O falso “instalador” do Codex que leva programadores a infetar o próprio Mac

Uma campanha de publicidade maliciosa está a colocar páginas falsas de descarga do OpenAI Codex acima dos resultados legítimos no motor de busca da Google, com um objetivo simples: convencer utilizadores de macOS a colar um comando no Terminal e, com isso, infetarem o próprio computador. A equipa de investigação Cato CTRL, da Cato Networks, detalhou a operação, construída em torno de um falso instalador do OpenAI Codex para macOS. Num relatório técnico publicado a 24 de agosto, os investigadores descrevem pesquisas patrocinadas para termos como “codex macos download” a encaminhar as vítimas para páginas alojadas no Google Sites que imitam um portal oficial de descarga do Codex; o portal falso apresentava opções para macOS e Linux, mas só foi observada entrega ativa de payload para macOS.

Resposta rápida: Anúncios patrocinados na Google levam quem procura o OpenAI Codex para macOS a páginas falsas no Google Sites que pedem a execução de um comando no Terminal. O comando aparenta ser uma instalação legítima via npm, mas descarrega uma cadeia de três fases que termina num binário Mach-O em /tmp/helper, com forte sobreposição com a atividade de distribuição do infostealer AMOS. Nunca cole comandos de Terminal fornecidos por um site: instale ferramentas de programação apenas a partir dos canais oficiais do fabricante.

Um anúncio patrocinado acima do resultado verdadeiro

O ponto de partida é publicidade paga. Para pesquisas como “codex macos download”, surge um resultado patrocinado acima do resultado genuíno da OpenAI; esse anúncio não conduz a openai.com, mas a uma página no Google Sites, o serviço gratuito de criação de sites da Google, que imita um portal de descarga do Codex. A página reproduz a imagem de marca da OpenAI, o que basta para desarmar a desconfiança de quem está apenas à procura de instalar uma ferramenta de programação assistida por IA.

O detalhe operacional relevante é que o Google Sites funciona como camada de confiança, não como servidor do código malicioso. A página visível não contém código malicioso: carrega conteúdo dos servidores dos atacantes através de um iframe, provavelmente via um proxy de conteúdo estático da Google, e a Cato identificou três conjuntos de iscos em sites.google.com ligados a hosts de iframe como bright-links[.]com e swiftsaverfin[.]com. Esta arquitetura permite aos operadores usar um domínio de alojamento reputado no primeiro contacto e manter o conteúdo ativo em infraestrutura separada; o terceiro conjunto reutilizou um host de iframe já visto no primeiro.

Há ainda mecanismos para dificultar a análise. Num segundo conjunto, a página ClickFix ativa era servida a partir de um caminho inesperado, enquanto o caminho mais intuitivo devolvia uma página de produto inócua, e a Cato observou também conteúdo benigno quando o isco era aberto a partir de um dispositivo que não fosse macOS — um filtro por caminho e por sistema operativo que pode fazer com que investigadores ou sistemas automáticos recebam uma página inofensiva.

ClickFix: quando é a vítima que executa o malware

A técnica chama-se ClickFix e tem uma característica que a torna eficaz: não há ficheiro descarregado que uma solução antivírus possa bloquear — a vítima é levada a copiar um comando e a executá-lo no Terminal, fazendo ela própria o trabalho do malware. Quando um visitante macOS escolhe a opção falsa de descarga, a página instrui-o a abrir o Terminal e a colar um comando que se assemelha a uma instalação legítima do Codex via npm, mas que descodifica um URL em Base64, obtém um script remoto e canaliza-o para o zsh.

A partir daí, a cadeia tem três fases. O primeiro carregador é um script de shell com um payload codificado embutido, que descodifica e executa através de eval; o script de segunda fase reporta que a vítima colou o comando, obtém um binário Mach-O final, limpa os atributos estendidos com xattr -c, marca o ficheiro como executável e lança-o a partir de /tmp/helper. A remoção desses atributos elimina os metadados de quarentena de descarga que normalmente colocariam um aviso à frente do utilizador. Segundo a Cato, os binários finais são ficheiros Mach-O universais, capazes de correr nativamente em Macs Intel e em máquinas Apple Silicon.

Os operadores também foram refinando a ofuscação: versões anteriores do carregador usavam conteúdo Base64 comprimido, enquanto variantes mais recentes recorriam a um contentor gzip cifrado com AES e reconstruíam chaves de desencriptação a partir de várias variáveis — mudanças que acrescentam atrito à análise sem alterar o fluxo de entrega final.

FaseO que acontece
1. PesquisaAnúncio patrocinado para termos como codex macos download surge acima do resultado legítimo
2. IscoPágina no Google Sites com marca OpenAI carrega conteúdo ClickFix por iframe de infraestrutura dos atacantes
3. ExecuçãoVítima cola no Terminal um comando com aparência de npm install; URL em Base64 é descodificado e o script é canalizado para zsh
4. CarregadorScript de shell ofuscado descodifica e executa payload embutido via eval
5. Telemetria e payloadPedido com event=pasted regista a vítima; binário Mach-O é colocado em /tmp/helper, com xattr -c antes da execução

Indicadores a vigiar

TipoIndicador
Domínio (host de iframe)bright-links[.]com
Domínio (host de iframe)swiftsaverfin[.]com
Caminho no sistema/tmp/helper
Comportamentocurl canalizado para zsh a partir de comando colado
ComportamentoExecução de xattr -c antes de lançar um binário recém-descarregado
RedePedido de telemetria com o parâmetro event=pasted

Nota importante de metodologia: a Cato Networks encontrou semelhanças substanciais entre o quadro de entrega desta campanha e uma cadeia de infeção do Atomic macOS Stealer (AMOS) já documentada — incluindo carregadores de shell codificados, pedidos de telemetria, obtenção de payload com temática de atualização e binários Mach-O universais em /tmp/helper — mas apresentou a sobreposição como consistente com atividade de distribuição do AMOS e não como prova de que o payload final seja AMOS, alertando que a telemetria de entrega não deve, por si só, ser lida como evidência do comportamento do Mach-O depois de executado. Durante a investigação, a Cato encontrou ainda uma página ClickFix semelhante a fazer-se passar pelo Claude Code, da Anthropic, partilhando infraestrutura com a campanha do Codex.

