A 3 de novembro de 2026, uma operação internacional coordinada com o apoio da Europol e da Eurojust desmantelou a infraestrutura de um esquema de fraude ao investimento com potenciais vítimas em pelo menos 50 países. Mais de 100 servidores foram apreendidos e sete suspeitos foram detidos durante a ação coordenada desse dia. No centro da investigação está uma empresa que, segundo os investigadores, fornecia plataformas de negociação fraudulentas, prontas a usar, a grupos criminosos que operavam call centres nos Balcãs.
Resposta rápida: As autoridades de vários países, com apoio da Europol e da Eurojust, apreenderam mais de 100 servidores e detiveram sete suspeitos de um esquema de falsas plataformas de investimento em criptomoedas, divisas e ações. As perdas estimadas ultrapassam os 4 milhões de euros. Antes de investir online, confirme se a entidade está autorizada pela CMVM ou pelo Banco de Portugal e desconfie de promessas de lucros rápidos. Se não conseguir levantar o seu dinheiro, isso é um sinal claro de fraude.
O que aconteceu no dia da operação
Segundo o comunicado da Europol, a operação foi liderada pelo Ministério Público de Itzehoe, na Alemanha (Staatsanwaltschaft Itzehoe), e teve como alvo uma empresa suspeita de fornecer sites de negociação fraudulentos a grupos criminosos. Os investigadores estimam perdas acima dos 4 milhões de euros. Foram feitas buscas em 17 locais, onde as autoridades apreenderam servidores, outras provas e bens.
Algumas notícias falaram em buscas em “17 países”. As fontes oficiais referem 17 locais, e é esse o número que deve ser tido em conta. Os sete detidos não foram identificados publicamente. De acordo com a Eurojust, os sete suspeitos foram detidos para entrega ou extradição para a Alemanha. Entre os locais alvo de buscas estava, segundo a Help Net Security, um call centre no Kosovo.
A lista de países varia ligeiramente de fonte para fonte. A Europol destaca Albânia, Chipre, Finlândia, Alemanha, Kosovo e Macedónia do Norte. Já a Eurojust inclui também Israel entre as autoridades envolvidas, nomeadamente a unidade nacional de cibercrime Lahav 433 da Polícia de Israel. Do lado alemão participou ainda o Serviço Estadual de Investigação Criminal do Schleswig-Holstein.
Um fornecedor de “crime como serviço”
O que distingue este caso não é tanto o valor das perdas, mas o modelo de negócio. A análise das provas revelou uma empresa sediada em Chipre e Israel que alegadamente oferecia “crime como serviço”, fornecendo a vários grupos criminosos os sites fraudulentos usados nas burlas online. Por outras palavras, quem burlava as vítimas não tinha de construir a sua própria tecnologia. Alugava-a.
Segundo a Europol, os clientes desta empresa estavam nos Balcãs. Os investigadores identificaram também alegados clientes que operavam call centres fraudulentos na Albânia, no Kosovo e na Macedónia do Norte. Esta divisão de tarefas entre quem fornece a infraestrutura, quem capta as vítimas e quem as contacta por telefone já é comum no cibercrime financeiro. Torna também mais difícil travar estas redes: derrubar um call centre não chega se a “fábrica” de plataformas continuar a funcionar.
Como funcionava a burla, passo a passo
O método descrito pelas autoridades segue um guião conhecido e muito eficaz:
- Captação por publicidade: os operadores recorriam a marketing de afiliados para mostrar anúncios que levavam as potenciais vítimas a plataformas de investimento fraudulentas.
- Venda de dados pessoais: os dados recolhidos através desses anúncios eram depois vendidos a grupos criminosos que geriam call centres e contactavam as pessoas com supostas oportunidades de investimento.
- Isco inicial: primeiro, pedia-se às vítimas uma transferência pequena, e depois apareciam lucros fictícios nas contas online, o que dava à plataforma um ar fiável.
- Pressão psicológica: os supostos corretores pressionavam então as vítimas a investir quantias cada vez maiores.
- Bloqueio e desaparecimento: quem tentava levantar o dinheiro esbarrava em sucessivas manobras de adiamento, até que os burlões cortavam o contacto de vez.
As promessas variavam conforme o momento. O esquema anunciava retornos rápidos e elevados com negociação de criptomoedas, divisas ou ações, segundo a Europol.
Cronologia: quatro anos desde a primeira queixa
Tudo começou com uma queixa. A investigação arrancou em 2022, quando um casal alemão denunciou ter investido as suas poupanças numa plataforma online sem conseguir levantar os lucros.
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 2022 | Queixa de um casal alemão. Primeiro dia de ação internacional, com duas detenções e apreensão de provas |
| Maio de 2025 | A Eurojust anuncia a detenção de um suspeito em Chipre, num caso com mais de 100 vítimas e perdas superiores a 3 milhões de euros, que a BIRN liga a esta investigação |
| 2025 | Segundo dia de ação, com mais detenções e apreensão de provas e dinheiro. As provas levam à empresa sediada em Chipre e Israel |
| 3 de novembro de 2026 | Buscas em 17 locais, mais de 100 servidores apreendidos e sete detenções com vista a entrega ou extradição para a Alemanha |
A ligação ao caso de 2025 é feita pela Balkan Insight (BIRN), que recorda que em maio de 2025 a Eurojust anunciou a detenção de um suspeito em Chipre, num caso de um grupo que terá burlado mais de 100 vítimas em mais de 3 milhões de euros através de uma falsa plataforma de investimento. Segundo a Eurojust, a análise das provas permitiu identificar mais sete suspeitos, entre eles os gestores dos call centres usados para convencer as vítimas a investir mais.
