Alerta da Apple no seu iPhone? Nova vaga de spyware mercenário atinge 99 países

Alerta da Apple no seu iPhone? Nova vaga de spyware mercenário atinge 99 países

A Apple começou a enviar uma nova ronda de notificações de ameaça a utilizadores que acredita terem sido alvo, individualmente, de spyware mercenário. Segundo o texto da notificação, o alerta está a ser enviado a utilizadores visados em 99 países e a empresa já notificou, até hoje, utilizadores em mais de 150 países no total. A vaga chega menos de três meses depois da anterior, já fez reagir as autoridades alemãs e voltou a pôr em evidência a falta de regras para o mercado das ferramentas comerciais de intrusão.

Resposta rápida: Desde 29 de outubro de 2026, a Apple está a avisar utilizadores em 99 países de que foram visados por spyware mercenário. O alerta indica que houve uma tentativa de ataque, mas não confirma que o equipamento tenha sido infetado. A Apple não identificou os atacantes, o software usado nem a falha explorada. Quem receber o alerta deve confirmá-lo em account.apple.com, não clicar em ligações de mensagens suspeitas, preservar o dispositivo tal como está e pedir apoio especializado.

O que se sabe sobre a nova vaga

A ronda veio a público através do investigador de ameaças Costin Raiu. Segundo a Recorded Future News, a notificação refere que os alertas foram enviados a utilizadores visados em 99 países, de acordo com uma captura de ecrã publicada no X por Raiu, que diz ter verificado a autenticidade das notificações de várias vítimas. Entre os visados estão um repórter baseado na Turquia e um realizador de documentários libanês.

Outro destinatário, o jornalista Radwan Mortada, anunciou no X ter recebido uma notificação de ameaça na quinta-feira. Disse à mesma publicação que o seu telefone já tinha sido visado pelo spyware Pegasus, do tipo zero-click, em 2017 e 2021. Até à publicação dessa notícia, a Apple não tinha respondido aos pedidos de comentário nem divulgado as notificações no seu site.

Como é habitual, a empresa não aponta responsáveis. No texto enviado às vítimas, a Apple afirma que, perante o custo extremo, a sofisticação e o alcance mundial destes ataques, não atribui os ataques nem a notificação a atacantes ou regiões geográficas específicas. Também não identificou publicamente os 99 países, o número de destinatários nem os produtos de spyware suspeitos nesta ronda. Por isso, não é possível dizer se há destinatários em Portugal.

Cronologia das vagas recentes

O CERT-FR, a equipa francesa de resposta a incidentes que depende da ANSSI, regista as campanhas de que tem conhecimento num relatório que vai atualizando. No relatório do CERT-FR, a campanha de 29 de outubro de 2026 foi acrescentada a 30 de outubro. O organismo avisa que este historial não é exaustivo, porque só inclui as campanhas de que tem conhecimento.

DataAcontecimento
2021A Apple começa a enviar notificações de ameaça às pessoas visadas
26 de fevereiro de 2026Campanha de notificações registada pelo CERT-FR
13 de agosto de 2026Vaga com destinatários em 110 países; a Apple publica a nova página de apoio e passa a mostrar os alertas no ecrã de bloqueio
29 de outubro de 2026Os primeiros alertas chegam aos iPhones (segundo o BSI e o CERT-FR)
30 de outubro de 2026Costin Raiu divulga a nova ronda (99 países); o CERT-FR atualiza o relatório
1 de novembro de 2026O ministro alemão do Digital confirma que deputados e membros do Governo receberam alertas

A vaga anterior ocorreu em agosto. Na altura, a Apple confirmou ter enviado notificações a utilizadores visados em 110 países. Os números das duas vagas não devem ser somados: indicam onde estavam os utilizadores notificados, não quantas vítimas ou infeções confirmadas houve.

Alemanha: deputados e governantes entre os alertados

Até agora, o caso com mais impacto político é o alemão. O ministro federal do Digital, Karsten Wildberger, confirmou informações do estúdio da ARD em Berlim: deputados do Bundestag e membros do Governo federal receberam avisos da Apple de que os seus equipamentos podem ter sido visados. Segundo uma carta do BSI, a agência federal alemã de segurança informática, os alertas chegaram aos iPhones das pessoas afetadas a partir de 29 de outubro.

O BSI optou pela prudência e recomenda aos visados que partam do princípio, por precaução, de que os telemóveis podem estar comprometidos. A agência explica também que este tipo de spyware pode dar acesso a mensagens, incluindo as de aplicações cifradas, a chamadas, contactos, calendários e dados de localização, e pode ainda ativar o microfone e a câmara do telefone. Mesmo assim, as notificações não indicam se os ataques foram bem-sucedidos, e o BSI diz não ter mais informações sobre o contexto ou a origem concreta.

O que significa receber uma notificação

Na página de apoio da Apple, a empresa afirma que estas notificações servem para avisar pessoas que podem ter sido visadas individualmente por ataques de spyware mercenário, provavelmente por causa de quem são ou do que fazem. Acrescenta que, embora as investigações nunca alcancem certeza absoluta, as notificações são alertas de elevada confiança e devem ser levadas muito a sério.

