Cansado de depender da Big Tech? Este mapa mostra alternativas europeias

Um projeto independente chamado European Tech Map propõe-se resolver um problema recorrente para quem procura soberania digital na Europa: encontrar fornecedores europeus de software, serviços e infraestrutura. A plataforma reúne empresas do continente que respeitam a soberania de dados e o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), apresentando-as como alternativas às soluções tecnológicas de fora da Europa. A iniciativa surge num momento em que a autonomia digital se tornou prioridade política e regulatória na União Europeia.

Resposta rápida: O European Tech Map é um diretório interativo, gratuito e de origem colaborativa, criado pelo empreendedor Dante Emilio Grassi, que cataloga empresas tecnológicas europeias organizadas por categoria e por país. Não tem qualquer ligação às instituições da UE. Para PME e organizações portuguesas, é uma ferramenta útil para identificar fornecedores europeus alinhados com o RGPD e com dados alojados na Europa, mas as listagens devem ser sempre validadas antes de qualquer decisão de aquisição.

O que é o European Tech Map

O European Tech Map descreve-se como um diretório de empresas tecnológicas europeias com um objetivo claro: tornar visíveis o software, os serviços de cloud e a infraestrutura digital europeus. A premissa de partida é que o problema não é tanto a ausência de tecnologia europeia, mas sim a sua falta de visibilidade. Segundo o projeto, em muitas áreas já existem fornecedores europeus fortes — de infraestrutura de cloud a software de colaboração, cibersegurança ou plataformas de IA — e o verdadeiro problema é frequentemente a falta de visibilidade, não a falta de tecnologia.

A ferramenta funciona em europeantechmap.eu, com um diretório curado de empresas de propriedade europeia, com propriedade verificada, organizado por categoria e por país, apresentando-se como forma de encontrar alternativas europeias ao software norte-americano. O acesso é público e a listagem é feita de forma colaborativa, com submissões da própria comunidade de empresas.

Quem está por trás e que dimensão tem

O projeto foi criado pelo empreendedor Dante Emilio Grassi e não tem afiliação com instituições europeias. Trata-se de uma iniciativa independente e de origem colaborativa que mapeia empresas tecnológicas em toda a Europa através de uma plataforma interativa. Na apresentação inicial, lançada de forma discreta a 17 de fevereiro de 2026, o mapa listava já 651 empresas tecnológicas europeias em 44 países, apelando aos empreendedores para submeterem as suas listagens.

Desde então, a plataforma cresceu de forma significativa. Segundo dados mais recentes, o projeto conta com aproximadamente 2400 empresas mapeadas, estruturadas em mais de 80 categorias e cobrindo 40 mercados. É importante notar que os números variam consoante a fonte e o momento da consulta — o artigo da imprensa que motivou este tema refere valores diferentes —, pelo que qualquer referência deve ser lida como uma fotografia sujeita a atualização constante, dada a natureza colaborativa do diretório.

Que critérios seguem as empresas listadas

O foco da plataforma são organizações alinhadas com valores europeus de proteção de dados. Segundo participantes no projeto, o mapa lista fornecedores europeus em dezenas de categorias — de computação em nuvem e comunicações a cibersegurança e soluções de identidade e acesso — com foco em organizações conformes com o RGPD, alojadas na UE e alinhadas com os valores europeus de soberania de dados e privacidade.

Quanto aos critérios de elegibilidade divulgados, cada empresa listada deverá cumprir um conjunto de princípios. De acordo com o próprio site, as empresas listadas no mapa cumprem os seguintes critérios: autonomia estratégica, segurança económica, alinhamento de valores, resiliência coletiva e inovação europeia. O fundador destacou ainda que categorias que muitos consideravam dominadas pelos EUA tinham na verdade mais de 10 alternativas europeias, com fundadores de países como a Estónia, a Bulgária e Portugal a construírem ferramentas de nível mundial.

