O Governo do Reino Unido retirou do ar dezenas de serviços públicos por precaução. A causa é o PHP2Shell, um par de vulnerabilidades críticas no próprio motor do PHP, a linguagem que serve a maioria dos sites da Internet. Os números foram revelados na Câmara dos Lordes na quinta-feira, 22 de outubro, pela ministra britânica da tecnologia, Baroness Lloyd of Effra: 32 serviços governamentais indisponíveis e quatro parcialmente indisponíveis. Segundo a ministra, não há confirmação de qualquer comprometimento. O episódio mostra a dimensão de um problema que obrigou governos e empresas de vários países a corrigir os seus sistemas de urgência.
Resposta rápida: O PHP2Shell (CVE-2026-109618 e CVE-2026-109619, CVSS v4.0 de 9.2) permite executar código remotamente em servidores PHP sem autenticação. O Reino Unido desligou 32 serviços públicos por precaução e já há tentativas de exploração registadas. Quem gere sites ou aplicações em PHP deve atualizar de imediato para as versões 8.5.12, 8.4.27, 8.3.36 ou 8.2.35 e reiniciar os processos PHP. Quem não puder atualizar já deve aplicar as mitigações temporárias ou retirar os sistemas expostos da Internet.
O que aconteceu no Reino Unido
De acordo com a ministra, a indisponibilidade resulta sobretudo de medidas de precaução tomadas para proteger os sistemas enquanto se aplicam atualizações de segurança e mitigações. O executivo não divulgou a lista completa dos serviços afetados. Sabe-se que o Office for Budget Responsibility (OBR) desligou os seus sites, e os membros da câmara alta referiram perturbações na DVLA e em serviços policiais. Também ficaram inacessíveis os sites das câmaras de Edimburgo e Oxford e da Polícia Metropolitana, e surgiram mensagens de erro nos portais de Bristol, Lambeth e Barnet.
Downing Street tentou desdramatizar a situação. Uma porta-voz afirmou que nenhum grande serviço crítico de acesso público foi afetado e que estar offline não significa ter sido atacado. Baroness Lloyd disse ainda que a OpenAI informou o National Cyber Security Centre (NCSC) sobre a vulnerabilidade na semana anterior e que o Governo agiu antes da divulgação pública.
O Reino Unido não foi caso único. Alemanha, França, Bélgica, Finlândia e Países Baixos também desligaram sites governamentais por precaução, tal como fez a agência de cibersegurança australiana. Nos EUA, a NSA pediu às organizações que corrijam ou desliguem os sistemas vulneráveis.
O que é o PHP2Shell
O PHP2Shell junta duas falhas de segurança de memória no núcleo do PHP. Por isso, o risco não depende de um plugin ou de uma aplicação mal escrita. O projeto PHP descreve a CVE-2026-109618 como execução remota de código através de corrupção por falta de memória durante a limpeza do pedido. A CVE-2026-109619 resulta de estado global de um pedido que fica para trás e é reutilizado por um pedido seguinte no mesmo processo. Segundo a Imperva, até um endpoint que apenas responde OK pode ser afetado, porque o processamento vulnerável acontece antes de correr qualquer linha de código da aplicação.
As falhas foram divulgadas em conjunto por investigadores da Wiz, da OpenAI e da Calif. Segundo os investigadores da Wiz, os defeitos existiam há décadas, mas provar que eram exploráveis exigia uma cadeia de passos muito complexa, e os modelos de IA de fronteira baixaram muito essa barreira.
Ambas as falhas têm uma pontuação de 9.2 na escala CVSS v4.0. O PHP indica que estão em risco todas as instalações que servem pedidos web, incluindo PHP-FPM, Apache com mod_php, php-cgi, FrankenPHP e LiteSpeed. O risco é mais alto no mod_php, onde um pedido sem autenticação pode desencadear a exploração. O NCSC neerlandês lembra que o PHP também está embutido em equipamentos, dispositivos de rede e interfaces de gestão onde os administradores podem não conseguir atualizá-lo diretamente.
Versões afetadas e corrigidas
| Ramo PHP | Versões afetadas | Versão corrigida |
|---|---|---|
| 8.5 | 8.5.0 a 8.5.11 | 8.5.12 |
| 8.4 | 8.4.0 a 8.4.26 | 8.4.27 |
| 8.3 | anteriores a 8.3.36 | 8.3.36 |
| 8.2 | anteriores a 8.2.35 | 8.2.35 |
| 8.1 e anteriores (fim de vida) | afetadas | sem versão oficial; apenas backports mínimos de código-fonte para 7.4, 8.0 e 8.1 |
Os ramos antigos são um ponto de atenção. A AWS recomenda que quem usa runtimes em fim de vida (5.4 a 8.1) aplique os controlos de configuração provisórios para a CVE-2026-109619 e comece já a migração, porque não existe correção para a CVE-2026-109618 nesses ramos. A exposição é grande: a Unit 42, da Palo Alto Networks, diz ter identificado mais de 22,6 milhões de instâncias expostas e potencialmente vulneráveis.
