Uma vulnerabilidade crítica no Rejetto HFS, um popular servidor de ficheiros web de código aberto, passou de investigação publicada a exploração real em menos de 24 horas. A falha, identificada como CVE-2026-61500, permite a um atacante não autenticado forjar um cookie de sessão de administrador e, a partir daí, executar código no servidor. O detalhe que está a dar que falar no setor: segundo o investigador que a divulgou, foi descoberta com recurso ao Mythos, o modelo de deteção de vulnerabilidades da Anthropic cujo acesso está limitado a parceiros selecionados.
Resposta rápida: O CVE-2026-61500 afeta as versões 3.0.0 a 3.2.0 do Rejetto HFS e permite falsificar sessões de administrador sem credenciais, levando a execução remota de código. A correção existe desde julho de 2026 na versão 3.2.1, mas a exploração em ambiente real só começou a 1 de outubro, um dia depois da publicação dos detalhes técnicos. Se gere um servidor HFS exposto à Internet, atualize imediatamente para a versão 3.2.1 ou superior e verifique a configuração server_code em busca de alterações não autorizadas.
Um servidor de ficheiros com histórico de ataques
O HFS (HTTP File Server) é uma aplicação gratuita e de código aberto que permite partilhar pastas e ficheiros de um computador através do navegador, com um painel de administração web. É usado por particulares, equipas de TI e pequenas empresas como alternativa simples a soluções de partilha mais pesadas.
Não é a primeira vez que o produto está na mira. O HFS já tinha figurado em 2024 no catálogo de vulnerabilidades exploradas conhecidas (KEV) da agência norte-americana CISA, o que significa que existe um histórico comprovado de atacantes a procurar estas instâncias na Internet. A diferença, desta vez, é a velocidade.
De um gerador aleatório fraco à execução de código
A raiz do problema é conhecida de qualquer programador que já tenha lido um guia de criptografia: usar um gerador de números pseudo-aleatórios não criptográfico para produzir segredos. As versões 3.0.0 a 3.2.0 do Rejetto HFS derivam a chave de assinatura dos cookies de sessão do gerador Math.random() e, pior, expõem saídas desse mesmo gerador a clientes não autenticados durante o processo de autenticação. Um atacante remoto consegue recolher um pequeno número de respostas de login, reconstruir o estado do gerador, recuperar a chave de assinatura e forjar um cookie de sessão de administrador válido, obtendo acesso administrativo total e execução remota de código através da funcionalidade de configuração server_code.
Tecnicamente, a cadeia assenta no motor V8 do Node.js. A chave de assinatura dos cookies Koa era gerada com Math.random() e as saídas do mesmo PRNG do V8 eram expostas no handshake de login SRP não autenticado. O algoritmo usado pelo V8, o xorshift128+, é reversível a partir de um conjunto suficiente de saídas observadas — e foi precisamente essa ligação entre dois factos aparentemente independentes que, segundo o investigador, o modelo de IA identificou.
A prova de conceito pública confirma cada passo da cadeia: recuperação do estado do xorshift128+ a partir de respostas de login não autenticadas, recuperação da chave de assinatura ativa, falsificação de uma sessão aceite como administrador e execução de código via server_code no HFS 3.2.0 oficial. A correção substitui a chave de assinatura por 32 bytes obtidos de randomBytes() do Node.js e troca o identificador numérico exposto no login por randomUUID().
| Campo | Valor |
|---|---|
| Identificador | CVE-2026-61500 |
| Classe de fraqueza | CWE-338 (uso de PRNG criptograficamente fraco) |
| Versões afetadas | Rejetto HFS 3.0.0 a 3.2.0 |
| Versão corrigida | HFS 3.2.1 |
| Impacto | Bypass de autenticação, acesso administrativo e execução remota de código |
| Severidade | Crítica (9,3 em CVSS 4.0 e 9,8 em CVSS 3.1, consoante a fonte consultada) |
| Publicação do CVE | 13 de julho de 2026 |
Sobre a pontuação há divergência entre bases de dados: a OpenCVE regista 9,3 (crítica) com EPSS inferior a 1%, enquanto outros agregadores classificam a falha como crítica com 9,8. Em qualquer dos casos, a leitura operacional é a mesma: sem credenciais, sem interação do utilizador e com impacto total.
Cronologia: três meses de patch, um dia de janela
| Data (2026) | Acontecimento |
|---|---|
| 13 de julho | Publicação do CVE e lançamento da versão 3.2.1 do HFS |
| 26 de setembro | Surge uma prova de conceito de terceiros no GitHub |
| 30 de setembro | A Horizon3.ai publica a análise detalhada e um vídeo com a execução remota de código |
| 1 de outubro | A VulnCheck deteta as primeiras tentativas de exploração reais |
| 2 de outubro | Novos acessos detetados, vindos de endereços IP nos EUA aparentemente associados a proxies |
O changelog oficial da versão 3.2.1 refere múltiplas vulnerabilidades de segurança em todas as versões anteriores, potencialmente permitindo a um atacante obter acesso administrativo, e agradece a Zach Hanley, da Horizon3.ai, em colaboração com a Claude e a Anthropic Research. O mesmo lançamento corrigiu ainda um conjunto de outras falhas, entre as quais CVE-2026-61501 (XSS em logins falhados), CVE-2026-61502 (CSRF em APIs GET), CVE-2026-61504 (escape de nomes de ficheiro) e CVE-2026-61505 (path traversal no parâmetro ?lang), de acordo com o histórico de commits do projeto.
O padrão é o clássico: a correção existia há quase três meses, mas só quando a mecânica da exploração se tornou pública é que o volume de ataques apareceu. Um dia depois da divulgação, o investigador Patrick Garrity, da VulnCheck, anunciou a deteção de exploração do CVE-2026-61500, referindo que os sensores da empresa identificaram um ator na China a visar servidores vulneráveis reais nos EUA.
