Pesquisa no Bing por “ManageEngine OpManager” leva à implantação de ransomware Akira em apenas 44 horas

Uma simples pesquisa no Bing por “ManageEngine OpManager” — uma ferramenta de monitorização de redes amplamente utilizada por equipas de TI — transformou-se num ataque de ransomware à escala empresarial. Uma campanha de envenenamento de motores de pesquisa (SEO poisoning) levou administradores de sistemas a instalar um instalador malicioso disfarçado de software legítimo, culminando na implantação do ransomware Akira em toda a rede da vítima, num intervalo total de apenas 44 horas.

Como começou: uma pesquisa aparentemente inofensiva

O ataque, documentado em detalhe pela The DFIR Report em parceria com a Swisscom B2B CSIRT, teve início em julho de 2025. Um utilizador que pesquisou “ManageEngine OpManager” no Bing foi direcionado para opmanager[.]pro, um domínio falso sofisticado que imitava o site oficial e que, por sua vez, redirecionava para download-center[.]online antes de entregar o ficheiro malicioso final. Em vez do software legítimo, a vítima descarregou um instalador MSI trojanizado — ManageEngine-OpManager.msi — que instalava efetivamente a aplicação real, mas carregava simultaneamente o malware Bumblebee através de uma DLL maliciosa (msimg32.dll) executada via consent.exe, recorrendo à técnica de DLL side-loading.

A análise forense ao histórico do navegador confirmou a sequência de redirecionamentos que conduziram ao site malicioso, e os registos mostraram explorer.exe como processo principal, validando que o ficheiro foi executado manualmente pelo utilizador a partir do ambiente de trabalho — confirmando que a tática de disfarce funcionou exatamente como previsto pelos atacantes. Esta intrusão insere-se numa campanha mais ampla de envenenamento SEO ligada ao Bumblebee, identificada inicialmente pela Cyjax em maio de 2025, que utiliza uma arquitetura de distribuição em duas camadas: domínios de fachada que aparecem nos resultados de pesquisa (como opmanager[.]pro e zenmap[.]pro) e uma camada secundária de entrega do payload final.

Diagrama do fluxo de ataque: de pesquisa no Bing a ransomware Akira
Fluxo completo da intrusão, da pesquisa envenenada no Bing à implantação do ransomware Akira em 44 horas. Fonte: The DFIR Report / Cibersegurança.PT

Cronologia técnica detalhada da intrusão

MomentoAção do atacanteIndicador técnico
T+0Execução do instalador trojanizadoManageEngine-OpManager.msi via explorer.exe
T+0Carregamento do Bumblebee (DLL side-loading)msimg32.dll via consent.exe
T+0Estabelecimento de C2 inicial (Bumblebee)109.205.195[.]211:443 e 188.40.187[.]145:443 (domínios DGA)
~T+5hImplantação do beacon AdaptixC2AdgNsy.exe (mascarado como Address Book do Windows) → C2 em 172.96.137[.]160:443
T+5h a T+20hReconhecimento interno (living-off-the-land)systeminfo, nltest /dclist:, whoami /groups, net group domain admins /dom
~T+20hCriação de contas privilegiadasContas de domínio backup_DA e backup_EA; backup_EA adicionada a Enterprise Admins
~T+24hAcesso ao controlador de domínio via RDPPorta 3389/TCP
~T+24hExtração da base de credenciais do ADNTDS.dit via wbadmin
~T+25hDespejo de memória LSASSrundll32.exe + comsvcs.dll
~T+26hExtração de credenciais adicionaisBase de dados PostgreSQL da Veeam
~T+30hPersistência adicionalRustDesk instalado como serviço Windows em múltiplos servidores
~T+32hTúnel reverso para movimento lateralSSH para 193.242.184[.]150
~T+36hExfiltração de dadosSFTP (porta 22/TCP) via FileZilla para 185.174.100[.]203
T+44hImplantação do ransomware Akiralocker.exe — cifragem do domínio raiz
T+44h + 2 diasSegunda onda de cifragemReentrada via RustDesk; domínio subordinado (child domain) cifrado

No incidente paralelo documentado pela Swisscom B2B CSIRT — com um instalador trojanizado do Advanced IP Scanner — o tempo entre o acesso inicial e a implantação do ransomware (time-to-ransom, TTR) foi de apenas 9 horas, evidenciando o elevado grau de automação das ferramentas utilizadas pelos atacantes nesta campanha.

