A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta defensiva para se tornar, ao mesmo tempo, uma arma nas mãos dos atacantes e um alvo de eleição. É esta a conclusão central do mais recente relatório anual de threat hunting da CrowdStrike, apresentado a jornalistas esta semana. Segundo a empresa, “AI is both the weapon and the target” — nas palavras do vice-presidente sénior da divisão de contra-adversários, Adam Meyers. A atividade de adversários que recorrem a IA cresceu 89% em 2025, com grupos criminosos e Estados-nação a integrar modelos de IA em praticamente todas as fases da cadeia de ataque.
Resposta rápida: A CrowdStrike observou um aumento de 89% na atividade de adversários apoiados por IA e um tempo médio de propagação lateral (breakout) de apenas 29 minutos, com o caso mais rápido em 27 segundos. Os atacantes usam IA para acelerar reconhecimento, roubo de credenciais e evasão, mas também atacam a própria infraestrutura de IA e envenenam pacotes de software populares. Reforce a autenticação multifator, monitorize acessos por identidades válidas e reveja as dependências de software das suas aplicações.
A IA como acelerador — não como reinvenção
O ponto mais importante do relatório é uma distinção de nuance: a IA não está a criar categorias de crime totalmente novas, está sobretudo a acelerar táticas já conhecidas. Os adversários apoiados por IA aumentaram as suas operações em 89% ano após ano, recorrendo à IA em reconhecimento, roubo de credenciais e evasão. A própria CrowdStrike resume a dinâmica de forma direta: a IA é simultaneamente o acelerador e o alvo.
Esta aceleração tem um efeito prático mensurável na velocidade dos ataques. Em 2025, o tempo médio de breakout no cibercrime — o intervalo entre o primeiro acesso do atacante e o momento em que começa a mover-se lateralmente no sistema — caiu para 29 minutos, um aumento de 65% na velocidade face a 2024, com o breakout mais rápido de sempre a ocorrer em apenas 27 segundos. Numa das intrusões, a exfiltração de dados começou quatro minutos após o acesso inicial. Para as equipas defensivas, esta compressão de tempo significa que os processos manuais de resposta deixaram, em muitos casos, de ser suficientes.
A CrowdStrike sinaliza ainda uma mudança na origem das deteções: a equipa de threat hunting segue agora indícios despoletados por agentes de IA a um ritmo 2,5 vezes superior ao das ameaças despoletadas por humanos, tendência que se verifica tanto em atores estatais como em criminosos com motivação financeira.
Quem são os atores por trás desta vaga
O relatório destaca vários grupos que integraram IA nas suas operações. O ator ligado à Rússia FANCY BEAR utilizou malware com capacidade de LLM, conhecido como LAMEHUG, para automatizar o reconhecimento e a recolha de documentos a partir de sistemas comprometidos. O grupo de cibercrime PUNK SPIDER recorreu a scripts gerados por IA para acelerar a extração de credenciais e apagar evidências forenses.
O grupo que a CrowdStrike considera ter demonstrado o uso de IA mais avançado é norte-coreano. Um grupo que a empresa segue como Famous Chollima — subunidade que opera sob o grande grupo Lazarus e conhecida pelos esquemas de falsos trabalhadores de TI — “demonstrou o uso mais avançado de IA” na segunda metade de 2025 e primeira de 2026. Este grupo, apoiado pelo Estado, criou “empresas falsas completas, com sites gerados por IA, contas de GitHub e infraestrutura de email para apoiar operações de ameaça interna”. No relatório global anual, a CrowdStrike já tinha notado que os incidentes ligados à Coreia do Norte subiram mais de 130%, tendo a atividade do FAMOUS CHOLLIMA mais do que duplicado.
A IA como alvo: envenenar a cadeia de abastecimento de software
A outra face desta vaga é a IA enquanto alvo. Os atacantes estão também a visar a infraestrutura de IA das organizações e a envenenar pacotes de software populares para comprometer os seus utilizadores. O comprometimento da cadeia de abastecimento por via da IA foi, de facto, a segunda técnica MITRE ATLAS mais comum para obter acesso inicial.
Um dos casos mais expressivos envolveu bibliotecas de código aberto amplamente utilizadas. O grupo STARDUST CHOLLIMA comprometeu o pacote NPM Axios — descarregado cerca de 100 milhões de vezes por semana — expondo potencialmente milhões de utilizadores a jusante e envenenando cadeias de abastecimento de código aberto. Separadamente, antes de a CrowdStrike ter desmantelado a botnet Glassworm, os operadores de malware comprometeram 350 repositórios GitHub para injetar código malicioso em projetos JavaScript e Python.
