Recebeu um aviso da Apple? O caso que mostra o que um zero-click faz ao iPhone

O Citizen Lab, da Universidade de Toronto, confirmou forensicamente a infeção de um iPhone com o spyware Pegasus, do NSO Group, através de um exploit zero-click dirigido ao iMessage — ou seja, sem que a vítima tivesse de tocar em qualquer link ou anexo. A análise, publicada a 2 de setembro de 2026 e feita em colaboração com a SHARE Foundation, incidiu sobre artefactos forenses do telemóvel de um membro do movimento estudantil sérvio que tinha recebido uma Notificação de Ameaça da Apple, e identificou indicadores de elevada confiança de infeção entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Os investigadores acreditam que a falha explorada foi corrigida pela Apple a partir do iOS 18.4.1.

Resposta rápida: Investigadores do Citizen Lab confirmaram uma infeção com o spyware Pegasus num iPhone de um ativista estudantil na Sérvia, através de um exploit sem interação do utilizador no iMessage. A vulnerabilidade terá sido corrigida a partir do iOS 18.4.1, pelo que manter o sistema atualizado é a defesa mais imediata. Quem receber uma Notificação de Ameaça da Apple deve tratar o equipamento como potencialmente comprometido e procurar apoio especializado. Para perfis de risco elevado, ativar o Modo de Isolamento (Lockdown Mode) reduz drasticamente a superfície de ataque.

O que os investigadores confirmaram

A conclusão do Citizen Lab é clara: um exploit zero-click contra o iMessage foi usado para instalar o Pegasus no dispositivo, com indicadores de elevada confiança relativos ao período entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, sem que isso exclua outras infeções. O caso é tornado público a pedido e com o consentimento da pessoa visada, que optou por não ser identificada, razão pela qual a data e hora exatas da infeção também não foram divulgadas.

Do ponto de vista técnico, o significado de um zero-click é sempre o mesmo: não há erro humano a corrigir. Uma infeção deste tipo não seria visível para o alvo e daria ao operador do Pegasus acesso total ao equipamento. Na prática, o spyware permite fazer tudo aquilo que o utilizador faz — aceder a notas, fotografias e até mensagens cifradas — e tem ainda a capacidade de ativar de forma encoberta o microfone e a câmara.

Importa sublinhar o que não foi divulgado: o Citizen Lab não publicou um identificador CVE nem detalhes do encadeamento do exploit, limitando-se a indicar que a falha foi corrigida a partir do iOS 18.4.1. Não existem, por isso, indicadores de comprometimento públicos (domínios, hashes ou processos) associados especificamente a este caso que possam ser carregados em ferramentas de deteção. Trata-se de uma prática habitual em investigações que envolvem vítimas identificáveis e exploits ainda sensíveis.

Uma vaga, não um caso isolado

A SHARE Foundation documentou pelo menos 14 casos de pessoas do movimento estudantil e da sociedade civil sérvia, incluindo um deputado da oposição, que receberam recentemente Notificações de Ameaça da Apple. Entre os alvos confirmados contam-se membros do movimento estudantil, ativistas, deputados da oposição e um autarca local, e se pelo menos um dispositivo foi visado com Pegasus, pelo menos dois outros foram visados com malware semelhante ao NoviSpy, revelado pela Amnistia Internacional na Sérvia em dezembro de 2024. O Citizen Lab confirmou a infeção por Pegasus com elevada probabilidade, enquanto a Amnistia Internacional confirmou que dois equipamentos tinham sido infetados com uma nova versão do NoviSpy.

A vaga foi detetada em agosto, depois de a Apple ter notificado pessoas em 110 países de que teriam sido provavelmente vítimas de spyware mercenário, e é descrita pela SHARE Foundation como a maior vaga documentada deste tipo de infeções na Sérvia até hoje. Em comunicado, a Apple indicou ter enviado notificações de ameaça a 13 de agosto a utilizadores visados em 110 países, tendo já alertado utilizadores em mais de 150 países no total. A SHARE Foundation nota que as infeções coincidiram com a preparação de eleições locais em março, e John Scott-Railton, investigador sénior do Citizen Lab, afirmou que as conclusões e as notificações da Apple revelam que o movimento pró-democracia pacífico da Sérvia está a ser agressivamente visado com spyware mercenário antes de ciclos eleitorais decisivos em 2026.

Cronologia do caso

DataAcontecimento
Dezembro de 2024Amnistia Internacional revela o uso do spyware NoviSpy na Sérvia, associado a ferramentas forenses Cellebrite
Dez. 2025 – Jan. 2026Período com indicadores de elevada confiança de infeção por Pegasus no iPhone analisado
Março de 2026Eleições locais na Sérvia, cuja preparação coincide com as infeções documentadas
13 de agosto de 2026Apple envia notificações de ameaça a utilizadores em 110 países
2 de setembro de 2026Citizen Lab publica a confirmação forense; SHARE Foundation divulga o seu relatório

Recebeu uma Notificação de Ameaça da Apple? O que fazer

O Citizen Lab é explícito na orientação: uma Notificação de Ameaça da Apple é um indicador de elevada confiança de que o dispositivo foi visado por spyware mercenário, deve ser tratada como presunção de infeção e o destinatário deve procurar imediatamente assistência especializada. Medidas concretas a considerar:

