Portugueses perdem em média mais de 800€ em burlas via apps de mensagens — e a IA está a torná-las mais difíceis de detetar

Os utilizadores portugueses estão entre as principais vítimas de burlas realizadas através de aplicações de mensagens, e as perdas financeiras são mais elevadas em Portugal do que na maioria dos países analisados. É o que revela o estudo global da Kaspersky intitulado The Great Messaging Heist, publicado a 6 de junho de 2026. Os dados traçam um panorama preocupante: a perda média por vítima em Portugal ultrapassa os 800 euros — mais de 125 euros acima da média mundial de 675 euros —, e os criminosos recorrem cada vez mais a ferramentas de inteligência artificial para tornar os esquemas mais difíceis de detetar.

WhatsApp, SMS e Facebook: os canais preferidos dos burlões em Portugal

O WhatsApp é a plataforma mais utilizada pelos criminosos para atingir utilizadores portugueses, presente em 56,57% dos casos reportados no estudo — um valor significativamente acima da média global de 43%. Os SMS e o iMessage surgem na segunda posição, afetando 49,4% das vítimas nacionais (vs. 40% globalmente), seguidos pelo Facebook, presente em 17,5% dos casos portugueses, abaixo da média global de 27%.

Um traço distintivo das burlas em Portugal é o seu carácter multiplataforma: em 60% dos casos, os criminosos iniciaram o contacto num canal — tipicamente por SMS — e depois dirigiram a vítima para o WhatsApp ou o Telegram, tornando mais difícil a rastreabilidade da fraude e criando uma falsa sensação de continuidade na comunicação.

A velocidade como arma: em 5 minutos pode ser demasiado tarde

A rapidez com que as vítimas cedem é um dos dados mais perturbadores do estudo. Em Portugal, 54% dos inquiridos que foram enganados entregaram dinheiro ou dados pessoais em menos de 30 minutos — ligeiramente acima da média global de 52%. Mais preocupante ainda: 14% das vítimas portuguesas completaram essa cedência em menos de cinco minutos.

Este padrão é intencional. Os criminosos constroem as mensagens em torno de cenários de urgência — uma encomenda retida, uma conta bancária em risco, um pagamento pendente, uma emergência familiar — que levam a vítima a agir por impulso antes de verificar a autenticidade do pedido. Elisabeth Carter, linguista forense e criminologista da Kingston University London, explica que estes operadores exploram contextos sociais familiares e normas linguísticas reconhecíveis para criar uma falsa realidade em que as decisões da vítima parecem completamente racionais no momento em que são tomadas.

O impacto financeiro real: para alguns, mais de 1.245 euros

Embora a percentagem de portugueses que declarou ter perdido dinheiro (43%) seja inferior à média global (51%), o impacto financeiro entre quem foi efetivamente prejudicado é mais severo. Enquanto 45,4% das vítimas nacionais perdeu menos de 125 euros, mais de 18% sofreu perdas superiores a 1.245 euros — um valor que compara com 11% na média global para o mesmo escalão de prejuízo.

Inteligência artificial torna os esquemas mais convincentes

Os criminosos recorrem cada vez mais a ferramentas de inteligência artificial para aumentar a credibilidade das burlas: clonagem de voz, geração de imagens falsas e criação de mensagens que imitam o estilo de comunicação de pessoas conhecidas da vítima. Apesar disso, apenas 29,1% dos portugueses inquiridos acreditam que a IA foi usada para os enganar — um nível de perceção muito abaixo da média global de 66%. Marc Rivero, investigador principal da Kaspersky, sublinha que o aumento das fraudes potenciadas por tecnologia avançada exige uma resposta que vai além da simples consciencialização: a detecção torna-se cada vez mais dependente de ferramentas técnicas e de comportamentos de verificação sistemáticos.

O que deve fazer para se proteger

  • Nunca aja por impulso em resposta a mensagens que criem urgência — a pressão temporal é uma técnica deliberada de manipulação.
  • Verifique por outro canal: se receber uma mensagem de um familiar ou amigo a pedir dinheiro ou dados, confirme por chamada direta antes de agir.
  • Desconfie de pedidos multiplataforma: transições de SMS para WhatsApp ou Telegram sem motivo claro são um sinal de alerta.
  • Ative filtros de mensagens no iPhone (SMS de desconhecidos) e no Android, e configure o WhatsApp para mostrar apenas mensagens de contactos guardados.
  • Use a verificação em dois passos nas contas de mensagens para dificultar o roubo de identidade.
  • Se suspeitar de que foi vítima de fraude, reporte de imediato à PSP, GNR ou ao Ministério Público, e contacte o banco caso tenha transferido dinheiro.

Porque é que isto importa

Portugal destaca-se neste estudo não pelo número de vítimas, mas pela gravidade do impacto financeiro quando os ataques têm sucesso. Um contexto de adoção elevada do WhatsApp, uma perceção ainda baixa do papel da IA nas burlas digitais, e a velocidade com que as vítimas cedem sugerem que a literacia digital neste domínio específico precisa de ser reforçada — tanto ao nível individual como institucional.

Em paralelo, a dimensão organizada destes esquemas fica ilustrada por um processo que decorreu no Tribunal de São João Novo, no Porto, em abril de 2026, envolvendo 18 arguidos acusados de burlas via mensagens fraudulentas num valor total superior a 800 mil euros. O fenómeno não é esporádico: é industrial. O Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) e o Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, transposição da NIS2) reforçam a responsabilidade das plataformas e dos operadores de serviços digitais na proteção dos utilizadores — mas a primeira linha de defesa continua a ser o próprio utilizador.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Kaspersky no estudo “The Great Messaging Heist” (junho de 2026) e em publicações como o Jornal Económico, o Tek/SAPO, a TugaTech e o 4GNews.