Servidores SharePoint do Estado suíço invadidos: 200 contas comprometidas

A administração federal suíça revelou esta semana que os servidores SharePoint operados pelo Bundesamt für Informatik und Telekommunikation (BIT) — o organismo federal de informática e telecomunicações — foram alvo de um ciberataque que comprometeu cerca de 200 contas. Segundo o BIT, os atacantes desconhecidos terão explorado vulnerabilidades no software SharePoint da Microsoft, cujas falhas foram divulgadas em meados de julho. O acesso via Internet para utilizadores externos à administração federal foi bloqueado e os servidores afetados estão a ser reconstruídos preventivamente.

Resposta rápida: O organismo federal de informática suíço (BIT) detetou um ataque aos seus servidores SharePoint internos, com cerca de 200 contas de utilizador e técnicas comprometidas. O BIT afirma não ter indícios de exfiltração de dados e está a repor palavras-passe e a reconstruir os sistemas. Se gere servidores SharePoint on-premises, aplique de imediato as atualizações de segurança da Microsoft de julho de 2025, rode as chaves criptográficas ASP.NET e procure indicadores de comprometimento.

O que aconteceu

De acordo com o comunicado do BIT, os responsáveis de segurança detetaram anomalias nos servidores SharePoint no final de julho e bloquearam o acesso à Internet. Foram comprometidas cerca de 200 contas, entre contas de utilizador e contas técnicas, cujas credenciais foram imediatamente repostas. O BIT afirma que, segundo os seus próprios dados, não conseguiu detetar qualquer saída de dados.

A instância afetada está a ser tratada com uma medida drástica: os servidores SharePoint atingidos estão a ser reconstruídos preventivamente de raiz. Trata-se de plataformas Microsoft onde ficheiros, informação e páginas web são armazenados e partilhados de forma centralizada. O próprio BIT sublinha que na plataforma SharePoint não podem ser guardadas informações confidenciais nem dados pessoais especialmente protegidos.

As análises prosseguem com apoio externo. O BIT está a ser apoiado pelo Bundesamt für Cybersicherheit (BACS) e pela Microsoft nos trabalhos de investigação, que ainda decorrem. O acesso via Internet para pessoas externas à administração federal permanece bloqueado até à conclusão destes trabalhos, enquanto o pessoal interno pode continuar a aceder aos documentos por canais alternativos.

As vulnerabilidades por trás do ataque

O BIT indica que os atacantes exploraram, presumivelmente, vulnerabilidades no SharePoint da Microsoft, tendo o fabricante alertado para várias dessas falhas em meados de julho. O BIT operava os servidores nos próprios centros de dados da Confederação e, de acordo com o organismo, começou de imediato a instalar as atualizações de segurança disponibilizadas.

O contexto técnico remete para a onda de exploração conhecida como «ToolShell», divulgada em julho de 2025. A Microsoft explicou que estas vulnerabilidades afetam apenas servidores SharePoint on-premises e não o SharePoint Online do Microsoft 365, tendo lançado atualizações abrangentes para todas as versões suportadas (Subscription Edition, 2019 e 2016). As atualizações abrangentes cobriam a CVE-2025-53770, relacionada com a anterior CVE-2025-49704, e a falha de contorno de segurança CVE-2025-53771, associada à CVE-2025-49706.

A gravidade não é trivial. A agência norte-americana CISA descreveu a cadeia de exploração como permitindo acesso não autenticado a sistemas e acesso autenticado por spoofing de rede, possibilitando aos atacantes aceder por completo aos conteúdos do SharePoint, incluindo sistemas de ficheiros e configurações internas, e executar código na rede. Mais recentemente, observaram-se atores a cifrar ficheiros e a distribuir o ransomware Warlock em sistemas comprometidos.

Quanto à atribuição, a Microsoft associou parte da atividade a atores estatais chineses. A empresa afirmou ter observado dois atores nomeados como Linen Typhoon e Violet Typhoon a explorar as falhas contra servidores SharePoint expostos à Internet, além de um terceiro ator com base na China, designado Storm-2603, a explorá-las para implantar ransomware. No caso suíço, porém, a autoria mantém-se por esclarecer e está a ser objeto das investigações em curso.

Cronologia do incidente

DataAcontecimento
Meados de julho de 2025A Microsoft divulga várias vulnerabilidades no SharePoint (cadeia «ToolShell»)
28 de julhoResponsáveis de segurança detetam anomalias nos servidores SharePoint do BIT
31 de julhoOs peritos descobrem que credenciais de cerca de 200 contas foram comprometidas
Início de agostoO BIT comunica publicamente o ataque, repõe palavras-passe e reconstrói os servidores

No decorrer da análise, os peritos descobriram a 31 de julho que os dados de acesso de cerca de 200 contas de utilizador e técnicas tinham sido comprometidos, tendo o BIT reposto de imediato as respetivas palavras-passe.

