Sete lojas da cadeia de supermercados Intermarché foram alvo de um ataque informático que, como em vários outros países europeus, afetou o sistema frigorífico dessas lojas, informou em comunicado o Grupo Mosqueteiros. Segundo o grupo, o ataque “terá visado um prestador de serviços externo responsável pela gestão dos sistemas de refrigeração.” O incidente ocorreu na noite de 1 para 2 de novembro de 2026, a mesma em que cadeias de supermercados de vários países europeus registaram subidas anormais da temperatura em frigoríficos e arcas congeladoras. Tudo isto acontece cerca de três semanas depois de uma campanha semelhante ter atingido centenas de supermercados em França.
Resposta rápida: Sete lojas Intermarché em Portugal foram afetadas por um ciberataque dirigido a um prestador externo que gere os sistemas de refrigeração. O Grupo Mosqueteiros garante que a segurança alimentar está assegurada. A Polícia Judiciária e o CNCS estarão a acompanhar o caso. As empresas com equipamentos de frio controlados à distância devem retirar estes controladores da Internet, rever a configuração (sobretudo os ciclos de descongelação) e passar a aceder-lhes apenas por VPN ou por uma rede protegida.
O que aconteceu nas lojas portuguesas
O Grupo Mosqueteiros, dono da insígnia Intermarché em Portugal, ainda não revelou quais foram as lojas afetadas. De acordo com a Renascença, a localização das lojas afetadas pelo ciberataque não foi revelada. No comunicado enviado às redações, o grupo diz que “foram acionados os procedimentos necessários, em articulação com os parceiros responsáveis pela manutenção dos equipamentos, com o objetivo de minimizar o impacto e repor o normal funcionamento dos sistemas afetados com a maior brevidade possível”.
A empresa procurou tranquilizar os clientes e garante “que a cadeia de abastecimento não foi afetada e estão asseguradas todas as condições de higiene e segurança alimentares.” Alguns órgãos de comunicação social falaram de perdas de mercadoria em parte das lojas, mas o grupo não confirmou oficialmente essas perdas nem divulgou números. Segundo a SIC Notícias, citada pela Rádio Comercial, a Polícia Judiciária já está a acompanhar o caso com o Centro Nacional de Cibersegurança.
O grupo não identificou o prestador de serviços atacado nem a marca dos controladores instalados nas lojas portuguesas. Também não se sabe ainda se o incidente em Portugal está tecnicamente ligado aos que ocorreram noutros países. Em relação a todos os incidentes, não está demonstrada uma ligação direta.
Uma vaga europeia na mesma noite
Portugal não foi o único país afetado. O ataque, que fez subir as temperaturas em frigoríficos e congeladores de dezenas de lojas, atingiu os grupos de supermercados Ahold Delhaize e Colruyt na Bélgica e no Luxemburgo, bem como as cadeias suecas ICA e Coop. Na Bélgica, a Delhaize disse ter identificado um incidente informático que afetou os sistemas de refrigeração em várias dezenas das suas lojas. Na Irlanda, os sistemas de refrigeração de 13 lojas SuperValu também foram afetados por um suspeito ciberataque.
Já há pistas sobre a técnica utilizada. O CEO da empresa de refrigeração Sabcobel, Stephan Moelans, atribuiu as subidas de temperatura a um ciberataque e explicou que os evaporadores das unidades foram colocados em modo de descongelação. Este pormenor importa: quando os equipamentos são forçados a descongelar de forma contínua, a temperatura sobe sem que o sistema dê necessariamente um alerta de avaria.
A Comissão Europeia também reagiu. Numa nota enviada à Lusa, o comissário responsável descreveu os ataques como uma “tentativa deliberada de perturbar a cadeia de abastecimento alimentar [da UE] e de comprometer a confiança dos consumidores na mesma”.
O precedente francês e o alerta do CERT-FR
Para perceber este caso é preciso recuar a outubro. Na noite de domingo, 11, para segunda-feira, 12 de outubro de 2026, centenas de supermercados franceses foram alvo de um ciberataque aos sistemas de refrigeração. O CERT-FR, a equipa de resposta a incidentes da agência francesa ANSSI, publicou nesse mesmo dia o alerta CERTFR-2026-ALE-012, com o título “Incidente de segurança que visa os controladores à distância das instalações de refrigeração” (tradução nossa). O alerta foi alargado a outros equipamentos a 13 de outubro e as recomendações foram revistas a 16 de outubro.
Até ao momento, nenhuma autoridade confirmou que os equipamentos das lojas portuguesas sejam os mesmos que o CERT-FR identificou. Ainda assim, a lista francesa é a melhor referência técnica pública para quem gere instalações de frio.
| Sistemas visados (alerta CERTFR-2026-ALE-012) | Tipo | Observações |
|---|---|---|
Danfoss série AK-SM | Gestor/supervisor de refrigeração | Constava da versão inicial do alerta (12 de outubro) |
Danfoss série AK-SC | Controlador de sistema de refrigeração | Constava da versão inicial do alerta (12 de outubro) |
Copeland xweb | Supervisor web | Acrescentado a 13 de outubro |
Dixell xweb | Supervisor web | Acrescentado a 13 de outubro |
Não há, por agora, um identificador CVE associado nem uma pontuação CVSS. Segundo uma análise da Brandefense publicada a 2 de novembro, nem o alerta do CERT-FR nem as declarações públicas da Danfoss indicam qualquer CVE para estas intrusões. A mesma análise refere que, segundo a Danfoss à AFP, os modelos em causa em França eram o AK-SM 800 (em fim de vida desde maio de 2021) e o AK-SC 355 (descontinuado em 2016). Ou seja, tudo indica que o problema está em interfaces de gestão expostas na Internet e em equipamentos antigos, e não numa vulnerabilidade nova. Também não foram publicados indicadores de comprometimento (IOCs), como endereços IP ou domínios.
