Chamada, SMS ou QR code? As cinco burlas que a banca quer que aprenda a travar

A Associação Portuguesa de Bancos (APB) arrancou a 8 de setembro com a segunda fase da campanha nacional de sensibilização “Não passes cartão à fraude”, um ano depois de ter lançado a primeira vaga. A nova etapa é integralmente digital, decorre durante cinco semanas nas redes sociais da associação e do portal de literacia financeira Saber de Contas, e coloca no centro cinco cenários de fraude que se tornaram rotina no dia a dia dos portugueses: chamadas falsas em nome do banco, SMS com links maliciosos, e-mails com promessas de dinheiro fácil, referências de pagamento falsas e códigos QR manipulados. A mensagem central é comportamental e não tecnológica: parar, questionar e confirmar antes de agir.

Resposta rápida: A APB iniciou a 8 de setembro a segunda fase da campanha “Não passes cartão à fraude”, focada em vishing, smishing, phishing, falsas referências de pagamento e códigos QR fraudulentos. A ação decorre cinco semanas nas redes sociais da APB e do Saber de Contas, com dois conteúdos semanais por tema. A recomendação prática é simples: nunca partilhar dados bancários, códigos de autenticação ou palavras-passe em resposta a contactos inesperados e confirmar sempre a informação pelos canais oficiais do banco.

O que muda nesta segunda fase

A primeira fase da iniciativa foi apresentada a 22 de setembro de 2025. Na altura, a APB anunciou uma campanha nacional com presença em televisão, rádio, imprensa e meios digitais, incluindo redes sociais, com o mote “Não passes cartão à fraude”, destinada a alertar a população para os riscos crescentes da fraude online e a educar os diferentes públicos sobre os principais tipos de fraude nos pagamentos, com destaque para o phishing, o spoofing e a usurpação de identidade (impersonation). A associação indicou então que a campanha estaria presente também no multibanco, esperando alcançar cerca de 80% da população adulta, com intérprete de Língua Gestual Portuguesa nos vídeos televisivos e legendas em todos os conteúdos digitais.

A nova fase tem um perímetro diferente e mais cirúrgico. Segundo a APB, arranca a 8 de setembro e destina-se a ajudar os consumidores a reconhecer tentativas de fraude e a adotar comportamentos mais seguros nos canais digitais, com o regresso da personagem “Arnaldo” em cinco novas situações inspiradas em tentativas de fraude cada vez mais presentes no quotidiano. A campanha decorre ao longo de cinco semanas no LinkedIn da APB e no Instagram e Facebook do Saber de Contas, o portal de literacia financeira da associação, com dois conteúdos semanais dedicados a cada uma das situações de fraude. Além dos vídeos, serão publicados conteúdos educativos em vários formatos, incluindo carrosséis, infografias, questionários e listas de verificação.

O diagnóstico que sustenta a campanha é psicológico, não técnico. “A fraude assume formas cada vez mais diversificadas e sofisticadas, mas continua frequentemente a explorar os mesmos fatores: a urgência, a confiança e a distração”, afirma Rita Machado, responsável da área da literacia financeira da APB, que resume o objetivo desta fase: quando são pedidos dados, pagamentos ou uma ação imediata, deve parar-se e confirmar antes de agir. Em cada episódio, a personagem é confrontada com uma situação aparentemente credível e urgente e, antes de partilhar dados, clicar num link ou pagar, para, questiona e confirma a origem do contacto através dos canais oficiais.

As cinco tipologias em foco

TécnicaComo se manifestaSinal de alerta típico
VishingChamada telefónica falsa em nome do bancoPedido de códigos, PIN ou de uma “transferência de segurança”
SmishingSMS com link fraudulentoLigação para uma página de homebanking imitada
PhishingE-mail com promessa de dinheiro fácil ou prémioRemetente que não corresponde ao domínio oficial
Falsas referências de pagamentoEntidade e referência geradas pelo atacantePagamento “urgente” de um serviço não solicitado
Quishing / QRishingCódigo QR que encaminha para página ou pagamento fraudulentoQR colado sobre o original ou enviado por mensagem
Tipologias abordadas na segunda fase da campanha, conforme descrito pela APB.

