Pediram à IA ajuda com vírus e toxinas: o que a Anthropic travou — e o que falhou

A Anthropic publicou a 10 de setembro de 2026 o seu quarto relatório de threat intelligence, no qual descreve casos de utilização indevida dos modelos Claude que afirma ter detetado e interrompido. O documento cobre atividade interrompida entre dezembro de 2025 e agosto de 2026 em sete áreas de dano — ciberoperações, operações de influência, vigilância, burlas e fraude, utilização biológica indevida, desenvolvimento de armamento convencional e destilação —, envolvendo os modelos Claude Haiku, Sonnet e Opus. A parte que mais atenção mediática gerou é a biológica: cinco casos em que utilizadores tentaram recorrer ao Claude para trabalho que poderia apoiar o desenvolvimento de armas biológicas, incluindo investigação sobre transmissibilidade viral e evasão imunitária, adaptação a mamíferos de gripe aviária altamente patogénica, ortopoxvírus e otimização e redesenho computacional de toxinas; as contas associadas foram banidas e as conclusões usadas para reforçar as salvaguardas.

Resposta rápida: A Anthropic diz ter bloqueado cinco casos de investigação biológica de duplo uso e dezenas de operações maliciosas que usaram o Claude entre dezembro de 2025 e agosto de 2026. A empresa afirma ter banido contas, desmantelado redes de retransmissão que contornavam bloqueios regionais e partilhado informação com autoridades e outros laboratórios de IA. Para organizações em Portugal, o dado mais operacional não é a biologia: é a descrição de ataques em que a IA executa fases inteiras da cadeia de intrusão em horas. Reveja a proteção de credenciais, chaves de API e tokens de sessão, e trate-os como ativos críticos.

O que é o relatório e o que não é

O documento chama-se Detecting and countering misuse of AI: September 2026. Segundo a imprensa que analisou o documento, tem 154 páginas e é o quarto relatório de informação sobre ameaças da empresa. A própria Anthropic sublinha que os casos divulgados não representam a utilização indevida típica, mas antes exemplos da atividade mais notável e nova identificada até à data, e justifica a publicação com o que considera ser a responsabilidade de divulgar o uso malicioso dos seus serviços.

Há um limite importante de interpretação. A empresa detalhou cinco casos, mas absteve-se de identificar países, instituições e os agentes biológicos concretos envolvidos, e frisou que não está a afirmar que os investigadores tinham intenção de desenvolver armas biológicas. No relatório, a Anthropic recorda que as capacidades biológicas são de duplo uso e que a mesma informação que pode servir para desenvolver uma arma pode também servir para desenvolver uma vacina ou uma cura.

Os casos biológicos, em detalhe

Um dos casos envolveu um pedido para preparar uma candidatura a financiamento científico para investigação de ganho de função com o vírus chikungunya; o classificador de segurança biológica da Anthropic bloqueou o pedido em maio de 2026, e o trabalho proposto centrava-se em aumentar a transmissibilidade do vírus e a sua capacidade de escapar ao sistema imunitário. A empresa considerou o caso particularmente preocupante por estar ligado a um instituto de investigação militar.

CasoTema descrito
1Candidatura a financiamento para ganho de função em chikungunya (transmissibilidade e evasão imunitária), bloqueada em maio de 2026
2Gripe aviária altamente patogénica: adaptação a mamíferos e gravidade da doença
3Ortopoxvírus (família que inclui a varíola e a mpox) e genes de resposta imunitária
4 e 5Toxinas e venenos não transmissíveis, incluindo otimização e redesenho computacional

Um dos utilizadores, fora dos Estados Unidos, recorria ao Claude para trabalho sobre gripe aviária centrado na adaptação dos vírus a mamíferos; outros casos incidiram sobre ortopoxvírus — grupo que inclui o vírus da varíola e o da mpox — e sobre toxinas de venenos. Noutro episódio, um utilizador associado a um laboratório estatal de doenças infecciosas usou o Claude para redigir, do princípio ao fim e em cerca de uma hora, uma candidatura a financiamento sobre ortopoxvírus.

