A app do seu banco falhou hoje? O que se passou na Google Cloud em Londres

A app do seu banco falhou hoje? O que se passou na Google Cloud em Londres

Esta terça-feira, 20 de outubro, um problema de alimentação elétrica num centro de dados da Google Cloud em Londres causou erros e interrupções em vários serviços digitais europeus que dependem dessa infraestrutura. Um dos afetados foi o banco digital Revolut, que muitos clientes usam em Portugal. Durante a manhã houve também relatos de clientes da Caixa Geral de Depósitos (CGD) com dificuldades na aplicação Caixadirecta. Até à hora de publicação, porém, não encontrámos qualquer confirmação oficial do banco público de que essas falhas tenham origem no incidente da Google.

Resposta rápida: Uma falha de energia na zona europe-west2-b da Google Cloud, em Londres, provocou erros e cortes de rede em vários serviços desde as 07:08 de Lisboa. A Revolut confirmou perturbações e garante que o dinheiro e os dados dos clientes estão seguros. Os problemas na app da CGD não foram ligados oficialmente ao incidente. Se não consegue aceder ao seu banco, use os canais oficiais e desconfie de SMS ou e-mails que aproveitem a falha para pedir credenciais.

Uma falha elétrica que afetou uma região inteira

Segundo o painel oficial de estado da Google Cloud, o problema afetou múltiplos serviços na região europe-west2, a partir de segunda-feira, 19 de outubro, às 23:08 (hora do Pacífico), o que corresponde às 07:08 desta terça-feira em Lisboa. A empresa explicou depois que um evento de energia causou uma interrupção na zona europe-west2-b.

Na descrição técnica, a Google refere que os seus serviços ficaram indisponíveis na zona europe-west2-b e que alguns serviços da região podiam apresentar erros elevados e problemas intermitentes de rede. Ou seja, a avaria física concentrou-se numa zona, mas teve efeitos noutras partes da região de Londres. Este é um ponto sensível, já que as arquiteturas em nuvem dividem as regiões em zonas precisamente para que uma avaria local não se espalhe.

A solução temporária recomendada pela Google aos clientes foi, quando possível, migrar as cargas de trabalho afetadas para outra localização disponível (zona ou região). Numa atualização posterior, a empresa disse que o evento de energia estava mitigado e que a prioridade era recuperar as cargas de trabalho existentes. Avisou ainda que os clientes podiam ainda não conseguir criar novas cargas de trabalho.

Cronologia do incidente

Todas as horas estão em hora de Lisboa (UTC+1), convertidas a partir das referências publicadas pela Google e por plataformas de monitorização.

Hora (Lisboa)Acontecimento
07:08Início oficial do incidente na região europe-west2, segundo a Google
09:35Primeira publicação do incidente no painel público, cerca de 2 h 27 min depois do início
12:12A Google atribui a falha a um evento de energia na zona europe-west2-b e anuncia uma mitigação parcial nos 30 minutos seguintes
12:58Atualização: evento de energia mitigado e prioridade à recuperação das cargas de trabalho existentes
13:44A Google indica que a maioria das cargas de trabalho está a recuperar
14:00Previsão provisória da Google para a recuperação total das cargas de trabalho existentes

O tempo que o incidente demorou a aparecer no painel público foi criticado. Segundo uma plataforma de monitorização, a Google publicou o incidente às 08:35 UTC, cerca de 2 horas e 27 minutos depois do início oficial. Antes disso, alguns administradores de sistemas já davam conta de falhas em fóruns técnicos.

Revolut confirmou perturbações. CGD sem ligação oficial ao incidente

A Revolut foi o caso mais visível na Europa continental. Numa declaração pública, a fintech disse estar a enfrentar uma interrupção que afetava vários serviços e garantiu: “We can confirm that all our customers’ money and data are safe” (todo o dinheiro e dados dos clientes estão seguros). Segundo a imprensa económica portuguesa, citando a agência Reuters, uma pessoa familiarizada com o assunto confirmou que a falha da Revolut está relacionada com a interrupção dos serviços da Google Cloud na região de Londres. A disrupção estendeu-se também à Revolut Business.

No Reino Unido, os relatos de utilizadores no Down Detector incluíam nomes como Lloyds Bank, HSBC, Royal Mail, Rightmove, DPD, BT, Cloudflare, Screwfix e Revolut. Note-se que os relatos de utilizadores indicam perturbações, mas não provam por si só que a causa seja sempre a mesma.

Em Portugal, foram relatadas dificuldades no início de sessão e na realização de operações na aplicação Caixadirecta. Contudo, nas fontes consultadas, não encontrámos qualquer declaração da CGD a confirmar que os problemas resultam do incidente da Google Cloud, nem que o banco use essa infraestrutura nos serviços afetados. Noutras falhas do passado, a CGD afastou o cenário de ataque informático e lembrou que em alternativa, os clientes podiam fazer transações nas caixas ATM ou em qualquer agência.