Entre os comportamentos de segurança promovidos estão a não partilha de dados bancários em resposta a contactos inesperados, a verificação da origem das mensagens antes de clicar em links, a confirmação de referências de pagamento e a utilização dos canais oficiais do banco ou da entidade em causa.

Os números do Banco de Portugal: fraude baixa, mas prejuízo real

Os dados oficiais mais recentes ajudam a enquadrar a campanha. No Relatório dos Sistemas de Pagamentos referente a 2025, o Banco de Portugal indica que a fraude nos pagamentos eletrónicos se manteve extremamente reduzida e até diminuiu face ao período homólogo: no primeiro semestre de 2025, os débitos diretos foram o instrumento com menor taxa de fraude, com quatro operações fraudulentas por cada milhão, seguindo-se as transferências a crédito, com dez por milhão, e os cartões, com 66 por milhão. O valor compara com 129 operações fraudulentas por milhão nos cartões no primeiro semestre de 2024, com o valor médio da fraude a descer de 58 para 48 euros.

A escala percentual, porém, não deve criar falsa segurança. As perdas absolutas ascenderam a 5,3 milhões de euros no primeiro semestre de 2025, envolvendo essencialmente cartões e transferências a crédito — uma queda de 40,4% face ao período homólogo, segundo os dados divulgados pelo supervisor. Mais relevante para o tema desta campanha é a natureza da fraude: nas transferências a crédito, 84% das operações fraudulentas resultaram da emissão de uma ordem de pagamento pelo próprio infrator. Ou seja, o vetor dominante não é a quebra de sistemas bancários, mas a manipulação de pessoas — exatamente o terreno da engenharia social. O Banco de Portugal nota ainda que, nas operações com cartão, a taxa de fraude foi muito inferior quando foi aplicada autenticação forte do cliente.

O contexto de utilização também explica a pressão. O mesmo relatório registou um crescimento de 10,7% no número de pagamentos, para 5,2 mil milhões de operações, e um aumento de 12,8% no valor transacionado, com o valor médio por transação a subir para 168 euros.

Até a própria APB foi usada como isco

A pertinência da campanha ficou demonstrada pouco antes do seu arranque. A APB divulgou um comunicado a alertar para situações em que cidadãos são contactados telefonicamente por indivíduos que se fazem passar por colaboradores da associação, utilizando indevidamente o seu nome. É um caso de escola de vishing combinado com abuso de identidade institucional: a marca de uma entidade que não tem qualquer relação comercial direta com os clientes bancários é usada para conferir credibilidade a um pedido fraudulento. A regra prática é a mesma que a campanha promove: nenhuma entidade legítima — banco, associação setorial ou autoridade — pede códigos de autenticação, palavras-passe ou transferências por telefone.

Como reagir a um contacto suspeito

  • Interromper o contacto. Desligar a chamada ou ignorar a mensagem não tem custo; agir sob pressão tem.
  • Confirmar por canal independente. Ligar para o número do banco impresso no cartão ou usar a aplicação oficial, nunca os contactos indicados na mensagem recebida.
  • Nunca partilhar credenciais nem códigos. Códigos de autenticação de dois fatores, PIN e palavras-passe são pessoais e não devem ser ditados a ninguém.
  • Validar referências e QR codes. Confirmar entidade, referência e valor no portal oficial do prestador de serviço antes de pagar; desconfiar de autocolantes QR aplicados sobre outros.
  • Comunicar de imediato. Se houve partilha de dados ou pagamento, contactar o banco sem demora para tentar bloquear a operação e cartões, e apresentar queixa às autoridades competentes.
  • Reportar tentativas. Incidentes de phishing e smishing podem ser comunicados ao CERT.PT, no CNCS, contribuindo para a deteção e bloqueio de domínios fraudulentos.

