Uma IA encadeou falhas no Chrome e no Android: o que deve atualizar já?

Uma IA encadeou falhas no Chrome e no Android: o que deve atualizar já?

A Anthropic divulgou a 27 de outubro de 2026 um relatório da sua Frontier Red Team. Segundo a empresa, um modelo interno de investigação que ainda não foi lançado encontrou vulnerabilidades no Google Chrome, no Apple Safari, no Android, no Windows e no núcleo Linux. O modelo terá depois combinado essas falhas em cinco cadeias de exploração que funcionaram em laboratório. A empresa diz que comunicou todas as falhas aos fabricantes antes de publicar o relatório e que as correções já estão disponíveis. Os registos públicos confirmam parte das alegações, mas mostram discrepâncias técnicas em pelo menos dois casos.

Resposta rápida: A Anthropic diz que um modelo de IA ainda não lançado criou cinco cadeias de exploração que funcionaram contra o Chrome, o Safari, o Android, o Windows e o Linux. Os testes foram feitos em laboratório e não houve ataques reais. Todas as falhas já foram corrigidas. Atualize o Chrome para a versão 156 mais recente, instale as atualizações da Apple, do Android e do Windows e aplique os patches do núcleo nos servidores Linux.

O que a Anthropic anunciou

O relatório chama-se “Discovering and exploiting vulnerabilities in critical, real-world software with Claude”. Foi publicado pela equipa de testes de capacidades avançadas da empresa e está listado na página da Frontier Red Team. A Anthropic descreve o modelo apenas como um modelo interno de investigação e não lhe dá nome. Também não diz quando nem se vai ser disponibilizado.

Segundo a empresa, o modelo só precisou de instruções iniciais e de pouca intervenção humana para construir as cadeias. O relatório não explica o que os investigadores fizeram em cada etapa. Também não indica o custo computacional nem quantas tentativas falharam. Por isso, não é possível confirmar de forma independente até que ponto o modelo trabalhou sozinho.

Para encontrar as falhas, a equipa pôs muitos agentes de análise a correr em paralelo. Cada vulnerabilidade confirmada passou por uma análise automática de variantes antes da verificação final. A Anthropic diz que encontrou outros erros em sistemas operativos e aplicações web, mas não os detalha no relatório.

As cinco cadeias de exploração

Uma cadeia de exploração junta várias vulnerabilidades. Uma falha que, sozinha, teria pouco impacto pode tornar-se grave quando combinada com outras. A tabela resume o que a Anthropic diz ter demonstrado em cada plataforma.

PlataformaResultado da cadeiaCondição necessáriaEstado
Chrome (macOS)Execução de código fora da sandbox do navegadorVisitar uma página maliciosa (um clique)Corrigido no Chrome 156
SafariContorno da política de mesma origem e leitura de histórico, cookies e sessõesVisitar uma página maliciosaCorrigido pela Apple, segundo a Anthropic
Android (Pixel 9)Extração de fotografias e dados pessoais de um telemóvel bloqueadoAcesso físico por USBCorrigido pela Google, segundo a Anthropic
WindowsBloqueio remoto do sistema (negação de serviço)Envio de pacotes de redeCorreção publicada em abril de 2026
LinuxAcesso root remoto sem interação do utilizadorAcesso de rede ao servidorCorrigido nos núcleos estáveis mantidos

Chrome: quatro falhas, um clique

Este é o caso descrito com mais detalhe. O modelo começou por corromper memória no V8, o motor de JavaScript do Chrome. Depois usou uma segunda falha para sair da sandbox de memória do V8 e contornar o ASLR. A seguir aproveitou uma condição de corrida no CacheStorage para conhecer a disposição de memória do processo privilegiado do navegador. Por fim, explorou um use-after-free no FedCM, o mecanismo de autenticação federada, para correr código fora da sandbox. Como prova de conceito, a cadeia abriu a Calculadora do macOS assim que a página maliciosa carregou.

A Anthropic diz que comunicou à Google 62 falhas que receberam identificadores CVE, todas de gravidade crítica ou elevada. Entre elas estão 13 fugas da sandbox e 21 falhas que permitiriam comprometer o processo de renderização. Todas estão corrigidas desde o Chrome 156. Este total é a contagem da Anthropic somando várias versões. As notas da versão 156, de 20 de outubro, atribuem várias correções a “Xinyang Ge (Anthropic), assisted by Claude”, mas não as 62.

DataVersão do ChromeCorreções de segurança
20 de outubro de 2026156.0.8078.47 (Linux) e 156.0.8078.47/.48 (Windows e Mac)353, das quais 6 críticas
27 de outubro de 2026156.0.8078.73 (Linux) e 156.0.8078.73/.74 (Windows e Mac)52, das quais 4 críticas

Safari e Android: dados expostos sem executar código

No Safari, a cadeia começou com um use-after-free no JavaScriptCore. Depois contornou a proteção Gigacage do WebKit e usou uma falha no mecanismo de comunicação entre processos da sandbox para ler dados do disco. A Anthropic sublinha que este ataque não precisou de executar código. Mesmo assim, uma página hostil poderia ler o conteúdo de sessões abertas noutros sites, como o email ou o banco online.