O que devem fazer os clientes afetados

Uma falha de disponibilidade não é um ciberataque, e nada indica que tenha havido comprometimento de dados. Mas incidentes deste tipo costumam ser aproveitados por burlões, que enviam mensagens a imitar bancos no momento em que os clientes estão mais ansiosos.

  • Confirme o estado do serviço apenas nos canais oficiais do banco (site, perfis verificados nas redes sociais, linha de apoio que consta no cartão).
  • Não clique em links de SMS ou e-mails que falem em “reativar a conta”, “validar dados após a falha” ou “atualizar a aplicação”.
  • Não instale aplicações fora das lojas oficiais nem partilhe códigos de autenticação, nem mesmo com quem diga ser do banco.
  • Se precisa de pagar com urgência, use a rede Multibanco, outro cartão ou outro meio de pagamento, e confirme depois nos extratos que não houve operações duplicadas.

Lições para PME e equipas técnicas

Para as empresas que alojam aplicações em nuvem pública, o incidente lembra que uma única zona, e mesmo uma única região, pode falhar. Estas são as medidas práticas mais relevantes:

  • Distribuir os serviços críticos por várias zonas e, quando o negócio o justificar, por mais do que uma região, com réplicas de bases de dados testadas.
  • Testar com regularidade os procedimentos de failover e verificar se é possível criar novos recursos noutra região durante uma crise, pois a própria Google avisou que a criação de novas cargas podia falhar.
  • Não depender só da página pública de estado: acompanhar o painel Service Health na consola e ter monitorização própria e independente.
  • Preparar comunicação de crise para clientes, com mensagens que não possam ser confundidas com phishing.

Porque é que isto importa em Portugal

No setor financeiro, a dependência de fornecedores de nuvem já está regulada a nível europeu. Desde 17 de janeiro de 2025, o Regulamento (UE) 2022/2554, conhecido como DORA, aplica-se diretamente a quase todas as entidades financeiras supervisionadas na UE. Bancos, seguradoras e instituições de pagamento são obrigados a gerir o risco de terceiros na área das TIC, a ter planos de continuidade e a comunicar incidentes graves às autoridades competentes.

Ao abrigo do mesmo regulamento, a própria Google Cloud é supervisionada a nível europeu. Num comunicado de novembro de 2025, a empresa confirmou que as Autoridades Europeias de Supervisão designaram a Google Cloud EMEA Limited e as suas subsidiárias como fornecedor terceiro crítico de TIC ao abrigo do DORA. Essa designação traz supervisão direta, e os reguladores vão provavelmente querer explicações sobre incidentes como o de hoje.

Fora do setor financeiro, o Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2) também exige às entidades abrangidas que avaliem os riscos da cadeia de fornecimento, incluindo os fornecedores de nuvem. Os incidentes significativos devem ser notificados ao CNCS/CERT.PT. Do lado da proteção de dados, o RGPD inclui a disponibilidade e a resiliência dos sistemas entre as dimensões da segurança do tratamento. Uma indisponibilidade prolongada deve, por isso, ser avaliada pelas organizações, mesmo quando não há fuga de dados.

Para os cidadãos, a lição é simples: quando uma aplicação bancária deixa de funcionar, convém ter sempre um meio de pagamento alternativo e desconfiar de quem aproveita a confusão para pedir dados.

Perguntas frequentes

O que causou a falha da Google Cloud a 20 de outubro?

Segundo a Google, um evento de energia causou uma interrupção na zona europe-west2-b, em Londres. Outros serviços da região apresentaram erros e falhas intermitentes de rede.

A falha na app Caixadirecta da CGD foi causada pela Google Cloud?

Não há confirmação oficial. Houve relatos de dificuldades na app, mas até à hora de publicação a CGD não tinha ligado publicamente o problema ao incidente da Google.

O meu dinheiro ou os meus dados estão em risco?

Trata-se de uma falha de disponibilidade e não de um ataque. A Revolut afirmou que o dinheiro e os dados dos clientes estão seguros. O maior risco é cair em burlas que se fazem passar pelo banco.

Que regras se aplicam aos bancos quando um fornecedor de nuvem falha?

O regulamento europeu DORA obriga as entidades financeiras a gerir o risco de fornecedores de TIC e a comunicar incidentes graves. A Google Cloud está designada como fornecedor crítico sob supervisão europeia direta.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Google Cloud (painel de estado) e pela Google Cloud (comunicado sobre o DORA), bem como em declarações da Revolut.