Os atacantes já não querem o seu CEO: querem quem aprova as faturas

Durante anos, a imagem do ataque de extorsão foi a de um e-mail dirigido ao topo da hierarquia. Uma nova análise da equipa ThreatLabz, da Zscaler, sugere que o alvo preferido mudou de andar: os operadores de ransomware estão a concentrar-se em quem gere processos de negócio no dia a dia — chefias intermédias com acesso a faturas, contratos, orçamentos e dados de clientes. A investigação acompanhou 351 vítimas em 334 organizações apanhadas numa única campanha de ransomware ao longo de um mês, concluindo que quase dois terços tinham funções de chefia ou superiores, que a média de idades rondava os 46 anos e que três quartos trabalhavam em contabilidade e finanças, vendas, operações, recursos humanos ou marketing.

Resposta rápida: A Zscaler ThreatLabz analisou as vítimas iniciais de uma campanha de ransomware e concluiu que a maioria eram gestores intermédios de áreas de negócio, não administradores de sistemas nem membros da administração. A lógica é o que a empresa chama de «privilégio de negócio»: contas que aprovam pagamentos e acedem a informação sensível valem mais do que contas com direitos técnicos. A recomendação prática é rever quem tem acesso a processos críticos, impor autenticação multifator resistente a phishing nessas contas e treinar chefias para reconhecer contactos de extorsão.

O que a investigação observou numa única campanha

O estudo não olha para o fim do ataque — a nota de resgate, o site de fugas, o valor exigido — mas para o princípio: quem foi comprometido primeiro. A ThreatLabz identificou vítimas de uma campanha associada a um grupo conhecido por obter acesso inicial, exfiltrar grandes volumes de dados corporativos e cifrar seletivamente sistemas críticos, procurando perceber o que torna esses colaboradores especialmente valiosos. A empresa apresenta o trabalho como parte de uma linha de investigação contínua e indica que o relatório anual de ransomware de 2026 trará dados adicionais sobre vítimas, tendências e táticas.

IndicadorObservação da ThreatLabz
Universo analisado351 vítimas em 334 organizações, numa campanha, durante cerca de um mês
Nível hierárquicoPerto de dois terços com funções de chefia ou acima
Perfil etárioMédia de 46 anos
Áreas funcionaisTrês quartos em finanças/contabilidade, vendas, operações, RH ou marketing
SetoresCerca de metade em indústria ou tecnologias de informação

Vale a pena a nota de rigor: o número que circulou em vários títulos internacionais — o «diretor de TI de 40 e poucos anos» — é uma síntese jornalística. Os dados apontam para gestores de funções de negócio, sendo o setor de atividade (indústria e TI) uma variável distinta do departamento em que a vítima trabalha.

«Privilégio de negócio»: porque uma chefia vale mais do que um administrador

A conclusão central é conceptual e tem consequências práticas. A Zscaler descreve o fenómeno como um deslocamento do privilégio técnico para o «privilégio de negócio»: as equipas de segurança habituaram-se a proteger sobretudo utilizadores com direitos de administração, enquanto os atacantes procuram colaboradores cujo trabalho normal lhes dá acesso a faturas, aprovações de pagamento, orçamentos, contratos com fornecedores, contas de clientes ou registos de recursos humanos. Segundo os investigadores, o valor de uma conta de chefia está na amplitude de acesso ao negócio que a função implica — aprovar pagamentos, supervisionar orçamentos e fornecedores, rever contratos ou coordenar trabalho entre unidades.

Tipo de privilégioExemplos de contaComo costuma ser protegido
TécnicoAdministrador de domínio, contas de serviço, acesso a hypervisor e backupsPAM, MFA obrigatória, contas dedicadas, monitorização apertada
De negócioChefia de compras, contabilidade, RH, vendas, operaçõesFrequentemente tratada como conta «normal», com MFA fraca e sem DLP dirigida

Há ainda um segundo motivo, ligado à fase de extorsão. A Zscaler descreve uma passagem de ataques indiscriminados para campanhas de extorsão altamente dirigidas e afirma que, em vez de contactarem diretamente a administração, os atacantes se focam cada vez mais em gestores e pessoal-chave com autoridade ou influência para acelerar a decisão de pagamento. Por outras palavras: quem tem de explicar internamente que a produção parou, que a faturação não sai ou que os dados dos clientes estão nas mãos de terceiros é, muitas vezes, um quadro intermédio — e é sobre essa pessoa que a pressão psicológica funciona melhor.

Reconhecimento antes do ataque: o organograma como arma

A investigação sublinha que os atacantes deixaram de disparar a mesma mensagem de extorsão para toda a organização: combinam informação obtida em sistemas já comprometidos com dados públicos para mapear linhas hierárquicas e identificar os colaboradores com maior capacidade de influenciar a resposta da empresa. É um trabalho de reconhecimento que se alimenta de fontes triviais — perfis profissionais em redes sociais, assinaturas de e-mail, organogramas em documentos internos, listas de contactos de fornecedores — e que raramente deixa alarmes nos sistemas de deteção.

