Um em cada três roubos de credenciais começa aqui: na pasta Temp do Windows

Não é preciso um exploit sofisticado nem um zero-day para roubar as palavras-passe de uma organização: basta que alguém clique duas vezes num ficheiro que acabou de descarregar. É essa a conclusão central de uma análise divulgada em junho de 2026 pela equipa de Digital Footprint Intelligence (DFI) da Kaspersky, que examinou 5 milhões de ficheiros de log de infostealers encontrados na dark web ao longo de 2025 e reconstituiu a origem dos ficheiros maliciosos nas máquinas comprometidas. O local mais frequente de execução foi a pasta temporária do Windows — o destino habitual dos ficheiros descarregados pelo browser antes de o utilizador os guardar em qualquer outro sítio.

Resposta rápida: A Kaspersky analisou 5 milhões de logs de infostealers publicados na dark web em 2025 e concluiu que cerca de 35% das infeções partiram de ficheiros executados diretamente da pasta temporária do Windows (C:\Users\<utilizador>\AppData\Local\Temp\), sinal de que muitas vítimas abrem os ficheiros imediatamente após o download. Outros 32% dos casos apontam para técnicas mais avançadas de injeção de processos. Em Portugal, o CERT.PT indica que os infostealers dominaram o malware detetado em 2025. A ação recomendada: bloquear execução a partir de pastas temporárias, não instalar software «craqueado», ativar autenticação multifator e, em caso de infeção, limpar o dispositivo antes de mudar credenciais.

O que 5 milhões de logs revelaram

Os investigadores da Kaspersky DFI analisaram 5 milhões de ficheiros de log de infostealers descobertos na dark web em 2025 — registos que contêm dados furtados a dispositivos comprometidos, como credenciais de contas, cookies de browser e metadados de sistema, e que revelam também a localização original dos ficheiros maliciosos nas máquinas infetadas. A localização mais comum foi a diretoria temporária do Windows, C:\Users\<User>\AppData\Local\Temp\, responsável por aproximadamente 35% de todos os casos observados.

A leitura é desconfortável para quem investe sobretudo em tecnologia: esta pasta serve normalmente para armazenar ficheiros descarregados da internet antes de serem explicitamente guardados pelo utilizador, o que indica que uma parte significativa das infeções ocorre quando as pessoas lançam diretamente os ficheiros descarregados, sem que os atacantes precisem de recorrer a técnicas de evasão sofisticadas. O segundo local mais frequente, com cerca de 32% dos casos, foi C:\Windows\Microsoft.NET\Framework\, caminho associado a injeção de processos e a técnicas living-off-the-land, em que o malware abusa de processos legítimos do sistema para escapar à deteção.

Local de execução observadoPeso aproximadoLeitura técnica
C:\Users\<utilizador>\AppData\Local\Temp\~35%Ficheiro descarregado e executado de imediato pelo utilizador
C:\Windows\Microsoft.NET\Framework\~32%Injeção de processos e abuso de binários legítimos

Segundo Sergey Shcherbel, especialista da Kaspersky Digital Footprint Intelligence, as infeções por infostealers subiram 59% em 2025 face ao ano anterior e o comportamento do utilizador continua a ser um fator determinante: o volume de amostras executadas a partir de pastas temporárias de download sugere que os ficheiros são abertos imediatamente após serem obtidos e que, em muitos casos, os atacantes não precisam de técnicas sofisticadas — basta convencer alguém a executar um ficheiro.

Como se disfarçam as famílias mais ativas

A análise identificou padrões de nomenclatura distintos entre as principais famílias, úteis para equipas de deteção que trabalham com telemetria de endpoint. O Lumma tende a preferir nomes genéricos de instalador, ofuscação .NET e injeção de processos; o Vidar aparece tipicamente em variantes de Bootstrapper.exe apoiadas em loaders convencionais; o Stealc segue uma estratégia mista, com nomes aparentemente legítimos como Licence_Version_Loader.exe e também nomes gerados aleatoriamente; o RisePro destaca-se por convenções recorrentes como MPGPH.exe e MSIUpdater.exe.

