenciais que testa um conjunto limitado de palavras-passe prováveis ou previamente expostas contra muitas contas diferentes, em vez de muitas palavras-passe contra uma só conta, precisamente para não acionar os bloqueios automáticos por tentativas falhadas.
Ter MFA ativado deixou de proteger?
Não. O problema identificado foi de âmbito de aplicação: nas organizações afetadas que tinham MFA, este não se aplicava às tentativas do atacante porque as políticas estavam limitadas a certas aplicações ou grupos, dependiam de localizações fidedignas ou estavam em modo de relatório.
O que é o fluxo ROPC e porque deve ser bloqueado?
É um fluxo OAuth em que o cliente envia utilizador e palavra-passe diretamente para o endpoint de token do Entra ID e pede um token num único passo. A Microsoft indica que o fluxo ROPC é incompatível com o MFA e que foi descontinuado por riscos de segurança.
Como detetar esta atividade se o volume de falhas é elevado?
A recomendação é mudar o critério de triagem: não priorizar pelo volume de pulverização, porque os tenants mais atacados são muitas vezes os menos comprometidos, mas sim pela validade das credenciais, cruzando com inícios de sessão bem-sucedidos via Azure CLI e ASN pouco habituais.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Huntress, pela documentação oficial da Microsoft sobre o Microsoft Entra ID e por fontes legais nacionais relativas ao Decreto-Lei n.º 125/2025 e ao CNCS.