Do lado da IA generativa, o vetor de entrada muda de natureza. Os adversários exploraram ferramentas legítimas de GenAI em mais de 90 organizações, injetando prompts maliciosos para gerar comandos de roubo de credenciais e criptomoeda. Exploraram ainda vulnerabilidades em plataformas de desenvolvimento de IA para estabelecer persistência e implantar ransomware, e publicaram servidores de IA maliciosos que se faziam passar por serviços de confiança para intercetar dados sensíveis. Um grupo com motivação financeira, seguido pela CrowdStrike como Altered Spider (e noutros locais como TeamPCP), visou as ferramentas de IA de programadores, comprometendo mais de 300 dependências de software num único dia e pivotando rapidamente para ambientes de nuvem.
Cronologia dos incidentes destacados
| Período | Incidente | Ator atribuído |
|---|---|---|
| 2.º semestre 2025 / 1.º semestre 2026 | Empresas falsas com sites, GitHub e email gerados por IA para operações de ameaça interna | Famous Chollima (DPRK) |
| 2025 | Malware com LLM (LAMEHUG) para automatizar reconhecimento e recolha de documentos | Fancy Bear (Rússia) |
| 2025 | Comprometimento do pacote NPM Axios (~100 milhões de downloads/semana) | Stardust Chollima (DPRK) |
| Um único dia | Comprometimento de mais de 300 dependências de software através de ferramentas de IA de programadores | Altered Spider / TeamPCP |
Nota metodológica: alguns destes eventos são referidos em relatórios distintos da CrowdStrike ao longo de 2026. As atribuições e datas apresentadas seguem a formulação da própria empresa e devem ser lidas como observações de um único fornecedor, não como conclusões independentes.
Medidas de mitigação recomendadas
- Ativar autenticação multifator resistente a phishing e reduzir a dependência de credenciais estáticas — o abuso de identidades válidas é um vetor central desta vaga.
- Rever e fixar (
pin) versões de dependências de software; auditar pacotes de código aberto como os donpme doPyPIantes de os integrar em pipelines de produção. - Tratar as ferramentas de IA generativa como superfície de ataque: limitar prompts não fidedignos, isolar agentes e monitorizar comportamentos anómalos.
- Monitorizar de perto processos de recrutamento e acessos de trabalhadores remotos de TI, dada a ameaça de operativos infiltrados com personas geradas por IA.
- Encurtar drasticamente os tempos de deteção e resposta, recorrendo a automação, dado que o breakout médio caiu para 29 minutos.
Porque é que isto importa em Portugal
Para cidadãos, PME e organizações nacionais, esta vaga tem implicações concretas. A compressão do tempo de ataque e o envenenamento de bibliotecas amplamente usadas afetam qualquer entidade que dependa de software de terceiros — ou seja, praticamente todas. As empresas portuguesas devem acompanhar os alertas do Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) e do CERT.PT, que emitem regularmente orientações sobre campanhas ativas e boas práticas de resposta a incidentes.
No plano regulatório, o novo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a diretiva NIS2) alarga o universo de entidades obrigadas a adotar medidas de gestão de risco e a notificar incidentes significativos. A segurança da cadeia de abastecimento de software é explicitamente um dos pilares destas obrigações — precisamente o vetor que os grupos descritos exploram. Quando um incidente envolve dados pessoais, aplica-se ainda o RGPD, com deveres de notificação à CNPD e, se aplicável, aos titulares afetados.
Perguntas frequentes
O que significa dizer que a IA é ao mesmo tempo arma e alvo?
Significa que os atacantes usam IA para acelerar as suas operações (arma) e, em paralelo, atacam a infraestrutura de IA das organizações e as ferramentas de IA generativa (alvo), por exemplo através de injeção de prompts maliciosos e do envenenamento de pacotes de software usados no desenvolvimento de IA.
Quanto mais rápidos ficaram os ataques?
Segundo a CrowdStrike, o tempo médio de breakout caiu para 29 minutos em 2025, um aumento de 65% na velocidade face ao ano anterior, com o caso mais rápido observado em apenas 27 segundos. Numa intrusão, a exfiltração de dados começou quatro minutos após o acesso inicial.
A IA está a criar novos tipos de ataque?
O relatório sublinha que a IA está sobretudo a acelerar táticas já conhecidas, e não a criar categorias inteiramente novas de crime. O impacto operacional é significativo mesmo quando as técnicas subjacentes são familiares.
O que devem fazer as PME portuguesas?
Devem reforçar a autenticação multifator, auditar as dependências de software de código aberto, tratar as ferramentas de IA como superfície de ataque e acompanhar os alertas do CNCS e do CERT.PT. As entidades abrangidas pelo novo Regime Jurídico da Cibersegurança devem ainda garantir a conformidade com as obrigações de gestão de risco e notificação de incidentes.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela CrowdStrike (relatório anual de threat hunting e comunicados associados).