Estes nomes não devem ser tratados como IOC definitivos — são padrões observados, facilmente alterados pelos operadores —, mas ajudam a construir regras de caça a ameaças. Mais relevante é o gatilho comportamental: a análise indica que as infeções estão frequentemente ligadas a duas ações de risco do utilizador, descarregar software de fontes não confiáveis e tentar ativar software ilegalmente, sendo que em muitos casos as vítimas seguem instruções dos atacantes e desativam o software de segurança antes de executar o ficheiro malicioso.

O que outros investigadores observaram em 2026

Os dados mensais do AhnLab Security Intelligence Center (ASEC) confirmam a mesma mecânica de distribuição. Em junho de 2026, famílias como Remus, ACRStealer, LummaC2 e Vidar foram distribuídas com recurso a envenenamento de resultados de motores de busca e disfarçadas de software ilegal, com os vetores principais a serem ficheiros EXE e DLL side-loading, alojados em plataformas de armazenamento na nuvem. Nesse mês, cerca de 84,5% dos casos envolveram ficheiros EXE e 15,5% DLL side-loading, com DLLs como python37.dll, LcMgr.dll e python315.dll. Em maio, o infostealer Remus começou a ser distribuído em larga escala, representando 36% de toda a distribuição de malware por esse método no mês.

O macOS também deixou de ser terreno seguro: em junho, o ASEC observou o uso de ClickFix — a técnica que induz o utilizador a copiar e executar comandos maliciosos no Terminal — e o download de scripts Bash maliciosos, incluindo uma variante que passou a obter dinamicamente endereços de comando e controlo consultando smart contracts na blockchain Polygon e que se mantinha persistente através de um ficheiro .plist como LaunchAgent.

FaseO que acontece
1. IscoResultado patrocinado ou envenenado num motor de busca, publicação em rede social, «crack», mod de jogo ou anexo comprimido
2. DownloadFicheiro EXE (ou par EXE + DLL) guardado na pasta temporária do browser
3. ExecuçãoUtilizador abre o ficheiro de imediato; em alguns casos desativa antes o antivírus por instrução do atacante
4. RecolhaCaptura de credenciais guardadas, cookies e tokens de sessão, dados de autopreenchimento e documentos
5. Exfiltração e revendaEnvio para infraestrutura do atacante e publicação do log em mercados clandestinos

Portugal: os infostealers já são a norma, não a exceção

O fenómeno não é distante. Num alerta público sobre o tema, o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) afirmou que «em 2025, cerca de 80% do código malicioso detetado pelo CERT.PT foi do tipo infostealer», descrevendo-o como uma ameaça que recolhe credenciais pessoais e profissionais, dados guardados nos browsers, emails e documentos, segundo o comunicado citado pela imprensa nacional. Na sua página sobre o contexto atual, o CNCS refere ter detetado um aumento muito significativo destes incidentes, com os infostealers a representarem mais de 80% da atividade de malware observada no terceiro trimestre de 2025 e com a variante Agent Tesla a corresponder a um terço do código malicioso observado em 2024.

O CNCS explica também porque é que este tipo de código é tão atrativo para o cibercrime: reduz significativamente o custo inicial de intrusão na infraestrutura da vítima para a realização posterior de ataques mais rentáveis, como o ransomware, já que com credenciais válidas os atacantes dispensam metodologias mais complexas ou morosas para obter acesso inicial. O organismo acrescenta que a fronteira entre o risco individual e o risco organizacional se diluiu com a popularização do trabalho remoto, com colaboradores a usar os mesmos dispositivos para fins pessoais e profissionais. Nas tendências traçadas no seu Relatório de Cibersegurança, o CNCS aponta precisamente a intensificação da ameaça dos infostealers e da comercialização de credenciais, ao lado do aumento de ataques a infraestruturas em nuvem e do uso ofensivo de IA generativa.

