“Apagão” informático no SNS paralisa centros de saúde, hospitais e farmácias em todo o país

Uma falha de energia desencadeou esta sexta-feira, 12 de junho, um colapso generalizado dos sistemas informáticos do Serviço Nacional de Saúde (SNS), com impacto em todo o território nacional. Centros de saúde, hospitais públicos e privados e farmácias ficaram sem acesso às plataformas digitais essenciais à atividade clínica — incluindo o sistema de prescrição eletrónica de medicamentos, os processos clínicos dos utentes e a requisição de exames. A perturbação começou por volta das 8h50 e os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) garantiram que a reposição progressiva dos serviços estava em curso.

O que aconteceu

Em resposta à agência Lusa e a vários órgãos de comunicação social, os SPMS confirmaram que “houve uma falha de energia que causou perturbações no acesso a alguns serviços e sistemas de informação que suportam a atividade do Serviço Nacional de Saúde”. A entidade garantiu que “os serviços e sistemas estão a ser progressivamente repostos, esperando-se que regresse tudo à normalidade com a maior brevidade”.

A falha afetou simultaneamente múltiplas plataformas críticas:

  • A Prescrição Eletrónica Médica (PEM) — o sistema que permite a médicos emitirem receitas digitais;
  • O SClínico — a plataforma de acesso aos processos clínicos dos utentes, incluindo diagnósticos, medicação habitual e registo de alergias;
  • Os sistemas de requisição de exames em hospitais e centros de saúde;
  • O acesso à internet em várias unidades hospitalares, incluindo o Hospital Garcia de Orta, que confirmou constrangimentos com problemas de ligação.

Impacto nas farmácias e nos utentes

As farmácias em todo o país ficaram impossibilitadas de dispensar medicamentos através de receitas eletrónicas do SNS. O efeito imediato foi que muitos utentes foram obrigados a pagar os medicamentos na totalidade, sem aplicação das comparticipações do SNS. A Associação Nacional de Farmácias (ANF) recebeu múltiplos reportes da situação durante a manhã.

Nos centros de saúde e hospitais, as consultas foram condicionadas e, em alguns casos, adiadas. Os médicos que conseguiram realizar consultas fizeram-no recorrendo a receituário em papel — o procedimento de contingência previsto para situações de indisponibilidade dos sistemas digitais.

Sindicato alerta para riscos clínicos

O Sindicato Independente dos Médicos (SIM) emitiu um comunicado durante a manhã a aconselhar os médicos a não realizarem consultas na ausência de acesso aos instrumentos indispensáveis à tomada de decisão clínica — nomeadamente os registos de diagnósticos anteriores, medicação habitual e alergias dos doentes. O SIM referiu que “nos cuidados de saúde primários a falha reportada é total, impedindo o normal acesso aos sistemas informáticos essenciais à atividade clínica”, acrescentando que “nos hospitais do SNS, estão igualmente indisponíveis os sistemas que dependem de ligação à internet, com impacto direto nos atos necessários à prestação de cuidados”.

O secretário regional do Norte do SIM, Hugo Cadavez, que alertou a Lusa para a situação logo de manhã, descreveu a interrupção como uma paralisia dos cuidados de saúde primários em todo o país.

Porque é que isto importa

Este incidente — provocado por uma falha de energia, e não por um ciberataque — sublinha uma vulnerabilidade estrutural recorrente: a dependência total dos sistemas de saúde de uma infraestrutura digital centralizada, sem redundância suficiente para garantir a continuidade de serviço em caso de perturbação.

Episódios semelhantes ocorreram em janeiro de 2025 (falha na PEM confirmada pelos SPMS) e em setembro de 2025 (falha causada por uma atualização de software da NOS na Rede Informática da Saúde, que paralisou prescrições e processos clínicos durante várias horas). Em maio de 2026, um ataque informático expôs dados de cerca de mil utentes, investigado pela Polícia Judiciária.

O Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a Diretiva NIS2 para Portugal, impõe às entidades essenciais — onde se incluem os prestadores de cuidados de saúde — a obrigação de adotar medidas de gestão do risco cibernético e de garantir a continuidade de serviço. A recorrência de falhas com impacto nacional nos sistemas do SNS levanta questões sobre a robustez da arquitetura de infraestrutura, a capacidade de recuperação e a existência de planos de contingência adequados.

A SPMS não divulgou informação sobre o prazo estimado de normalização total nem sobre as causas específicas da falha de energia na origem do incidente.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em declarações dos SPMS à agência Lusa, em comunicados do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), e em notícias publicadas pelo Público, Observador, Jornal de Notícias, Correio da Manhã, Euronews Portugal, RTP e SIC Notícias a 12 de junho de 2026.