Por que razão o tema ganhou força agora

Iniciativas como esta surgem numa altura em que a soberania digital deixou de ser um debate de nicho. Um dos motores desta preocupação é o quadro legal aplicável a muitas das plataformas dominantes. Muitas das plataformas dominantes operam sob quadros jurídicos fora da Europa, e leis como o US CLOUD Act ilustram o alcance destes enquadramentos, podendo em certas circunstâncias as autoridades norte-americanas exigir acesso a dados mesmo que estejam armazenados fisicamente fora dos EUA, desde que controlados por uma empresa dos EUA.

A escala da dependência é reconhecida pelas próprias instituições europeias. Num relatório do Parlamento Europeu sobre soberania tecnológica, sublinha-se que a UE depende de países terceiros para mais de 80% dos produtos, serviços, infraestruturas e propriedade intelectual, e que algumas empresas tecnológicas concentram poder sobre os mercados digitais e controlam infraestruturas subjacentes da Internet, como sistemas operativos, computação e IA.

A nível institucional, a resposta tem-se materializado em medidas concretas. A Comissão Europeia apresentou um pacote relativo à soberania tecnológica europeia, um conjunto de medidas que visam reforçar a capacidade da Europa em semicondutores, inteligência artificial, computação em nuvem e código aberto. Este pacote foi apresentado a 3 de junho de 2026 e inclui duas propostas legislativas: o Regulamento Circuitos Integrados 2.0 e o ato legislativo sobre o desenvolvimento da nuvem e da IA, além da Estratégia de Fonte Aberta e de um roteiro estratégico. A presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, defendeu que a Europa não pode depender de terceiros para as tecnologias que asseguram o funcionamento dos hospitais, a estabilidade das redes energéticas e a segurança dos serviços, tratando-se de proteger os cidadãos, defender os interesses e fazer as próprias escolhas.

Cautelas: o diretório não substitui a avaliação de risco

Apesar do valor de discovery, convém manter expetativas realistas. Analistas notam que o entusiasmo pelas alternativas europeias não se deve transformar em triunfalismo, uma vez que muitos gigantes norte-americanos mantêm enormes vantagens em escala, ecossistema, investimento em IA, maturidade de produto e disponibilidade global — substituí-los por completo nem sempre é viável, necessário ou aconselhável, e a transição será mais gradual. Para uma organização, constar do mapa não é, por si só, garantia de conformidade legal ou de robustez de segurança.

Antes de adotar qualquer fornecedor identificado no diretório, recomendam-se verificações próprias:

  • Confirmar a propriedade e a jurisdição efetiva da empresa e das suas subcontratantes, incluindo eventuais dependências de infraestrutura de terceiros.
  • Validar onde ficam alojados os dados e quais os subprocessadores, exigindo garantias contratuais alinhadas com o RGPD.
  • Avaliar certificações de segurança, práticas de gestão de vulnerabilidades e resposta a incidentes do fornecedor.
  • Rever cláusulas de portabilidade e de reversibilidade, para evitar dependência excessiva de um único fornecedor (vendor lock-in).

Porque importa para cidadãos, PME e organizações em Portugal

Para o tecido empresarial português, sobretudo PME que muitas vezes não têm equipas dedicadas a estudar o mercado, uma ferramenta que agrega fornecedores europeus por categoria pode acelerar a identificação de alternativas com dados na Europa e conformidade com o RGPD. Esse alinhamento é relevante em vários planos regulatórios que se reforçam mutuamente.

No plano da proteção de dados, o RGPD, fiscalizado em Portugal pela Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD), impõe obrigações quanto à localização e às transferências internacionais de dados pessoais — precisamente o tipo de risco que o debate sobre soberania digital procura mitigar. No plano da cibersegurança, o novo Regime Jurídico da Cibersegurança, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 125/2025 que transpõe a diretiva NIS2, alarga o universo de entidades sujeitas a obrigações de segurança e de gestão de risco da cadeia de abastecimento, sob supervisão do Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS) e com o apoio do CERT.PT. A escolha criteriosa de fornecedores — europeus ou não — passa a ser parte integrante das obrigações de muitas organizações, o que torna a due diligence sobre parceiros tecnológicos ainda mais central. Um diretório como o European Tech Map pode servir de ponto de partida para essa análise, nunca como substituto dela.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pelo projeto European Tech Map, pela Comissão Europeia, pelo Parlamento Europeu e por análises setoriais.