A Google lançou uma atualização de emergência para o navegador Chrome com o objetivo de corrigir uma vulnerabilidade de dia zero (zero-day) que já estava a ser explorada em ataques reais. A falha, identificada como CVE-2025-14174, reside no componente gráfico ANGLE e foi corrigida em coordenação com a Apple, que remendou o mesmo problema nos seus sistemas operativos. Trata-se do oitavo zero-day do Chrome ativamente explorado desde o início de 2025, num ano particularmente intenso para a segurança do navegador mais utilizado do mundo.
Resposta rápida: A Google corrigiu uma falha de acesso a memória fora dos limites no ANGLE do Chrome (CVE-2025-14174, CVSS 8.8), já explorada em ataques dirigidos. Atualize já o Chrome para a versão 143.0.7499.109/.110 (Windows/Mac) ou 143.0.7499.109 (Linux) em Menu > Ajuda > Acerca do Google Chrome e reinicie o navegador. Utilizadores de dispositivos Apple e do Microsoft Edge também devem atualizar.
O que é a vulnerabilidade CVE-2025-14174
A vulnerabilidade foi classificada como um problema de acesso a memória fora dos limites (out-of-bounds memory access) no ANGLE, uma camada de abstração gráfica de código aberto partilhada pelo projeto Chromium. Segundo a descrição técnica, o acesso a memória fora dos limites no ANGLE do Google Chrome em Mac, em versões anteriores à 143.0.7499.110, permitia a um atacante remoto realizar esse acesso indevido através de uma página HTML manipulada. Na prática, bastaria induzir a vítima a visitar uma página maliciosa para desencadear o comportamento indevido na memória.
A gravidade é elevada. A vulnerabilidade recebeu o identificador CVE-2025-14174, com uma pontuação CVSS de 8,8, sendo descrita pela Google como um acesso a memória fora dos limites no ANGLE. Este tipo de falha de corrupção de memória é dos vetores mais valiosos para atacantes, uma vez que pode abrir caminho à execução de código arbitrário e ao comprometimento do navegador.
Um pormenor importante distingue este caso da maioria dos zero-days do Chrome: o mesmo defeito afetava também o WebKit da Apple. As notas que acompanham as atualizações de segurança da Apple indicam que a CVE-2025-14174 é um problema de corrupção de memória no WebKit, o motor de código aberto usado pelo Safari e por todos os navegadores no iPhone e no iPad, o que explica a necessidade de correções no Chrome e no Edge.
Versões afetadas e correções
A correção foi distribuída no ramo Chrome 143 para todas as principais plataformas de ambiente de trabalho. Para se protegerem, os utilizadores devem atualizar o Chrome para as versões 143.0.7499.109/.110 no Windows e no macOS da Apple, e 143.0.7499.109 no Linux. Por se tratar de uma falha no ANGLE, componente comum ao Chromium, outros navegadores baseados nesta base estão igualmente expostos. A CVE-2025-14174 foi também corrigida pela Microsoft no seu navegador Edge, baseado em Chromium, a 11 de dezembro, e adicionada ao catálogo de vulnerabilidades exploradas da CISA a 12 de dezembro.
Do lado da Apple, o âmbito é ainda mais alargado. As listas de produtos afetados indicam que estão em causa o Safari anterior à versão 26.2, o iOS e iPadOS anteriores à 26.2 (e à 18.7.3 no ramo mais antigo), além de várias versões do macOS Sonoma, Sequoia e Tahoe, tvOS, watchOS e visionOS. Os utilizadores destes dispositivos devem instalar as atualizações mais recentes disponibilizadas pela Apple.
| Plataforma | Versão corrigida do Chrome |
|---|---|
| Windows | 143.0.7499.109/.110 |
| macOS | 143.0.7499.109/.110 |
| Linux | 143.0.7499.109 |
Como a falha foi descoberta e explorada
A descoberta resultou de uma colaboração entre as equipas de segurança das duas empresas. A Google atribuiu o crédito pela deteção do problema à Apple Security Engineering and Architecture (SEAR) e ao Google Threat Analysis Group (TAG), que reportaram a falha a 5 de dezembro de 2025. O envolvimento do TAG é revelador do perfil dos ataques: esta unidade da Google centra-se frequentemente em campanhas de spyware e em atores patrocinados por Estados que usam zero-days para espionagem.
De acordo com o aviso da Apple, os ataques foram cirúrgicos. A Apple afirmou que as falhas foram exploradas em ataques altamente sofisticados e dirigidos contra indivíduos específicos, com a descoberta atribuída ao Threat Analysis Group da Google e às equipas de segurança da Apple. Este padrão é típico de operações de vigilância que visam alvos de elevado valor, como jornalistas, ativistas ou responsáveis governamentais, e não de campanhas de massa contra o utilizador comum. Ainda assim, uma vez tornada pública uma vulnerabilidade explorada, o risco de reutilização por outros atores aumenta rapidamente.
