Quatro meses depois de um ciberataque grave que paralisou os serviços municipais a 12 de fevereiro de 2026, a Câmara Municipal da Guarda voltou a lançar um concurso público para aquisição e implementação de infraestruturas de cibersegurança. O concurso, publicado no Diário da República em junho de 2026, tem um preço-base de 423.655 euros mais IVA e um prazo de execução de 36 meses — e representa a primeira tentativa concreta de recuperação e modernização tecnológica da autarquia este ano, após o primeiro concurso ter ficado deserto.
O ataque de fevereiro: um mês de paralisação
O incidente de cibersegurança que atingiu a Câmara da Guarda a 12 de fevereiro de 2026 foi descrito internamente como um “incidente cibernético complexo” que deixou múltiplos serviços municipais offline durante semanas. O ataque coincidiu com o mesmo dia em que a Polícia Judiciária realizava buscas nos Paços do Concelho no âmbito de um inquérito independente sobre participação económica em negócio e prevaricação.
Volvidos quatro meses desde o incidente, as consequências nos serviços municipais ainda não foram totalmente resolvidas, segundo o presidente da câmara, Sérgio Costa, que admitiu em reunião de executivo que as necessidades totais em tecnologia e cibersegurança ascendem a dois milhões de euros. A falta de verbas tem sido um obstáculo significativo, com a autarquia à procura de fontes de financiamento externas.
O novo concurso e o que está em causa
O concurso agora lançado — por cerca de 424 mil euros — é o primeiro de uma série de investimentos planeados. O presidente da câmara foi claro sobre as prioridades imediatas: “O primeiro concurso tinha ficado deserto, pelo que abrimos novamente por cerca de meio milhão de euros. Esperemos que desta vez possa ser adjudicado para reforçarmos o armazenamento informático que necessitamos no município.”
O prazo para apresentação de propostas foi estabelecido para 2 de julho de 2026. A autarquia prevê que os restantes 1,5 milhões de euros necessários sejam investidos em fases posteriores, dependendo do acesso a financiamento externo.
O padrão: autarquias cada vez mais visadas
O caso da Guarda não é isolado. As câmaras municipais e outras entidades da administração pública local têm sido alvos recorrentes de ciberataques em Portugal. O relatório anual do CNCS identifica as entidades da Administração Pública como um dos setores mais afetados por incidentes de cibersegurança, com ataques de ransomware e perturbação de serviços a representar os vetores mais comuns.
A vulnerabilidade das autarquias resulta de vários fatores combinados: orçamentos limitados para tecnologia, sistemas legados desatualizados, falta de pessoal especializado em cibersegurança, e a natureza crítica dos serviços que prestam — registos, licenciamento, gestão de dados de cidadãos — que os torna alvos atrativos para ransomware e extorsão.
As obrigações da NIS2 para as autarquias
Com a entrada em vigor do novo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, transposição da NIS2 para Portugal), as entidades da Administração Pública — incluindo municípios — passam a ter obrigações formais de registo, gestão de risco e notificação de incidentes ao CNCS através da plataforma MyCiber.
O caso da Guarda ilustra o que o incumprimento desta realidade pode custar: meses de paralisação parcial, dois milhões de euros em recuperação, dano reputacional e perturbação dos serviços aos cidadãos. O investimento preventivo em cibersegurança é sistematicamente inferior ao custo da recuperação após um ataque.
Fontes: Observador, TugaTech, Notícias do Centro, Lusa — junho de 2026.