Há um pormenor importante: o alerta pode chegar muito depois do ataque. O CERT-FR indica que podem passar vários meses entre a tentativa de comprometimento e o envio do alerta. A Apple não explica como deteta estes ataques. Segundo a empresa, essa informação poderia ajudar os atacantes a adaptar o seu comportamento para escapar à deteção no futuro.

Como confirmar que o alerta é legítimo

Alertas de segurança chamativos são um isco clássico de phishing. Por isso, convém confirmar qualquer aviso por canais oficiais. A Apple usa os seguintes canais:

CanalIndicador legítimo
iPhoneAlerta no ecrã de bloqueio e nas Definições
E-mail[email protected]
iMessage[email protected]
Conta AppleFaixa de aviso no topo da página, depois de iniciar sessão em account.apple.com

A forma mais segura de confirmar é iniciar sessão em account.apple.com, escrevendo o endereço diretamente no navegador e não através de uma ligação recebida. Se a notificação for verdadeira, aparece no topo da página da conta.

O que fazer se receber o alerta

  • Não altere o dispositivo de imediato. O CERT-FR recomenda contactar rapidamente as suas equipas para obter assistência técnica, guardar o e-mail recebido e não modificar o aparelho de imediato, para preservar provas que permitam uma análise forense.
  • Peça apoio especializado. A Apple indica que quem recebe uma notificação pode contactar a Digital Security Helpline, da Access Now, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Em Portugal, pode também reportar o incidente ao CERT.PT, do Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS).
  • Desconfie de “soluções” pagas. Raiu avisou que é preciso ter cuidado com empresas que oferecem soluções pagas para infeções por spyware.
  • Ative o Modo de Bloqueio (Lockdown Mode). A Apple recomenda-o como proteção adicional, mesmo a quem não recebeu alertas mas tem boas razões para acreditar que pode ser visado individualmente.
  • Mantenha o sistema atualizado em todos os dispositivos ligados à mesma conta Apple.

Pressão diplomática sobre o mercado do spyware

A nova vaga coincide com a fase final das negociações internacionais sobre o setor. O Processo de Pall Mall foi lançado pela França e pelo Reino Unido em 2024 e levou à adoção, em abril de 2025, de um Código de Prática para os Estados. Segundo o Business and Human Rights Resource Centre, as negociações de um código equivalente para a indústria decorreram entre agosto e outubro de 2026, e o lançamento está previsto para novembro de 2026. A Apple, no entanto, não disse que as notificações estão relacionadas com as negociações de Pall Mall.

Para as organizações de direitos digitais, o alcance geográfico dos alertas é revelador. Natalia Krapiva, da Access Now, considera que o número de notificações vindas de todo o mundo indica que a luta contra o abuso de spyware está longe de terminar.

Porque é que isto importa em Portugal

Para a grande maioria dos cidadãos, o risco direto é baixo: estes ataques são caros e dirigidos a poucas pessoas. Já jornalistas, ativistas, advogados, autarcas, decisores políticos e quadros de empresas com informação sensível podem ser alvos plausíveis. O caso alemão mostra que estas campanhas também visam a Europa e os seus centros de decisão.

Nas organizações, o telemóvel de um gestor ou de um responsável técnico pode tornar-se uma porta de entrada para informação estratégica. As entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2) devem incluir os dispositivos móveis da gestão na sua análise de risco e prever procedimentos para quando um colaborador recebe um alerta destes. Isso inclui saber a quem reportar, como preservar provas e quando contactar o CNCS/CERT.PT. Se um equipamento comprometido tiver dados pessoais de terceiros, a organização pode ainda ter de avaliar as suas obrigações de notificação ao abrigo do RGPD.

Perguntas frequentes

Receber uma notificação da Apple significa que o meu iPhone está infetado?

Não necessariamente. A notificação indica, com elevada confiança, que foi visado por um ataque de spyware mercenário, mas não prova que a infeção tenha acontecido. Por precaução, deve tratar o equipamento como potencialmente comprometido e procurar uma análise especializada.

Como sei se o alerta é verdadeiro e não phishing?

Inicie sessão em account.apple.com, escrevendo o endereço diretamente no navegador. Se o alerta for legítimo, aparece no topo da página da sua conta. Os e-mails verdadeiros vêm de [email protected], e a Apple não pede palavras-passe nem códigos nestas notificações.

A Apple revelou quem está por trás dos ataques ou que spyware foi usado?

Não. A Apple não atribui os ataques a atacantes, governos ou regiões, não revela a lista dos 99 países e não identificou o software nem a vulnerabilidade usados nesta vaga.

O que devo fazer de imediato se receber o alerta?

Guarde a notificação e não altere nem reponha o dispositivo antes de pedir ajuda. Contacte a Digital Security Helpline da Access Now ou o CERT.PT e ative o Modo de Bloqueio. Desconfie de empresas que prometem remover spyware mediante pagamento.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Apple, pelo CERT-FR e pela Recorded Future News.