Como as barreiras foram contornadas — e onde falharam

É aqui que o relatório tem valor para quem trabalha em segurança. A Anthropic descreve casos em que os utilizadores contornaram controlos que bloqueiam o acesso a partir de determinadas regiões e recorreram a outros métodos para ofuscar o propósito da investigação e iludir as salvaguardas. Num dos casos, o pedido foi bloqueado e a empresa descobriu depois que os investigadores usavam uma plataforma de terceiros para contornar restrições regionais e encaminhar automaticamente os prompts recusados para outro modelo de IA.

A eficácia das defesas não foi uniforme. Os casos ilustram por que razão a utilização biológica indevida é difícil de travar apenas com filtros automáticos: as salvaguardas bloquearam as tentativas mais evidentes envolvendo agentes patogénicos pandémicos melhorados, mas foram menos eficazes quando os utilizadores enquadravam o trabalho como investigação médica, defensiva ou terapêutica. A empresa nota ainda que os agentes sofisticados sabem que os fornecedores de IA tentam detetar usos perigosos e exploram a natureza de duplo uso da biologia para manter uma espécie de negação plausível. Numa análise de 30 dias de atividade, a Anthropic afirma ter identificado cerca de 35 esforços de investigação distintos com atividade potencialmente preocupante.

Quanto à resposta, a empresa afirma ter banido todas as contas associadas, trabalhado com parceiros para desmantelar as redes de retransmissão que contornavam bloqueios regionais e partilhado as conclusões com laboratórios de IA afetados e com autoridades governamentais. Entre as contramedidas descritas contam-se o raciocínio sumarizado, a preservação do processo de raciocínio no modelo Fable 5.1 e verificações de identidade para regiões não suportadas.

A parte que interessa às equipas de segurança: ciberoperações

Para PME e organizações portuguesas, o capítulo mais relevante é o das ciberoperações. O relatório conclui que os modelos de linguagem estão cada vez mais integrados em estruturas autónomas multiagente capazes de executar tarefas complexas à velocidade da máquina, reduzindo a distância de meios e de mão-de-obra entre grandes Estados e atores com poucos recursos, com a intervenção humana muitas vezes limitada a escolher alvos e rever resultados. Num dos casos descritos, a violação de uma empresa de software empresarial demorou apenas horas entre o primeiro acesso e o roubo massivo de dados; noutro, um único token de programador roubado escalou para controlo administrativo total do ambiente cloud da vítima em cerca de três horas.

Caso (identificador interno)Elementos descritos
GTG-20006 (associado por relatos públicos ao Midnight Blizzard)Ao longo de 130 dias, foram visadas 27 instituições, com 24 comprometidas, incluindo ministérios ucranianos, entidades de defesa e fabricantes da cadeia de abastecimento de drones
GTG-50014 (extorsão oportunista, ligada ao ShinyHunters)Comprometimentos de ambientes cloud em duas a três horas; extração de mais de 2100 tokens Azure AD em mais de 40 tenants empresariais em 34 horas
GTG-10007 (produção contínua de zero-days)Análise automatizada de firmware de appliances de segurança, com mais de uma dezena de potenciais vulnerabilidades zero-day identificadas num mês em cerca de 50 alvos
GTG-50020 e GTG-50021 (cadeia de abastecimento de IA)Ataque a 30 empresas de IA em quatro dias à procura de modelos pré-lançamento e chaves de API de produção; serviços de revenda fraudulentos que recolhiam credenciais de contas
GTG-50029 (hacktivismo político)Ator em França comprometeu 14 de 42 entidades visadas e compilou um motor de doxxing na dark web com dezenas de milhões de registos

O relatório documenta ainda outras áreas: nove operações de influência em seis continentes, uma plataforma de vigilância no Mali concebida para monitorizar cerca de 25 milhões de cartões SIM, uma rede de aplicações de encontros com mais de 4700 personas de IA em contacto com pelo menos 25 mil pessoas, seis casos de armamento convencional e cinco casos biológicos. Entre os incidentes de armamento convencional, o relatório identifica três com origem na China, dois na Rússia e um envolvendo uma célula no norte do Iémen que testou um foguete guiado e voltou ao Claude horas depois para analisar a falha.