O papel da Europol e da Eurojust
A cooperação judicial foi decisiva num caso espalhado por vários países. A Eurojust apoiou a execução de Decisões Europeias de Investigação, Mandados de Detenção Europeus e ordens de congelamento de bens. Criou também duas equipas de investigação conjuntas. A Europol, por sua vez, fez a análise de informações e cruzou dados com as suas bases. No dia da operação, enviou peritos para a Albânia e o Kosovo para apoiar a análise forense digital e fazer verificações imediatas nas suas bases de dados.
Até à data desta notícia, nem a Europol nem a Eurojust divulgaram os domínios das plataformas fraudulentas ou outros indicadores técnicos. Por isso, não há uma lista pública de sites a bloquear. A melhor defesa continua a ser reconhecer o padrão da burla.
Sinais de alerta e o que fazer
Os sinais deste caso repetem-se em quase todas as fraudes ao investimento:
- Anúncios nas redes sociais ou em sites de notícias que prometem lucros elevados, rápidos ou “garantidos”.
- Uma chamada inesperada de um “gestor de conta” pouco depois de ter preenchido um formulário online.
- Um painel que mostra ganhos fortes logo após um primeiro depósito pequeno.
- Pressão para reforçar o investimento e desculpas sucessivas quando pede para levantar o dinheiro.
Em Portugal, antes de investir, confirme nas listas da CMVM se a entidade está autorizada a prestar serviços de intermediação financeira. A CMVM publica regularmente alertas sobre entidades não autorizadas. Quem tenha tido relações comerciais com entidades identificadas nesses alertas pode contactar o regulador pelo número 800 205 339 ou pelo e-mail [email protected]. Se já transferiu dinheiro, fale de imediato com o seu banco e apresente queixa à Polícia Judiciária ou ao Ministério Público. Guarde capturas de ecrã, comprovativos de transferência e o histórico das conversas. Desconfie também de quem prometa recuperar o dinheiro perdido mediante pagamento: é muitas vezes uma segunda burla.
Porque é que isto importa em Portugal
As fontes oficiais não indicam se havia vítimas portuguesas entre os 50 países afetados. Ainda assim, o modelo descrito, com anúncios, recolha de dados e call centres multilingues, é o mesmo que a CMVM tem descrito nos seus alertas sobre fraudes ao investimento divulgadas pelas redes sociais e por aplicações de mensagens. Para os cidadãos, a lição é simples: a plataforma pode parecer profissional porque foi feita por profissionais e alugada a quem burla.
Há também uma questão de proteção de dados. Grande parte do esquema assentava na recolha de dados pessoais através de anúncios e na sua venda a terceiros, o que viola os princípios do RGPD. Para as PME que fazem marketing de afiliados ou compram listas de contactos, o caso mostra o risco de trabalhar com parceiros que não sabem explicar de onde vêm os dados.
Para as entidades do setor financeiro e de serviços digitais abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), a usurpação de marcas e a criação de sites falsos que imitam entidades legítimas são riscos a incluir na gestão de ameaças. O CNCS e o CERT.PT continuam a ser os pontos de contacto para notificar incidentes e partilhar informação sobre campanhas maliciosas. Este caso confirma uma tendência: a resposta mais eficaz a este tipo de fraude passa por atacar a infraestrutura partilhada, e não só os burlões que estão ao telefone.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas foram detidas e o que foi apreendido?
Foram detidos sete suspeitos, que poderão ser entregues ou extraditados para a Alemanha. As autoridades fizeram buscas em 17 locais e apreenderam mais de 100 servidores, além de outras provas e bens.
O que significa “crime como serviço” neste caso?
Significa que uma empresa sediada em Chipre e Israel terá fornecido, mediante pagamento, plataformas de investimento fraudulentas prontas a usar a vários grupos criminosos. Estes grupos operavam call centres na Albânia, no Kosovo e na Macedónia do Norte.
Como posso saber se uma plataforma de investimento é legítima?
Confirme nas listas da CMVM ou do Banco de Portugal se a entidade está autorizada a operar em Portugal. Desconfie de lucros garantidos, de contactos que não pediu e de dificuldades em levantar o dinheiro.
O que devo fazer se já investi numa plataforma suspeita?
Pare de fazer transferências e contacte o seu banco de imediato. Apresente queixa à Polícia Judiciária ou ao Ministério Público e guarde todas as provas. Ignore ofertas pagas para recuperar o dinheiro, que muitas vezes são uma nova burla.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Europol, pela Eurojust e pela CMVM, complementados por Help Net Security e Balkan Insight.