Fiel à sua prática habitual, a Google limitou inicialmente os detalhes técnicos. Antes da atribuição do CVE, a falha era referida apenas por um número interno do repositório de bugs do Chromium (466192044), e a empresa confirmou apenas que existia um exploit em circulação. Esta contenção de informação visa dar tempo à maioria dos utilizadores para atualizar antes de os detalhes ficarem plenamente acessíveis a potenciais atacantes.
As outras correções do mesmo boletim
Além do zero-day, o mesmo boletim de segurança resolveu duas outras vulnerabilidades de gravidade média. A Google corrigiu ainda mais duas vulnerabilidades no aviso: a CVE-2025-14372, uma falha de use-after-free no Gestor de Palavras-passe, e a CVE-2025-14373, uma implementação inadequada na barra de ferramentas (Toolbar). Convém notar uma discrepância nas classificações: a CVE-2025-14372 foi reportada à Google a 14 de novembro por Weipeng Jiang (@Krace), do Vulnerability Research Institute, e embora a Google lhe tenha atribuído uma gravidade moderada, uma entrada no repositório da Tenable menciona uma pontuação CVSS v3.0 de 9,8, sugerindo que alguns lhe atribuíram gravidade crítica.
Cronologia da resposta
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 5 dez. 2025 | Apple SEAR e Google TAG reportam a falha à Google |
| 10/11 dez. 2025 | Google e Microsoft (Edge) lançam as correções de emergência |
| 12 dez. 2025 | Apple publica atualizações para iOS, iPadOS, macOS, Safari e outras plataformas; CISA adiciona o CVE ao catálogo KEV |
| 13 dez. 2025 | Atribuição pública do identificador CVE-2025-14174 (CVSS 8.8) |
Um ano difícil para o Chrome
Este caso encerrou uma sequência notável. Com esta atualização, a Google corrigiu oito falhas de dia zero no Chrome exploradas ativamente ou demonstradas como prova de conceito desde o início do ano, incluindo a CVE-2025-2783, a CVE-2025-4664, a CVE-2025-5419, a CVE-2025-6554, a CVE-2025-6558, a CVE-2025-10585 e a CVE-2025-13223. Várias destas falhas concentraram-se no motor JavaScript V8 e em componentes adjacentes, um alvo recorrente em cadeias de exploração reais. Menos de um mês antes, a Google já tinha corrigido a CVE-2025-13223, uma falha de confusão de tipos no V8 também reportada pelo TAG.
Porque é que isto importa em Portugal
Ainda que os ataques observados tenham sido dirigidos a alvos específicos, a inclusão no catálogo de vulnerabilidades exploradas da CISA elevou a urgência da correção para todos. A CISA adicionou este CVE ao seu catálogo de vulnerabilidades conhecidas exploradas, exigindo às agências federais norte-americanas a sua remediação até 2 de janeiro de 2026. Embora esta obrigação se aplique ao governo dos EUA, o catálogo KEV é uma referência internacional que organizações de todo o mundo, incluindo em Portugal, usam para priorizar correções.
Para as PME e organizações portuguesas, o episódio reforça obrigações que se tornaram mais exigentes com o novo enquadramento legal. O Regime Jurídico da Cibersegurança, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 125/2025 que transpõe a diretiva NIS2, coloca a gestão de vulnerabilidades e a rápida aplicação de correções no centro das medidas de gestão de risco esperadas de muitas entidades. O CNCS e o CERT.PT recomendam de forma consistente a atualização atempada de software e a subscrição de avisos de segurança. Para os cidadãos, a mensagem é simples: manter o navegador e o sistema operativo atualizados é a defesa mais eficaz e imediata contra este tipo de falha.
Há ainda um risco frequentemente esquecido: as aplicações de ambiente de trabalho que embutem Chromium (por exemplo, via Electron ou CEF). Estas podem continuar vulneráveis mesmo depois de o navegador principal estar atualizado, pelo que as equipas de TI devem inventariar as versões de Chromium incorporadas nas suas aplicações e exigir aos fornecedores confirmação de que integram a correção. Do lado do utilizador, o processo é rápido: abrir o menu de três pontos, ir a Ajuda > Acerca do Google Chrome, aguardar a transferência da atualização e clicar em Reiniciar.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Google (Chrome Releases), pela Apple, pela CISA, pelo INCIBE-CERT e por investigadores de segurança.