Um padrão que se repete no macOS

Esta não é uma anomalia isolada. A Microsoft descreveu a evolução de uma campanha de infostealers com instruções no estilo ClickFix dirigida a utilizadores de macOS, em que os atacantes exploram quem procura conselhos para problemas do sistema (por exemplo, otimizar espaço em disco) e alojam comandos maliciosos em blogues e plataformas de conteúdos; esses comandos, apresentados como instaladores de utilitários, carregam malware como Macsync, Shub Stealer e AMOS, que recolhe e exfiltra ficheiros multimédia, dados do iCloud, entradas da Keychain e chaves de carteiras de criptomoedas. Nessa campanha, observada pela Microsoft desde fevereiro de 2026, o comando colado obtém um carregador via curl, seguido de um segundo script em zsh que descodifica e descomprime um payload em Base64 e Gzip e o executa com eval.

Do lado da Apple houve também uma resposta. Com o lançamento do macOS Tahoe 26.4, em março, a Apple introduziu um alerta de segurança que avisa quando o utilizador cola no Terminal um comando potencialmente prejudicial, e publicou posteriormente um documento de suporte a explicar o aviso. A janela indica “Possible malware, Paste blocked”, explica que burlões costumam incentivar a colagem de texto no Terminal e deixa ao utilizador a decisão de colar mesmo assim. É uma barreira útil, mas não infalível: os critérios de deteção não são públicos, pelo que os utilizadores não devem depender exclusivamente do aviso e devem evitar executar comandos vindos de sites, e-mails ou chats de suporte não confiáveis.

O que fazer, na prática

  • Obter o Codex e outras ferramentas de programação apenas através de canais verificados do fabricante e nunca colar um comando de Terminal fornecido por um site como parte de uma instalação.
  • Inspecionar cuidadosamente os resultados patrocinados, restringir a execução de comandos de risco sempre que viável, monitorizar padrões invulgares de curl | zsh e de xattr -c, e bloquear a infraestrutura de iframe conhecida como maliciosa.
  • Manter o macOS atualizado, para beneficiar dos avisos nativos do Terminal introduzidos no Tahoe 26.4.
  • Em caso de suspeita de execução, tratar como comprometimento de credenciais: rodar palavras-passe, revogar sessões e tokens, e verificar carteiras de criptomoedas e acessos a repositórios de código.
  • Correlacionar sinais em vez de procurar um único indicador: a Cato sublinha que nenhuma fase isolada expõe de forma fiável o ataque e que a deteção depende de correlacionar entrega por pesquisa, conteúdo embutido, execução no Terminal e atividade de saída.

Porque é que isto importa em Portugal

O alvo desta campanha é particularmente sensível: programadores. Um Mac de programação concentra tokens de acesso a repositórios, chaves de API de serviços cloud, credenciais guardadas no navegador e sessões ativas de ferramentas internas. Um roubo bem-sucedido não termina no equipamento — é, frequentemente, o primeiro passo para um acesso inicial a sistemas empresariais, incluindo cadeias de fornecimento de software.

Para as organizações abrangidas pelo Regime Jurídico da Ciberseguranç​a (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), este tipo de incidente entra diretamente no perímetro das obrigações de gestão de riscos, formação de utilizadores e notificação de incidentes ao CNCS/CERT.PT, com prazos apertados a partir do momento em que a entidade toma conhecimento de um incidente significativo. Se forem exfiltradas credenciais que dão acesso a dados pessoais de clientes ou colaboradores, acresce a avaliação de violação de dados no âmbito do RGPD, com eventual notificação à CNPD e comunicação aos titulares.

Para PME sem equipa de segurança dedicada, a mitigação mais barata continua a ser processual: definir que nenhum software é instalado a partir de resultados patrocinados, manter uma lista interna de fontes oficiais para ferramentas de desenvolvimento, e treinar a regra simples de que nenhum site legítimo pede a colagem de comandos no Terminal para instalar uma aplicação.

Perguntas frequentes

O OpenAI Codex foi comprometido?

Não. O que existe é uma imitação: páginas falsas alojadas no Google Sites que copiam a marca e o aspeto de um portal de descarga do Codex. O software legítimo não está em causa; o problema é a distribuição fraudulenta através de anúncios patrocinados.

Um antivírus para Mac teria bloqueado este ataque?

Não necessariamente. Não é descarregado nenhum ficheiro que uma solução antivírus possa bloquear na fase inicial; é a própria vítima que copia e executa o comando no Terminal. A deteção depende sobretudo de comportamento em endpoint e de monitorização de rede.

Como sei se o meu Mac foi infetado?

Procure sinais como a existência ou execução recente de um ficheiro em /tmp/helper, invocações anómalas de curl canalizadas para zsh e utilização de xattr -c. Em caso de dúvida, isole o equipamento, rode credenciais e peça análise a uma equipa de segurança.

O aviso do Terminal no macOS resolve o problema?

Ajuda, mas não substitui a prudência. O utilizador pode optar por colar o comando mesmo assim e os critérios de deteção não foram divulgados pela Apple, pelo que a regra continua a ser não executar comandos sugeridos por sites, chats ou chamadas de suporte.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Cato Networks (Cato CTRL), pela Microsoft e pela Apple, bem como em reportagem técnica especializada.