Porque é que isto importa para cidadãos, PME e organizações

A engenharia social é, há anos, a ameaça mais transversal no ciberespaço nacional. Na 6.ª edição do Relatório Riscos & Conflitos, o CNCS destacou o phishing e o smishing, outras formas de engenharia social e as burlas online entre as ciberameaças mais relevantes, com os cibercriminosos, atores estatais e hacktivistas como principais agentes de ameaça em 2024. No mesmo documento, o vishing foi a subtipologia mais observada pelo CERT.PT, com 170 incidentes (18,31% do total) e um aumento de 136%, seguido da CEO Fraud, com 166 incidentes (17,89%) e uma subida de 164% face a 2023. A edição seguinte, o Relatório Riscos e Conflitos 2025, foi publicada a 30 de abril de 2026 e analisa as ciberameaças que afetaram o ciberespaço de interesse nacional no ano transato, apresentando também as tendências para o futuro próximo.

Para as PME, a leitura é direta: as mesmas técnicas que visam a conta pessoal do consumidor são usadas contra departamentos financeiros, sob a forma de faturas alteradas, pedidos urgentes de transferência em nome da gerência ou falsas alterações de IBAN de fornecedores. Uma burla bem-sucedida pode ainda ter uma segunda camada de consequências jurídicas: se envolver o acesso indevido a dados pessoais de clientes ou colaboradores, aplica-se o dever de avaliação e eventual notificação de violação de dados à CNPD ao abrigo do RGPD. Para as entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 125/2025 que transpõe a diretiva NIS2, a formação e a sensibilização dos colaboradores deixaram de ser boa prática opcional para passarem a integrar as obrigações de gestão de risco, ao lado do registo junto do CNCS e dos deveres de notificação de incidentes.

Campanhas como a da APB não substituem controlos técnicos — autenticação forte, limites de transação, monitorização de fraude —, mas atacam o elo que os atacantes mais exploram. Num cenário em que a maioria das transferências fraudulentas é ordenada pela própria vítima, a decisão de parar cinco segundos antes de confirmar um pagamento vale, em muitos casos, mais do que qualquer camada de software.

Perguntas frequentes

O que é a campanha “Não passes cartão à fraude”?

É uma campanha nacional de sensibilização da Associação Portuguesa de Bancos, lançada em setembro de 2025, com o objetivo de alertar os cidadãos para os principais riscos de fraude nos pagamentos e promover comportamentos mais seguros na utilização da banca digital. A segunda fase arrancou a 8 de setembro e é dirigida aos consumidores.

Que tipos de fraude são abordados nesta nova fase?

Cinco cenários: chamadas falsas em nome do banco (vishing), SMS com links fraudulentos (smishing), e-mails com promessas de dinheiro fácil (phishing), falsas referências de pagamento e códigos QR que encaminham para páginas ou pagamentos fraudulentos (quishing ou QRishing).

O que devo fazer se receber uma chamada ou mensagem suspeita do meu banco?

Interromper o contacto, não clicar em links e não partilhar dados pessoais, credenciais de acesso ou códigos de autenticação. Depois, confirmar a alegada operação diretamente com o banco, através dos canais oficiais, e comunicar a tentativa de fraude às autoridades competentes.

A fraude nos pagamentos está a aumentar em Portugal?

Segundo o Banco de Portugal, a fraude nos pagamentos eletrónicos manteve-se muito reduzida e diminuiu no primeiro semestre de 2025, com 66 operações fraudulentas por milhão nos cartões e dez por milhão nas transferências. As perdas totais foram de 5,3 milhões de euros nesse semestre, e a maior parte das transferências fraudulentas resultou de ordens emitidas pelo próprio infrator após manipulação da vítima.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Associação Portuguesa de Bancos, pelo Banco de Portugal e pelo Centro Nacional de Cibersegurança.