Cronologia
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 11–12 out. 2026 | Ataque a sistemas de refrigeração de centenas de supermercados em França |
| 12 out. 2026 | O CERT-FR publica o alerta CERTFR-2026-ALE-012 (controladores Danfoss AK-SM e AK-SC) |
| 13 out. 2026 | O alerta passa a incluir os supervisores Copeland xweb e Dixell xweb |
| Outubro de 2026 | O CNCS anuncia medidas preventivas junto do retalho e dos prestadores de serviços de frio em Portugal |
| 16 out. 2026 | O CERT-FR revê as recomendações |
| 1–2 nov. 2026 | Nova vaga atinge a Bélgica, o Luxemburgo, a Suécia, a Irlanda e outros países; o Grupo Mosqueteiros confirma sete lojas Intermarché afetadas em Portugal |
O que devem fazer os retalhistas e os técnicos de frio
As recomendações do CERT-FR podem ser aplicadas por qualquer empresa com equipamentos de frio geridos à distância, incluindo PME da distribuição, talhos, padarias, restaurantes e operadores logísticos. Para equipamentos que não foram comprometidos, o alerta pede que se verifique toda a configuração, sobretudo os períodos de descongelação, e que o acesso seja reposto apenas através de uma VPN segura ou de uma rede protegida. Em termos práticos:
- Fazer o inventário dos controladores e supervisores de frio e confirmar, a partir de fora da rede, se alguma interface de gestão responde diretamente na Internet.
- Desligar essas interfaces da Internet pública e permitir o acesso remoto apenas por VPN com autenticação forte.
- Rever pontos de regulação de temperatura, alarmes e ciclos de descongelação, comparando-os com a configuração de referência.
- Aplicar as atualizações de firmware e as boas práticas do fabricante e planear a substituição dos equipamentos em fim de vida.
- Exigir aos prestadores de manutenção garantias contratuais de segurança no acesso remoto e uma notificação rápida em caso de incidente.
- Ter alarmes de temperatura independentes do sistema de gestão, para detetar subidas mesmo que o controlador seja manipulado.
Em caso de suspeita de intrusão, o incidente deve ser comunicado ao CERT.PT. Se houver indícios de crime, deve também ser participado à Polícia Judiciária.
Porque é que isto importa em Portugal
O caso do Intermarché mostra que um ataque à cadeia de fornecedores já não fica pelo roubo de dados: pode causar prejuízos físicos e pôr em causa a confiança no abastecimento alimentar. Depois do episódio francês, o CNCS revelou que “desencadeou as medidas necessárias” junto das empresas que integram o ISAC Retalho e Distribuição e de outras empresas do setor, numa intervenção que abrange também grandes prestadores de serviços de frio e refrigeração comercial em Portugal. Mesmo assim, o ataque chegou a lojas portuguesas através de um terceiro.
No plano legal, o Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a diretiva NIS2) inclui a produção, transformação e distribuição alimentar entre os setores abrangidos. Obriga ainda as entidades a gerir os riscos dos seus fornecedores e a notificar incidentes significativos dentro de prazos definidos. Os equipamentos de frio, muitas vezes geridos por empresas externas e esquecidos nos inventários de TI, entram por isso na gestão de risco. Como o incidente não terá envolvido dados de clientes, à primeira vista o RGPD não se aplica. Mas as empresas devem confirmar, em cada caso, se os sistemas comprometidos guardavam dados pessoais, como registos de acesso de colaboradores. Para os consumidores, a mensagem é de tranquilidade: o grupo garante que as condições de segurança alimentar estão asseguradas. Para as empresas, o aviso é claro: qualquer equipamento ligado à Internet tem de ser protegido.
Perguntas frequentes
Quantas lojas Intermarché foram afetadas em Portugal?
O Grupo Mosqueteiros confirmou sete lojas Intermarché com problemas nos sistemas de refrigeração. Não revelou onde ficam.
Os alimentos à venda são seguros?
Segundo o Grupo Mosqueteiros, a cadeia de abastecimento não foi afetada e estão asseguradas todas as condições de higiene e segurança alimentar.
Como é que os atacantes manipularam os frigoríficos?
Em Portugal, o ataque terá passado por um prestador externo que gere os sistemas de refrigeração. Noutros países houve relatos de evaporadores forçados a entrar em modo de descongelação. Em França, o CERT-FR associou os ataques a controladores de refrigeração geridos à distância e expostos na Internet.
O que deve fazer uma PME com equipamentos de frio ligados à Internet?
Deve retirar as interfaces de gestão da Internet pública, aceder-lhes apenas por VPN ou rede protegida, rever a configuração e os ciclos de descongelação e aplicar as atualizações do fabricante. Em caso de suspeita de intrusão, deve contactar o CERT.PT.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pelo CERT-FR (ANSSI), pelo Grupo Mosqueteiros, pelo Centro Nacional de Cibersegurança e pela Comissão Europeia.