Indicadores de comprometimento (IOCs)

Domínios maliciosos de distribuição:

  • opmanager[.]pro — site falso para o instalador ManageEngine OpManager
  • angryipscanner[.]org — site falso para o Angry IP Scanner
  • axiscamerastation[.]org — site falso para software de câmaras Axis
  • ip-scanner[.]org — site falso para Advanced IP Scanner (caso Swisscom)
  • ev2sirbd269o5j.org e 2rxyt9urhq0bgj.org — domínios DGA do Bumblebee

Infraestrutura de comando e controlo:

  • 109.205.195[.]211:443 e 188.40.187[.]145:443 — C2 Bumblebee
  • 172.96.137[.]160:443 — C2 AdaptixC2 (caso DFIR Report)
  • 170.130.55[.]223 — C2 AdaptixC2 (caso Swisscom)
  • 193.242.184[.]150 e 83.229.17[.]60 — servidores de túnel SSH
  • 185.174.100[.]203 — servidor de exfiltração SFTP

Ficheiros maliciosos (hashes SHA-256):

  • ManageEngine-OpManager.msi — 186b26df63df3b7334043b47659cba4185c948629d857d47452cc1936f0aa5da
  • msimg32.dll (Bumblebee) — a6df0b49a5ef9ffd6513bfe061fb60f6d2941a440038e2de8a7aeb1914945331
  • locker.exe (Akira) — de730d969854c3697fd0e0803826b4222f3a14efe47e4c60ed749fff6edce19d
  • Advanced-IP-Scanner.msi (caso Swisscom) — a14506c6fb92a5af88a6a44d273edafe10d69ee3d85c8b2a7ac458a22edf68d2

Portas e protocolos envolvidos

  • 443/TCP (HTTPS) — comunicação C2 do Bumblebee e do AdaptixC2, dissimulada em tráfego encriptado normal
  • 3389/TCP (RDP) — acesso remoto ao controlador de domínio
  • 22/TCP (SSH/SFTP) — túnel reverso para movimento lateral e exfiltração de dados

Uma campanha mais ampla — e mais alvos confirmados

Durante a investigação, a equipa identificou ainda dois outros sites maliciosos a distribuir instaladores trojanizados de ferramentas populares: software de câmaras Axis e o utilitário Angry IP Scanner — indicando que a campanha de envenenamento de motores de pesquisa tem um alcance mais amplo do que um único caso isolado, visando sistematicamente ferramentas de uso comum entre equipas de TI.

Porque é que este tipo de ataque funciona tão bem

A escolha de imitar especificamente uma ferramenta de gestão de TI como o ManageEngine OpManager não é acidental. Investigadores sublinham que esta tática visa deliberadamente equipas de TI e administradores de sistemas — utilizadores que tipicamente possuem contas com privilégios elevados em Active Directory e estão sujeitos a menos restrições do que perfis de utilizador padrão. Ao conseguir execução em estações de trabalho destes utilizadores, os atacantes obtêm acesso privilegiado imediato, eliminando a necessidade de técnicas complexas de escalada de privilégios habitualmente exigidas em ataques direcionados.

Sinais de alerta e medidas de deteção

A The DFIR Report recomenda que as equipas de segurança monitorizem ativamente:

  • Instalações MSI executadas a partir de diretórios de utilizador (C:\Users\*\Desktop\*.msi, C:\ProgramData\*.msi) que originam processos filho inesperados, como consent.exe
  • Carregamentos anómalos de bibliotecas do sistema, como msimg32.dll, fora do contexto esperado
  • Pacotes MSI com nomes genéricos de software popular descarregados para diretórios de utilizador, em vez de distribuídos por canais de gestão de software corporativos
  • Sequências de comandos de reconhecimento (systeminfo, nltest, whoami /groups) executadas pouco depois da instalação de novo software
  • Criação de novas contas de domínio com adição imediata a grupos privilegiados (Domain Admins, Enterprise Admins)
  • Instalação não autorizada de ferramentas de acesso remoto como RustDesk como serviço do Windows

Porque é que isto importa

Este caso demonstra como hábitos de pesquisa quotidianos e rotineiros podem tornar-se a porta de entrada direta para o comprometimento total de uma rede empresarial. A questão central não é apenas técnica — é também de processo: equipas de TI devem obter software exclusivamente através de canais oficiais e verificados, de preferência através de portais de gestão de software corporativos centralizados, nunca através de resultados de pesquisa direta na internet, mesmo quando estes parecem legítimos e bem posicionados.

Para organizações em Portugal, o caso sublinha a importância de políticas claras sobre instalação de software, segmentação de privilégios administrativos e deteção comportamental — em vez de depender apenas de indicadores estáticos como assinaturas de antivírus, que são facilmente contornados por instaladores aparentemente legítimos como este. A velocidade do ataque — de pesquisa no Bing a rede completamente cifrada em menos de dois dias — deixa pouca margem para resposta manual; a deteção comportamental automatizada e a segmentação de rede são, neste contexto, defesas decisivas.

Esta informação tem carácter noticioso e baseia-se no relatório técnico publicado pela The DFIR Report em parceria com a Swisscom B2B CSIRT, e em reportagens complementares do Cyber Security News, GBHackers e Security Online.