Partilha de indicadores e proteção de infraestruturas críticas

Um aspeto relevante da resposta suíça foi a colaboração para proteger outras entidades. Para proteger operadores de infraestruturas críticas na Suíça, o BIT afirma ter partilhado proativamente, através da plataforma do BACS, todos os indicadores técnicos relevantes sobre o ciberataque com esses operadores. Esta partilha de indicadores de comprometimento (IOCs) é uma prática de referência que permite a outras organizações detetarem sinais do mesmo ataque nos seus próprios ambientes.

Vale a pena recordar que os produtos SharePoint já tinham colocado a Suíça em alerta. Vulnerabilidades em produtos Microsoft SharePoint Server, a par de Ivanti Connect Secure e Fortinet FortiManager, estiveram ligadas a dezenas de incidentes que centros de cibersegurança tiveram de tratar, num sinal de como estas plataformas se tornaram um alvo prioritário.

Como mitigar em servidores SharePoint on-premises

  • Aplicar sem demora as atualizações de segurança abrangentes da Microsoft para o SharePoint Server (Subscription Edition, 2019 e 2016).
  • Rodar as chaves de máquina ASP.NET (ValidationKey e DecryptionKey) para invalidar chaves eventualmente exfiltradas — só instalar o patch pode não bastar.
  • Configurar o AMSI (Antimalware Scan Interface) no SharePoint e implantar soluções antivírus/EDR em todos os servidores.
  • Evitar expor o SharePoint diretamente à Internet e bloquear o acesso externo à administração central do SharePoint.
  • Procurar webshells (.aspx) e reforçar a monitorização de tráfego para a funcionalidade ToolPane.

A CISA recomenda configurar o AMSI no SharePoint conforme indicado pela Microsoft, implantar antivírus em todos os servidores e usar EDR para defesa contra atividade pós-exploração. Investigadores de segurança sublinham que, além da atualização urgente, é essencial rodar as chaves de máquina ASP.NET para desvalidar chaves comprometidas, precisamente porque os ataques observados extraíam essas chaves para forjar cargas _VIEWSTATE e obter acesso persistente.

Porque é que isto importa para Portugal

Embora o incidente seja suíço, a lição é diretamente transponível para as organizações portuguesas. Muitas PME e entidades públicas ainda operam servidores SharePoint on-premises expostos à Internet — exatamente o cenário visado por esta cadeia de vulnerabilidades. O caso demonstra que instalar o patch pode não ser suficiente se os atacantes já tiverem obtido credenciais ou chaves criptográficas antes da correção.

Em Portugal, entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2) têm obrigações de gestão de risco e de notificação de incidentes ao CNCS/CERT.PT — e este tipo de exploração ativa de vulnerabilidades enquadra-se plenamente nesses deveres. A rápida partilha de IOCs feita pelas autoridades suíças ilustra a lógica de cooperação que o CERT.PT também promove entre operadores nacionais.

Do ponto de vista da proteção de dados, ainda que o BIT afirme não ter guardado dados pessoais sensíveis na plataforma afetada, qualquer comprometimento de contas obriga a avaliar o risco para os titulares. Ao abrigo do RGPD, uma violação de dados pessoais que represente risco para os direitos e liberdades das pessoas deve ser notificada à autoridade de controlo — em Portugal, a CNPD — em regra no prazo de 72 horas.

Perguntas frequentes

O que foi comprometido no ataque ao BIT suíço?

Foram comprometidas cerca de 200 contas nos servidores SharePoint operados pelo BIT, entre contas de utilizador e contas técnicas. O organismo repôs de imediato as palavras-passe e afirma não ter indícios de saída de dados, estando os servidores afetados a ser reconstruídos preventivamente.

Que vulnerabilidades do SharePoint foram exploradas?

Os atacantes terão explorado vulnerabilidades divulgadas pela Microsoft em meados de julho, associadas à cadeia «ToolShell» que afeta servidores SharePoint on-premises. Entre os identificadores figuram a CVE-2025-53770 e a CVE-2025-53771, ligadas às anteriores CVE-2025-49704 e CVE-2025-49706.

O SharePoint Online (Microsoft 365) foi afetado?

Não. A Microsoft esclareceu que estas vulnerabilidades afetam apenas servidores SharePoint on-premises e não o SharePoint Online integrado no Microsoft 365. As organizações que usam apenas a versão em nuvem não estão expostas a esta cadeia específica.

O que devem fazer as organizações portuguesas com SharePoint on-premises?

Devem aplicar de imediato as atualizações da Microsoft, rodar as chaves de máquina ASP.NET, configurar o AMSI, implantar EDR/antivírus e evitar expor o SharePoint diretamente à Internet. Recomenda-se ainda procurar webshells e reportar qualquer incidente ao CNCS/CERT.PT.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pelo Bundesamt für Informatik und Telekommunikation (BIT), pelo Bundesamt für Cybersicherheit (BACS), pela Microsoft e pela CISA.