Cronologia: de uma fuga de informação a ataques reais
| Data (2026) | Acontecimento |
|---|---|
| 17 de outubro | A Amazon Threat Intelligence deteta uma tentativa de exploração na rede de iscos MadPot, quatro dias antes da divulgação pública |
| 20 de outubro | Detalhes das falhas surgem online antes da divulgação coordenada; o PHP anuncia uma release de emergência |
| 21 de outubro, 03h02 UTC | A Cloudflare ativa regras WAF por defeito para os seus clientes |
| 21 de outubro, cerca das 13h35 UTC | O PHP publica as versões 8.5.12, 8.4.27, 8.3.36 e 8.2.35; o NCSC britânico emite um alerta |
| 22 de outubro | O Governo britânico confirma 32 serviços indisponíveis e quatro parcialmente indisponíveis |
A watchTowr resume o que correu mal: a 20 de outubro, os detalhes das duas falhas apareceram online antes da divulgação coordenada e antes de haver correções. A Cloudflare diz ter observado tráfego de ataque contra os seus clientes e que os atacantes alteravam o payload para tentar contornar as proteções. A watchTowr também relata tentativas ativas de exploração das duas CVE na sua rede de honeypots. Ainda assim, a Recorded Future nota que a informação disponível não permite saber quantos ataques tiveram sucesso nem quantos sistemas foram comprometidos. A 22 de outubro, a CISA ainda não tinha incluído nenhuma das CVE no catálogo de vulnerabilidades exploradas.
Indicadores e deteção
As fontes primárias consultadas não publicaram listas de IOCs (endereços IP, domínios ou hashes) associadas a campanhas concretas. Os sinais a vigiar dizem respeito ao tipo de tráfego usado nos ataques. Entre eles estão pedidos multipart invulgarmente grandes, que levam o PHP a esgotar a memória, e o abuso da funcionalidade de progresso de upload das sessões. Para a CVE-2026-109618, a AWS sugere bloquear no WAF corpos de pedido acima de 8 KB (8192 bytes). O NCSC dos Países Baixos mantém um repositório com informação operacional e uma lista de produtos com dependência de PHP potencialmente afetados.
Como mitigar
O NCSC britânico definiu uma ordem clara: atualizar de imediato; se não for possível, aplicar as medidas temporárias publicadas pelo PHP; se nem essas puderem ser aplicadas depressa, ponderar desligar os sistemas afetados. Na prática:
- Inventariar: identificar todos os sistemas com PHP, a começar pelos expostos à Internet, sem esquecer equipamentos e software de terceiros.
- Atualizar e reiniciar: instalar 8.5.12, 8.4.27, 8.3.36 ou 8.2.35 (ou os pacotes da sua distribuição), reiniciar os processos PHP e reconstruir as imagens de contentores.
- Medidas provisórias: segundo análises técnicas publicadas, desativar
session.upload_progress.enabled, usarpm.max_requests = 1no PHP-FPM, desligarfatal_error_backtracesno PHP 8.5 e reduzirpost_max_size. O próprio PHP avisa que nenhuma destas medidas é completa. - Fornecedores: perguntar ao alojamento ou ao prestador de serviços se o PHP já foi atualizado.
- Vigiar: rever registos à procura de pedidos anómalos e sinais de execução de comandos desde 17 de outubro.
Porque é que isto importa em Portugal
Muitos sites de câmaras, institutos públicos, lojas online e PME portuguesas funcionam com WordPress, Joomla, Drupal ou Magento, todos assentes em PHP. O Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) publicou um alerta sobre a release de emergência. O CNCS explica que as falhas resultam de corrupção de memória no núcleo do PHP e permitem execução remota de código sem autenticação nem interação do utilizador.
As entidades essenciais e importantes abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2) têm de gerir vulnerabilidades e notificar incidentes significativos ao CNCS/CERT.PT. Convém documentar a correção, as mitigações aplicadas e a decisão de desligar ou manter serviços. Se uma exploração bem-sucedida expuser dados pessoais, entram também em jogo as obrigações do RGPD, incluindo a notificação à CNPD no prazo de 72 horas. Para os cidadãos, o risco está nos servidores e não nos seus dispositivos. Ainda assim, convém ficar atento a eventuais avisos de violação de dados enviados pelos serviços que usam.
Perguntas frequentes
O que é o PHP2Shell?
É o nome dado a duas vulnerabilidades críticas no motor do PHP, CVE-2026-109618 e CVE-2026-109619, com CVSS v4.0 de 9.2. Permitem executar código remotamente num servidor sem autenticação.
Que versões do PHP corrigem as falhas?
As versões 8.5.12, 8.4.27, 8.3.36 e 8.2.35, publicadas a 21 de outubro de 2026. Os ramos 8.1 e anteriores estão em fim de vida e não recebem versão oficial, pelo que devem ser migrados.
Os serviços britânicos desligados foram atacados?
Segundo o Governo britânico, não. Os 32 serviços indisponíveis e os quatro parcialmente indisponíveis foram desligados sobretudo por precaução, e não há confirmação de comprometimento de sistemas do Estado.
Tenho um site WordPress. O que devo fazer?
Confirme a versão de PHP do seu alojamento e pergunte ao fornecedor se já instalou a correção. Se gere o servidor, atualize o PHP, reinicie os processos e reveja os registos à procura de pedidos anómalos.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente por NCSC (Reino Unido), NCSC-NL, CNCS, AWS, watchTowr, Cloudflare e The Register.