No Android, o alvo foi um Google Pixel 9 bloqueado. O modelo juntou três vulnerabilidades nos mecanismos de transferência de dispositivo e de gestão de USB. Uma ignorava o bloqueio de dados por USB, outra a autorização de emparelhamento e outra a verificação do código de seis dígitos. Assim, conseguiu tirar fotografias e informação pessoal sem desbloquear o telemóvel. É preciso ter o aparelho na mão, mas o cenário é relevante em casos de roubo ou perda.

Windows e Linux: discrepâncias nos registos públicos

No Windows, a Anthropic descreve uma leitura fora dos limites no código QUIC do núcleo. Com poucos pacotes, seria possível bloquear e reiniciar um servidor que responda por HTTP/3, e repetir o ataque para o manter em baixo. Esta cadeia tem sido associada à CVE-2026-33096. No entanto, o registo da NVD descreve essa falha como uma leitura fora dos limites no HTTP.sys. Segundo a NVD, permite negação de serviço através da rede, tem uma pontuação CVSS 3.1 de 7,5 (elevada) e foi publicada a 14 de abril de 2026. O registo não menciona o componente QUIC descrito pela Anthropic.

No Linux, a Anthropic relata um ataque sem qualquer interação a partir de uma condição de corrida no subsistema multipath TCP. Segundo os relatos, o modelo levou cerca de 48 minutos a obter um ponteiro do núcleo e mais cinco a executar comandos como root. Uma tentativa falhada não bloqueia o sistema, por isso o atacante pode repetir. A empresa associa a falha à CVE-2026-98432, já corrigida nos núcleos estáveis mantidos. Analistas notaram, porém, que a descrição pública desta CVE fala de um use-after-free em TCP sobre IPv4, sem referir o multipath TCP. A ligação entre as duas assenta, para já, apenas na descrição da Anthropic.

Divulgação coordenada e leituras críticas

A Anthropic diz que todas as falhas passaram por divulgação coordenada. Os fabricantes têm 90 dias para corrigir e a empresa espera mais 45 dias antes de divulgar detalhes que vão além do aviso público. É por isso que algumas correções são de meses antes: a do Windows saiu em abril e a do Linux no início de outubro.

Nem todos os especialistas tiram as mesmas conclusões. Citado pela Dark Reading, um especialista lembra que, em testes comparativos, a taxa de sucesso dos modelos cai muito quando estão ativas proteções como ASLR, stack canaries e sandboxing. Refere também que a VulnCheck só confirmou exploração real em 1,3% das vulnerabilidades descobertas por IA. A própria Anthropic apresenta o trabalho como uma ajuda para quem defende sistemas.

O que fazer agora

  • Confirme que o Chrome está em 156.0.8078.73 ou superior. Pode ver a versão em chrome://settings/help. Depois de atualizar, reinicie o navegador.
  • Instale as atualizações mais recentes do Safari, do macOS e do iOS.
  • Nos telemóveis Android, sobretudo nos Pixel, aplique o patch de segurança mais recente.
  • Nos servidores Windows 11 e Windows Server 2022/2025 com serviços que dependem do HTTP.sys (IIS, WinRM), confirme que as atualizações de abril de 2026 ou posteriores estão instaladas.
  • Nos servidores Linux, atualize o núcleo para uma versão estável mantida e com a correção da CVE-2026-98432.

Porque é que isto importa em Portugal

Este caso mostra que encontrar falhas e transformá-las em ataques funcionais pode tornar-se muito mais rápido. Antes, esse trabalho exigia semanas a equipas especializadas. Se a tendência se confirmar, o tempo entre a publicação de uma correção e a sua exploração por atacantes pode encurtar. Atrasar atualizações passa a ser um risco maior.

Para as entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), gerir vulnerabilidades e aplicar correções a tempo faz parte das medidas de gestão de risco obrigatórias. Incidentes significativos têm de ser notificados ao CNCS. O roubo de dados pessoais a partir de um telemóvel ou de sessões do navegador pode ainda ser uma violação de dados ao abrigo do RGPD, com obrigação de notificar a CNPD em 72 horas. Para cidadãos e PME, a mensagem é simples: ativar as atualizações automáticas continua a ser a defesa mais eficaz contra ataques deste tipo.

Perguntas frequentes

As vulnerabilidades encontradas pela IA foram usadas em ataques reais?

Não há indícios disso. Segundo a Anthropic, as cadeias foram criadas em laboratório e as falhas foram comunicadas aos fabricantes, que já as corrigiram.

Que versão do Chrome devo ter instalada?

A versão 156.0.8078.73 ou superior, publicada a 27 de outubro de 2026. Esta versão inclui as correções da versão 156 de 20 de outubro e mais 52 correções de segurança.

O meu telemóvel Android pode ser atacado à distância por esta falha?

Não. A cadeia demonstrada num Pixel 9 exige acesso físico ao telemóvel e ligação por USB. A Google já corrigiu o problema, por isso convém instalar o patch de segurança mais recente.

Os registos oficiais confirmam tudo o que a Anthropic afirma?

Só em parte. As notas do Chrome atribuem correções a um investigador da Anthropic apoiado pelo Claude. Mas as descrições públicas das CVE associadas aos casos do Windows e do Linux não coincidem totalmente com os componentes descritos pela empresa.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Anthropic (Frontier Red Team), pela National Vulnerability Database (NIST), pela Qualys e pela Dark Reading, bem como nas notas de versão do Google Chrome 156.