DangleGeddon: a IA pode transformar registos DNS esquecidos numa arma global

Uma investigação da empresa de threat intelligence Silent Push, batizada de “DangleGeddon”, demonstrou que a inteligência artificial pode transformar uma falha antiga e banal de higiene de DNS — os chamados registos “pendentes” (dangling DNS) — numa ameaça de escala global capaz de atingir governos, bancos e cadeias de abastecimento. Segundo os investigadores, a IA poderia converter estes sequestros de subdomínios numa arma ao nível de um Estado-nação, capaz de perturbar governos, bancos e cadeias de abastecimento globais. O que antes era usado sobretudo por cibercriminosos com motivação financeira ganha agora um potencial disruptivo muito mais preocupante.

Resposta rápida: Um registo DNS que continua a apontar para um recurso de cloud já apagado permite a um atacante recriar esse recurso e assumir o controlo do subdomínio, herdando a reputação da organização. A Silent Push mostrou que a IA acelera a descoberta e a exploração destas falhas em massa. A mitigação é simples: apagar sempre o registo DNS antes de eliminar o recurso de cloud e auditar regularmente os registos esquecidos.

O que é um registo DNS “pendente”

Um sequestro de DNS pendente é um método de ataque conhecido há anos. Ocorre quando um registo DNS continua a apontar para um recurso de cloud depois de esse recurso ter sido eliminado, deixando a ligação “pendente”, a apontar para o vazio. Trata-se de um simples caso de má higiene de segurança, mas não é raro: se um atacante encontrar essa ligação — algo que não é difícil com scans à Internet — e reconstruir o recurso de cloud sob o seu próprio controlo, passa a ter acesso ao subdomínio.

O problema é que o atacante não usa um domínio parecido, mas sim o domínio real da vítima. Como sublinha uma análise técnica sobre o tema, um subdomínio sequestrado é o domínio genuíno, controlado pela pessoa errada, o que o torna muito mais eficaz para phishing, abuso de cookies de domínio-pai, exploração de listas de permissões de OAuth e CSP e, quando há um registo MX envolvido, também para correio eletrónico. A Microsoft descreve o risco de forma direta: as entradas de DNS pendentes permitem que atores maliciosos tomem controlo do nome DNS associado para alojar um site ou serviço malicioso.

Como a IA muda o jogo

A Silent Push colocou-se na perspetiva de um atacante-Estado, que prioriza o caos e a disrupção em vez da monetização, e que dispõe agora de uma nova ferramenta: a inteligência artificial. A IA revelou-se um multiplicador de força no projeto, expandindo massivamente a descoberta de domínios e subdomínios. Foi também usada para filtrar recursos sem alocação ou sem registo DNS, reduzindo um grande conjunto inicial de dados a uma lista precisa de várias centenas de alvos exploráveis.

Mais grave ainda, esse processo encontrou novos alvos, alargando a superfície de ataque para além do que era possível a atacantes humanos, e os investigadores conseguiram automatizar a construção da infraestrutura de exploração, ficando “a um botão de distância” do que apelidaram de “Dangle Day”. Um analista da Forrester citado noutra cobertura resumiu a assimetria de custos: a IA consegue processar de uma forma que os humanos não conseguem, o que reduz drasticamente o custo de oportunidade para quem procura estes registos.

A esta ameaça soma-se um vetor emergente: os agentes de IA. Os agentes de IA confiam na resolução de DNS e seguem redirecionamentos HTTP por conceção, não tendo qualquer mecanismo interno para questionar se um subdomínio foi comprometido — e um registo DNS pendente transfere silenciosamente essa confiança para o atacante. Assim, um atacante pode influenciar agentes de IA, embutir conteúdo semelhante a instruções ocultas, provocar fugas de dados e personificar sistemas internos, tudo sem explorar uma única falha de software.

Casos concretos identificados na investigação

A Silent Push corroborou as suas conclusões com exemplos reais, testados de forma segura. Num domínio do governo federal dos EUA, um registo pendente apontava para um container de Azure Blob Storage não atribuído, e o sequestro permitiria criar páginas de phishing que contornariam os filtros de confiança governamentais, aproveitando a reputação associada aos domínios .gov. No setor bancário, o maior banco francês, o Société Générale, deixou um recurso de Azure Blob Storage não atribuído a apontar para uma aplicação.

Na indústria, a Ford, empresa da Fortune 500, tinha um registo DNS pendente a apontar para uma gateway de aplicação de desenvolvimento alojada numa máquina virtual Azure, o que poderia permitir a recolha de credenciais de programadores — chaves de API e cabeçalhos de autenticação — para reutilização e expansão de acessos, ou para alojar malware. No setor farmacêutico, a Eli Lilly deixou um registo a apontar para um guia de dispositivos Apple, o que poderia permitir a um atacante focar-se num conjunto específico de alvos e eventos. A empresa é clara na conclusão: demonstrou que compensa a qualquer organização não deixar nada “pendente” nos seus sites.

Não é um problema teórico

A dimensão do fenómeno já está documentada. Uma investigação anterior da watchTowr sobre buckets S3 abandonados na AWS mostrou o potencial devastador destes recursos esquecidos. Os investigadores registaram cerca de 150 buckets S3 abandonados, com logging ativado, e observaram mais de 8 milhões de pedidos HTTP num período de dois meses. Esses pedidos incluíam atualizações de software; binários pré-compilados (não assinados) para Windows, Linux e macOS; imagens de máquinas virtuais; templates de CloudFormation; e configurações de servidores SSL VPN.