  • Atualizar de imediato o sistema operativo. Segundo o investigador Bill Marczak, as atualizações de segurança da Apple neutralizaram entretanto o spyware.
  • Ativar o Modo de Isolamento (Lockdown Mode) em iOS, iPadOS e macOS, sobretudo em perfis de risco: jornalistas, advogados, ativistas, quadros de direção e pessoas expostas politicamente.
  • Preservar provas: não fazer uma reposição de fábrica antes de recolher cópias de segurança e registos que permitam análise forense.
  • Recorrer a apoio pro bono de organizações especializadas em segurança digital para sociedade civil, em vez de tentar diagnósticos improvisados.
  • Rever a exposição das contas associadas (iCloud, correio eletrónico, gestores de palavras-passe) e reforçar a autenticação multifator com chaves físicas.

Quem está por trás e o que se sabe do NSO Group

A atribuição do operador — isto é, quem encomendou e conduziu a operação — não foi estabelecida publicamente. A agência Reuters indicou não ter conseguido determinar quem é responsável pelas alegadas infeções. Quanto ao fabricante, o NSO Group foi colocado na lista negra do governo norte-americano em 2021 por preocupações com abusos de direitos humanos e, em 2025, foi adquirido por um grupo de investimento americano, embora continue a operar a partir de Israel e sob regulação israelita.

Há também um ângulo jurídico que interessa a qualquer país europeu. Em Belgrado, a jurista Ana Toskić Cvetinović, da organização Partneri Srbija, afirmou que o uso deste tipo de software sem autorização judicial constitui crime à luz da lei sérvia, sublinhando que o Código de Processo Penal exige uma decisão judicial fundamentada para vigilância secreta e que, tanto quanto sabe, não existe nada disso neste caso.

Porque é que isto importa em Portugal

É tentador arrumar o Pegasus na gaveta dos casos exóticos que só afetam ativistas em regimes sob pressão. Seria um erro de avaliação. O que este caso demonstra é que existe um mercado maduro de exploits sem interação do utilizador contra plataformas móveis atualizadas — as mesmas que quadros de direção, advogados, jornalistas e responsáveis públicos portugueses usam todos os dias, muitas vezes em regime BYOD e fora do perímetro gerido pela organização.

Para as organizações abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), a gestão de risco deixou de poder ignorar o telemóvel. A obrigação de adotar medidas técnicas e organizativas adequadas, de gerir vulnerabilidades e de comunicar incidentes significativos ao CNCS/CERT.PT aplica-se igualmente à frota móvel: política de atualizações rápidas, inventário de dispositivos com acesso a informação sensível, procedimentos de resposta que prevejam a preservação de artefactos forenses de iOS e Android e formação específica para funções de alto risco.

Há ainda a dimensão de proteção de dados. Um telemóvel comprometido por spyware desta classe expõe comunicações, localização, contactos e, muitas vezes, dados pessoais de terceiros — clientes, fontes, doentes ou trabalhadores. Em contexto empresarial, um incidente destes pode constituir uma violação de dados pessoais nos termos do RGPD, com o dever de avaliar o risco e, quando aplicável, notificar a CNPD e os titulares afetados. Para as PME, a lição prática é mais simples do que parece: atualizar sistemas sem demora, restringir o que circula em aplicações de mensagens e assumir que o telemóvel de um administrador vale, para um atacante, tanto ou mais do que o servidor de ficheiros.

Perguntas frequentes

O que é um ataque zero-click?

É um ataque que não exige qualquer ação da vítima: basta que o dispositivo receba e processe um conteúdo malicioso, por exemplo através de uma aplicação de mensagens. Neste caso, a infeção não seria visível para o alvo e daria ao atacante acesso total ao dispositivo.

A falha já está corrigida?

O Citizen Lab acredita que o exploit usado visava o iMessage e que a falha foi corrigida pela Apple a partir do iOS 18.4.1. Não foi divulgado publicamente um identificador CVE associado a este caso concreto, pelo que a recomendação é manter sempre a versão mais recente do sistema.

Devo preocupar-me se não sou ativista nem jornalista?

O spyware mercenário é caro e usado de forma seletiva, pelo que a maioria dos utilizadores não é alvo direto. Ainda assim, advogados, quadros de direção, investigadores e titulares de cargos públicos entram em categorias de risco acrescido e devem adotar atualizações imediatas, autenticação forte e, quando justificável, o Modo de Isolamento.

O que fazer se receber uma notificação de ameaça da Apple?

O Citizen Lab recomenda tratar o aviso como presunção de infeção e procurar imediatamente apoio especializado. Antes de apagar seja o que for, preserve cópias de segurança e registos; num contexto organizacional, acione o processo interno de resposta a incidentes e avalie os deveres de comunicação ao CNCS/CERT.PT e à CNPD.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pelo Citizen Lab (Universidade de Toronto), pela SHARE Foundation, pela Amnistia Internacional e pela Apple, bem como em reportagem da agência Reuters.