Indicadores de comprometimento conhecidos
| Indicador | Observação |
|---|---|
173.239.211[.]248 | IP nos EUA; aparenta ser proxy |
173.239.211[.]249 | IP nos EUA, mesma sub-rede; aparenta ser proxy |
| IP não divulgado alojado na China | Origem da primeira atividade detetada |
A atividade inicial partiu de um endereço IP na China e visou servidores vulneráveis nos EUA e no Japão; no dia seguinte, a VulnCheck registou quatro acessos com origem em dois endereços norte-americanos da mesma sub-rede, aparentemente a operar como proxy. Esta lista é necessariamente parcial e deve ser usada como complemento, nunca como substituto, de uma verificação de versão.
O que fazer, por ordem de prioridade
- Atualizar para o HFS 3.2.1 ou superior. É a única mitigação completa.
- Tratar qualquer instância 3.0.0–3.2.0 exposta à Internet como potencialmente comprometida e iniciar verificação.
- Inspecionar a configuração
server_codee os endpoints personalizados do painel de administração, procurando código JavaScript que não tenha sido adicionado pela equipa. - Rever contas de administrador, plugins instalados e registos de acesso ao painel; invalidar sessões existentes após a atualização.
- Se a atualização imediata não for possível, definir um valor forte e explícito em
COOKIE_SIGN_KEYSmitiga a parte relativa à chave de assinatura, e restringir ou desativar a funcionalidadeserver_codee limitar o acesso à interface de administração a endereços de confiança reduz a superfície de ataque. - Procurar instâncias esquecidas: servidores de ficheiros temporários têm o hábito de ficar permanentes.
O contexto: Mythos, Project Glasswing e a aceleração da descoberta
O Claude Mythos Preview é um modelo apresentado pela Anthropic a 7 de abril de 2026, cujo acesso foi limitado a um conjunto restrito de parceiros através de uma iniciativa designada Project Glasswing. A Horizon3 aderiu ao programa em julho de 2026. Segundo o registo mantido por Garrity, Mythos e o Project Glasswing somavam 286 CVEs à data da reportagem, dos quais apenas um tinha sido alvo de exploração real até então — o que faz deste o segundo caso conhecido de vulnerabilidade associada à Anthropic a ser explorada em ambiente real.
O valor acrescentado reivindicado não é a deteção do Math.random() em si — qualquer analisador estático assinala isso — mas o encadeamento. Hanley atribui ao modelo o reconhecimento de que o gerador inseguro e o caminho de código separado que expunha as suas saídas constituíam uma cadeia explorável, algo que uma ferramenta que apenas sinaliza Math.random() reportaria como fraqueza sem demonstrar exploração. Vale a pena registar que as capacidades destes modelos continuam a ser objeto de debate entre investigadores, com avaliações independentes a divergir sobre o seu impacto real face a ferramentas anteriores.
Porque é que isto importa em Portugal
O caso ilustra três realidades que afetam diretamente organizações portuguesas. Primeira: a janela entre divulgação técnica e exploração massiva está a encurtar para horas, o que torna inviável um ciclo de correção mensal para serviços expostos à Internet. Segunda: ferramentas “simples” instaladas sem inventário — um servidor de ficheiros numa máquina de um departamento — são exatamente o tipo de ativo que ninguém atualiza. Terceira: a descoberta assistida por IA vai aumentar o caudal de CVEs, pelo que a prioritização baseada em exposição real passa a ser obrigatória.
Para as entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), a gestão de vulnerabilidades, o inventário de ativos e a comunicação de incidentes ao CNCS deixaram de ser boas práticas para passarem a obrigações legais com prazos. Um servidor HFS comprometido que dê acesso a repositórios de ficheiros internos é, com elevada probabilidade, também uma violação de dados pessoais, com as consequentes obrigações de notificação à CNPD e aos titulares previstas no RGPD. O CERT.PT mantém canais de apoio e alerta para incidentes deste tipo, e qualquer organização que identifique sinais de comprometimento deve documentar os indicadores antes de reinstalar o serviço.
Perguntas frequentes
Que versões do Rejetto HFS estão vulneráveis ao CVE-2026-61500?
Estão afetadas as versões 3.0.0 até 3.2.0, inclusive. A primeira versão corrigida é a 3.2.1, lançada a 13 de julho de 2026, que também resolveu outras falhas de segurança no mesmo ciclo.
Como sei se o meu servidor HFS foi comprometido?
Procure código ou endpoints que não reconheça na configuração server_code e no painel de administração, verifique contas e plugins adicionados recentemente e analise os registos de acesso em busca de sessões administrativas sem um login correspondente. A presença de tráfego a partir dos IPs divulgados pela VulnCheck é um sinal adicional, mas a sua ausência não prova que não houve intrusão.
Basta bloquear o acesso externo em vez de atualizar?
Restringir o acesso à interface de administração a endereços de confiança reduz significativamente o risco, mas não elimina a falha. A atualização para a 3.2.1 é a única correção definitiva, porque substitui a geração da chave de assinatura por primitivas criptograficamente seguras.
Esta falha foi mesmo descoberta por inteligência artificial?
O investigador da Horizon3.ai afirma ter usado o modelo Mythos da Anthropic na análise, e as notas de lançamento do HFS 3.2.1 agradecem a colaboração com a Claude e a Anthropic Research. A validação, o encadeamento final e a divulgação coordenada foram conduzidos por investigadores humanos.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pelo projeto Rejetto HFS, pela VulnCheck, pela Horizon3.ai, pelas bases de dados públicas de vulnerabilidades e por reportagem especializada.