Os pedidos chegaram de redes da NASA e de outros organismos governamentais dos EUA, do Reino Unido e de outros países, bem como de redes militares, empresas da Fortune 500 e Fortune 100, uma “grande rede de cartões de pagamento” e uma “grande empresa de produtos industriais”. Ao entregar os buckets à AWS para sinkholing, a watchTowr garantiu que a divulgação da investigação não aumentava o risco, mas alertou que, em mãos erradas, o cenário teria ultrapassado em escala e impacto o ataque à cadeia de abastecimento da SolarWinds.

Os números de sequestros de subdomínios reforçam a tendência. Segundo dados reportados por várias fontes do setor, a SentinelOne assinalou mais de 1.250 riscos de sequestro de subdomínios associados a DNS pendente para os seus clientes em 2024, e a própria Silent Push reportou um cliente com mais de 2.000 registos exploráveis a exigir remediação imediata.

Como mitigar

A defesa contra estes ataques assenta sobretudo em disciplina operacional. A AWS resume o princípio essencial: apagar sempre primeiro o registo DNS, esperar que o TTL expire e só depois eliminar o recurso — esta ordem elimina a janela em que um registo pendente poderia ser explorado. Passos práticos recomendados:

  • Remover o registo DNS (CNAME, A, MX, NS) antes de desativar o recurso de cloud para onde aponta.
  • Auditar periodicamente todos os registos DNS e correlacioná-los com os recursos ativos em AWS, Azure e Google Cloud.
  • Dar atenção especial a registos CNAME que apontem para fornecedores externos e a registos A que apontem para IP que já não controla.
  • Ativar as ferramentas nativas dos fornecedores (por exemplo, o Microsoft Defender for App Service ou os IDs de verificação de domínio no Azure) que detetam entradas pendentes.
  • Colocar guardrails nos agentes de IA, restringindo a recolha automática de conteúdo web e avaliando a intenção semântica dos prompts.

A watchTowr resumiu a lição em tom irónico mas certeiro: enquanto setor, gastamos muito tempo a tentar resolver a “segurança da cadeia de abastecimento” das formas mais complexas possíveis e falhamos por completo nas coisas simples.

Porque importa para Portugal

Para organizações portuguesas, este tema cruza-se diretamente com o novo enquadramento legal. O Regime Jurídico da Cibersegurança, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 125/2025, foi publicado a 4 de dezembro de 2025 e transpõe a Diretiva (UE) 2022/2555 (NIS2), consolidando o Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) como autoridade nacional de cibersegurança. O diploma entrou em vigor a 3 de abril de 2026, impondo obrigações exigentes às entidades abrangidas e um regime sancionatório mais severo.

Entre essas obrigações está precisamente um sistema obrigatório de gestão de risco que cobre análise de risco, resposta a incidentes, gestão do ciclo de vida e segurança da cadeia de abastecimento. A gestão de registos DNS esquecidos encaixa diretamente nesta lógica de higiene de ativos e de gestão de superfície de exposição. Para as entidades essenciais e importantes, negligenciar estas falhas pode ter consequências legais: as coimas podem chegar a 10 milhões de euros ou 2% do volume de negócios anual mundial para entidades essenciais. Acresce que, se um sequestro de subdomínio resultar em recolha de dados pessoais ou phishing, poderão estar em causa obrigações ao abrigo do RGPD, incluindo a notificação de violações de dados. Para cidadãos e PME, a mensagem prática é a mesma: um subdomínio legítimo comprometido é praticamente impossível de distinguir do original, o que torna a vigilância dos próprios ativos DNS uma prioridade e não um extra.

Perguntas frequentes

O que é um registo DNS pendente (dangling DNS)?

É um registo DNS que continua a apontar para um recurso de cloud ou serviço externo que já foi eliminado ou deixou de estar sob o controlo da organização. A ligação fica “pendente”, criando uma oportunidade para que um atacante reclame esse recurso e assuma o controlo do subdomínio.

Porque é que a IA torna esta ameaça mais perigosa?

A IA acelera massivamente a descoberta e a filtragem de registos exploráveis, reduzindo um enorme conjunto de dados a uma lista precisa de alvos e automatizando a construção da infraestrutura de ataque. Isto baixa o custo de exploração em massa e permite ataques ao nível de um Estado-nação, focados na disrupção.

Como posso proteger a minha organização?

A regra de ouro é apagar sempre o registo DNS antes de eliminar o recurso de cloud associado e esperar que o TTL expire. Deve ainda auditar periodicamente todos os registos DNS, correlacioná-los com os recursos ativos e ativar as ferramentas de deteção dos fornecedores de cloud.

Esta ameaça tem implicações legais em Portugal?

Sim. O Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2) exige gestão de risco e segurança da cadeia de abastecimento às entidades abrangidas, com coimas que podem atingir milhões de euros. Se houver dados pessoais envolvidos, podem também aplicar-se as obrigações do RGPD.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Silent Push, watchTowr, SentinelOne, Akamai, AWS, Microsoft, SecurityWeek e pelo Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS).