As perdas não seguradas associadas a ciberataques deverão crescer de 171 mil milhões de dólares em 2023 para mais de 700 mil milhões de dólares até 2030. O alerta surge no relatório Insurtech Global Outlook 2026, publicado a 10 de junho pela consultora tecnológica NTT DATA, que identifica a cibersegurança como o principal risco do setor segurador — e a inteligência artificial como a resposta mais promissora para fechar a crescente lacuna entre risco e resiliência.
Um setor a enfrentar um ponto de inflexão
O relatório, que analisa tendências globais do setor segurador, conclui que o risco está a acelerar a um ritmo que supera a capacidade de resposta das seguradoras. A cibersegurança é identificada como a maior fonte de exposição não segurada a nível global, com perdas projetadas a mais do que quadruplicar no espaço de sete anos. Em simultâneo, as perdas não seguradas relacionadas com o clima — inundações, incêndios e fenómenos meteorológicos extremos — já totalizam 180 mil milhões de dólares, enquanto as indemnizações por responsabilidade civil registaram um aumento de 57%.
Bruno Abril, Global Head of Insurance da NTT DATA, Inc., sintetizou o desafio: “A indústria seguradora enfrenta transformações estruturais num contexto de volatilidade e incerteza sem precedentes. No entanto, existem oportunidades claras para que as seguradoras adotem soluções baseadas em Inteligência Artificial, reforçando a confiança e a resiliência.”
O paradoxo da IA no setor segurador
Apesar do potencial identificado — a adoção de operações nativas em IA poderia gerar poupanças de até 35% em automação e otimização de processos —, o relatório revela um paradoxo preocupante. Apenas 22% das seguradoras conseguiram escalar soluções de IA para a fase de produção, mesmo sendo que 66% da força de trabalho do setor já utiliza ferramentas de IA. Os principais entraves não são tecnológicos: são de confiança, de governação e de modelos operacionais que não foram concebidos para a era da inteligência artificial.
Outros dados do relatório
O Insurtech Global Outlook 2026 assinala ainda que as ofertas públicas iniciais (IPO) de seguradoras nos Estados Unidos atingiram o valor mais elevado dos últimos 20 anos, e que as startups do setor recorrem crescentemente ao financiamento por dívida, que ultrapassou os 9,5 mil milhões de dólares e já supera o financiamento por capital próprio. O mercado de seguros integrados (embedded insurance) ultrapassou os 116 mil milhões de dólares em 2025, sinalizando a expansão do setor para novos canais de distribuição.
Porque é que isto importa
A projeção de mais de 700 mil milhões de dólares em perdas cibernéticas não seguradas até 2030 tem implicações que vão além do setor segurador. Para as organizações — incluindo as portuguesas abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (NIS2) —, os dados sublinham que a cobertura de seguros para risco cibernético está a tornar-se simultaneamente mais necessária e mais difícil de obter, à medida que as seguradoras reveem modelos de risco e prémios face à crescente sinistralidade. A incapacidade de escalar IA para a produção, num momento em que o risco digital acelera, representa um risco sistémico para a estabilidade do setor financeiro global.
Esta informação tem carácter noticioso e baseia-se no relatório Insurtech Global Outlook 2026 da NTT DATA, publicado a 10 de junho de 2026, e em reportagens do Jornal Económico e FinTech Magazine.