Medidas concretas de mitigação

  • Bloquear execução em pastas de escrita do utilizador: aplicar regras de controlo aplicacional (por exemplo AppLocker ou WDAC) que impeçam executáveis de correr a partir de %TEMP%, %LOCALAPPDATA%\Temp e pastas de downloads.
  • Eliminar a tentação do software pirateado: fornecer alternativas licenciadas e alertar que a ativação ilegal é um dos principais vetores identificados nos logs analisados.
  • Reduzir o valor do que é roubado: o CNCS recomenda usar o browser em modo de navegação anónima por defeito, remover periodicamente cookies e tokens, limitar funções de autopreenchimento e evitar guardar credenciais de contas no browser.
  • Separar mundos: não guardar credenciais profissionais num gestor de palavras-passe pessoal, não descarregar software de páginas de origem duvidosa e usar autenticação multifator, preferencialmente resistente a phishing.
  • Tratar a infeção, não só a senha: o CNCS avisa que, se este malware for detetado, não basta alterar as palavras-passe comprometidas — é essencial garantir que o dispositivo fica totalmente limpo, pois o infostealer pode continuar ativo e a recolher novos dados. Invalidar sessões e tokens ativos é igualmente indispensável.
  • Monitorizar exposição: procurar credenciais corporativas em coleções de logs e integrar essa vigilância nos processos de resposta a incidentes.

Porque é que isto importa em Portugal

Para as empresas nacionais, um log de infostealer é frequentemente o primeiro capítulo de um incidente grave: credenciais de VPN, contas de correio ou consolas cloud roubadas de um portátil pessoal podem transformar-se, semanas depois, num acesso não autorizado com exfiltração de dados. Com o Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a diretiva NIS2), um universo mais amplo de entidades passa a ter deveres reforçados de gestão de risco e de notificação de incidentes significativos ao CNCS — e a gestão de credenciais e de acessos é um dos domínios onde essa exigência se materializa de forma mais direta.

Há ainda a dimensão de proteção de dados: se as credenciais furtadas derem acesso a dados pessoais de clientes, colaboradores ou utentes, o incidente pode constituir uma violação de dados pessoais ao abrigo do RGPD, com a obrigação de notificar a Comissão Nacional de Proteção de Dados no prazo de 72 horas quando exista risco para os direitos e liberdades dos titulares. Para PME com poucos recursos, a mensagem prática desta investigação é encorajadora, dentro do possível: a maior fatia das infeções não exige defesas exóticas. Impedir que ficheiros descarregados corram diretamente da pasta temporária, reduzir o que o browser guarda e formar as pessoas para desconfiarem de instaladores «gratuitos» cobre a maior parte do caminho.

Perguntas frequentes

O que é um infostealer?

É código malicioso concebido para recolher dados sensíveis em computadores e telemóveis, incluindo credenciais de acesso a contas pessoais e profissionais, cookies e tokens guardados nos browsers, emails e documentos. Os dados são compilados em ficheiros chamados «logs» e frequentemente vendidos em mercados clandestinos.

Porque é que a pasta Temp aparece em tantas infeções?

Porque é o local onde o browser coloca ficheiros descarregados antes de o utilizador os guardar noutro sítio. Quando o ficheiro é executado a partir daí, isso indica que a vítima o abriu imediatamente após o download, sem qualquer técnica avançada de evasão por parte do atacante.

Basta mudar as palavras-passe depois de uma infeção?

Não. O CNCS alerta que é essencial garantir que o dispositivo fica totalmente limpo, porque o malware pode continuar ativo a recolher novas credenciais. Além da reinstalação ou limpeza do equipamento, devem ser invalidadas sessões e tokens ativos e ativada autenticação multifator.

Uma PME em Portugal tem obrigações legais se houver roubo de credenciais?

Pode ter. Se o acesso indevido envolver dados pessoais, aplica-se o dever de notificação à CNPD em 72 horas quando haja risco para os titulares. Entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança têm ainda deveres de gestão de risco e de notificação de incidentes significativos ao CNCS.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Kaspersky Digital Footprint Intelligence, pelo AhnLab Security Intelligence Center (ASEC) e pelo Centro Nacional de Cibersegurança / CERT.PT.