Indicadores e medidas práticas

De acordo com análises publicadas do documento, o relatório disponibiliza domínios, endereços IP, endereços de e-mail e hashes de ficheiros, além de identificadores de bots e grupos de Telegram e intervalos de IP de saída com janelas temporais, e nomeia malware como PowerChrome, WUEngine, DarkSword e GiftDrop, num PDF descarregável destinado a alimentar ferramentas de deteção. Organizações que operem SIEM ou EDR devem validar estes indicadores contra os seus próprios registos antes de qualquer bloqueio automático.

  • Trate chaves de API, tokens de sessão e credenciais de programador como ativos de alto valor: rotação periódica, âmbito mínimo e deteção de fuga em repositórios públicos.
  • Ative autenticação multifator resistente a phishing nas consolas cloud e reveja permissões administrativas herdadas.
  • Monitorize comportamentos anómalos de velocidade — enumeração e exfiltração em minutos, não em dias — e não apenas assinaturas conhecidas.
  • Governe o uso interno de assistentes de IA: registo de acessos, contas corporativas e proibição de reencaminhar dados sensíveis para plataformas de terceiros não autorizadas.
  • Mantenha atualizados appliances de segurança expostos à Internet, alvo explícito da análise automatizada de firmware descrita no relatório.

Porque é que isto importa em Portugal

Na União Europeia, as disposições do Regulamento da Inteligência Artificial relativas aos modelos de finalidade geral aplicam-se desde 2 de agosto de 2025, exigindo transparência, informação sobre dados de treino, respeito pelos direitos de autor e medidas de mitigação de riscos, com um período de transição até 2 de agosto de 2027 para modelos já colocados no mercado. Para os modelos mais potentes, que podem apresentar riscos sistémicos, acrescem obrigações adicionais de gestão de riscos e de cibersegurança — e é exatamente nesse campo que se inserem os classificadores biológicos e as verificações de identidade descritos pela Anthropic.

Para as entidades nacionais, a leitura útil é operacional. As técnicas descritas — roubo de credenciais, comprometimento de ambientes cloud em horas, exfiltração massiva — são precisamente o tipo de incidente que obriga a notificação ao abrigo do Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), com o CNCS e o CERT.PT como pontos de contacto. Quando há acesso indevido a dados pessoais, acresce o dever de avaliação e eventual notificação à CNPD no prazo previsto no RGPD. Numa cadeia de intrusão que passa de um token roubado a controlo total em três horas, planos de resposta desenhados para reagir em dias deixam de ser suficientes.

Perguntas frequentes

A Anthropic diz que alguém criou uma arma biológica com o Claude?

Não. A empresa detalhou cinco casos sem identificar países, instituições ou agentes biológicos concretos e sublinhou que não está a afirmar que os investigadores pretendiam desenvolver armas biológicas. O relatório descreve investigação de duplo uso que foi bloqueada ou interrompida.

Que período e que modelos abrange o relatório?

Cobre atividade interrompida entre dezembro de 2025 e agosto de 2026 em sete áreas de dano e envolve os modelos Claude Haiku, Sonnet e Opus; nenhum dos casos envolveu modelos das classes Fable ou Mythos, com exceção de um caso de destilação ilícita.

O que é que uma PME portuguesa deve retirar disto?

A lição prática está nas ciberoperações, não na biologia. O relatório descreve um comprometimento que escalou de um único token de programador roubado para controlo administrativo total do ambiente cloud em cerca de três horas. Proteger credenciais, chaves de API e consolas cloud com MFA é a medida de maior retorno.

Estes bloqueios são obrigatórios por lei na União Europeia?

O Regulamento da Inteligência Artificial impõe deveres próprios aos fornecedores de modelos de finalidade geral. Sublinha que os modelos mais potentes podem apresentar riscos sistémicos e que, atingido determinado limiar de capacidade, o fornecedor deve cumprir obrigações adicionais de gestão de riscos e de cibersegurança.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Anthropic no relatório «Detecting and countering misuse of AI: September 2026», em informação oficial da Comissão Europeia e do portal digital.gov.pt sobre o Regulamento da Inteligência Artificial e em relatos da imprensa internacional que analisou o documento.