O que fazer: da proteção do administrador à proteção do processo

A mudança de alvo exige uma mudança de critério na definição de «utilizador crítico». Medidas que fazem sentido, sem depender de qualquer produto específico:

  • Inventariar quem, na prática, aprova pagamentos, altera dados bancários de fornecedores, acede a dossiês de RH ou exporta bases de clientes — e tratar essas contas como privilegiadas.
  • Impor autenticação multifator resistente a phishing (chaves FIDO2/passkeys) nessas contas, em vez de códigos por SMS ou notificações push simples.
  • Vigiar credenciais expostas por infostealers e invalidar sessões e tokens em caso de suspeita, não apenas mudar a palavra-passe.
  • Exigir dupla validação, por canal independente, para alterações de IBAN e pagamentos acima de um limiar definido.
  • Segmentar acessos para limitar o movimento lateral a partir de um primeiro ponto de entrada, um dos pontos recomendados pela própria equipa de investigação. A ThreatLabz recomenda segmentar o acesso para impedir que os atacantes se movimentem lateralmente e alcancem sistemas adicionais depois de obterem uma posição inicial.
  • Preparar um playbook de extorsão que inclua o cenário «um colaborador foi contactado diretamente», com regra clara de escalar de imediato e nunca responder isoladamente.
  • Formar chefias intermédias com exercícios realistas — e não apenas as equipas técnicas.

Limites do estudo

Os dados provêm da telemetria e da investigação de um fornecedor de segurança e retratam uma campanha específica, num período curto, associada a um grupo não identificado publicamente na comunicação disponível. Não devem, por isso, ser lidos como uma medida universal do ecossistema de ransomware. O próprio fornecedor indica que dados adicionais sobre estas vítimas, tendências e táticas serão publicados no relatório anual de ransomware de 2026. A tendência, ainda assim, é coerente com o que outras análises têm descrito: menos cifra indiscriminada, mais roubo de dados e pressão dirigida.

Porque é que isto importa em Portugal

O padrão descrito encaixa no que o Centro Nacional de Cibersegurança tem registado. Na 6.ª edição do Relatório de Cibersegurança – Riscos & Conflitos, o CNCS descreveu um aumento significativo dos incidentes no ciberespaço de interesse nacional em 2024, num ano marcado por casos de grande impacto, nomeadamente ransomware e indisponibilidades, e por grandes fugas de credenciais de entidades da administração pública, operadores de serviços essenciais e prestadores de serviços digitais, muitas vezes associadas à ameaça crescente dos infostealers. Nesse relatório, o CERT.PT registou 11 163 casos, incluindo deteções automatizadas, dos quais 2758 foram considerados incidentes reais, cerca de mais 36% do que no ano anterior.

Há um indicador nacional particularmente alinhado com esta investigação: a fraude dirigida a quem decide dinheiro. O CNCS registou 166 incidentes de CEO Fraud (17,89% do total), o segundo subtipo mais frequente, um aumento de 164% face a 2023. A mensagem é a mesma da análise da ThreatLabz: o elo explorado não é o servidor, é o processo de aprovação.

Do ponto de vista legal, a exposição destas contas tem duas consequências diretas. Se do incidente resultar acesso a dados pessoais de clientes, colaboradores ou candidatos, aplicam-se os deveres de notificação previstos no RGPD, incluindo a comunicação à CNPD no prazo de 72 horas quando exista risco para os titulares. E, para as entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), a gestão de riscos deixou de ser um assunto exclusivo do departamento de TI: envolve controlo de acessos, gestão de fornecedores, formação e responsabilidade dos órgãos de gestão. Para uma PME portuguesa, a leitura prática é simples — proteger a conta do responsável financeiro pode ser tão determinante quanto proteger o controlador de domínio.

Perguntas frequentes

Porque é que os grupos de ransomware preferem chefias intermédias?

Porque essas contas concentram acesso a processos de negócio sensíveis e a pessoa tem influência interna para acelerar decisões. Os atacantes procuram colaboradores cujo trabalho lhes dá acesso a faturas, aprovações de pagamento, orçamentos, contratos com fornecedores, contas de clientes ou registos de recursos humanos.

Isto significa que os diretores de TI são o alvo principal?

Não exatamente. A maioria das vítimas analisadas trabalhava em finanças, vendas, operações, RH ou marketing, ainda que cerca de metade pertencesse a organizações dos setores industrial ou de TI. O setor da empresa não deve ser confundido com o departamento da vítima.

Que medida isolada tem maior impacto?

Aplicar autenticação multifator resistente a phishing às contas com acesso a processos financeiros e a dados sensíveis, combinada com revisão de permissões. Sem isso, credenciais roubadas por infostealers continuam a valer como chave de entrada.

Uma PME em Portugal tem de comunicar um incidente destes?

Se houver comprometimento de dados pessoais, aplicam-se os deveres de notificação do RGPD à CNPD e, quando exista risco elevado, a comunicação aos titulares. Entidades abrangidas pelo Decreto-Lei n.º 125/2025 têm ainda obrigações próprias de notificação ao CNCS/CERT.PT.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Zscaler ThreatLabz e pelo Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS/CERT.PT).