Europol sinaliza 4340 endereços de uma rede que caça menores online

A Europol e parceiros de nove países europeus sinalizaram para remoção 4340 endereços web (URL) ligados à “The Com”, uma rede difusa de grupos online cujos membros, muitos deles menores, são simultaneamente vítimas e autores de crimes que vão da extorsão sexual e da produção de material de abuso sexual de crianças ao swatting, à pirataria informática e à violência física no mundo real. A ação, desenvolvida em junho e julho de 2026, teve como objetivo perturbar o ecossistema online desta rede e travar a propagação da sua propaganda.

Resposta rápida: A Europol sinalizou 4340 URL ligados à rede “The Com” durante “Referral Action Days” coordenados em junho e julho de 2026. Esta rede recruta e coage jovens em redes sociais, aplicações de mensagens e plataformas de jogos, funil que termina em fóruns privados com radicalização e extorsão sexual. Se detetar conteúdos ilegais ou aliciamento de menores, denuncie de forma anónima à Linha Internet Segura, coordenada em Portugal pelo CNCS, e mantenha o diálogo com crianças e jovens sobre o que fazem online.

O que aconteceu

Segundo o comunicado oficial da Europol, estima-se que 4340 URL relacionados com extremismo violento niilista foram referenciados durante a iniciativa organizada pela Unidade da UE de Sinalização de Conteúdos na Internet (EU IRU) e pelo Centro de Inteligência espanhol contra o Terrorismo e o Crime Organizado (CITCO). A operação decorreu ao longo de várias semanas: durante junho e julho de 2026, a Europol apoiou uma ação dirigida a conteúdos de extremismo violento niilista online, com investigadores de nove países a participarem nestes “Referral Action Days”, com o objetivo comum de perturbar o ecossistema online da The Com, limitar a disseminação da propaganda e encontrar novas pistas de investigação.

Importa uma distinção que várias análises sublinham: sinalizar ou referenciar não é o mesmo que confirmar remoção. As autoridades reportaram os endereços aos operadores de serviços online, mas isso não significa necessariamente confirmar de forma independente que cada ligação já foi removida. Ainda assim, uma campanha de sinalização coordenada pode reduzir de forma acentuada o acesso a material nocivo, gerar informação para casos em curso e expor padrões de utilização das plataformas por redes extremistas e criminosas.

Esta ação insere-se numa estrutura mais alargada. Complementa os esforços do Project COMPASS, coordenado pelo Centro Europeu de Contraterrorismo (ECTC) da Europol, que reúne autoridades policiais de Estados-Membros da UE e parceiros terceiros para combater a The Com.

O que é a “The Com”

A designação vem de “Community” (comunidade). A Europol descreve-a como uma rede difusa de grupos online marginais que aderem a uma visão do mundo misantrópica e niilista, sem ideologia unificada nem estrutura centralizada, dentro da qual a violência é muitas vezes um fim em si mesma; algumas fações adotaram crenças de extrema-direita violenta e visões aceleracionistas, procurando apressar o colapso da sociedade através de ataques violentos e da corrupção da juventude.

O funcionamento é o de um funil. Os grupos afiliados recrutam e aliciam vítimas através de redes sociais, aplicações de mensagens e plataformas de jogos, coagindo-as à automutilação, à violência e à produção de material de abuso sexual de crianças, muitas vezes por extorsão; distribuem propaganda em plataformas acessíveis para atrair jovens, encaminhando potenciais membros e vítimas para fóruns e salas de chat privados onde ocorrem a radicalização e a vitimização, sendo as vítimas tipicamente coagidas a permanecer sob a influência dos perpetradores através de extorsão sexual.

A rede organiza-se em subgrupos com focos distintos. Segundo um relatório da Europol publicado no início do mês, o “Cyber Com” está centrado em atividades como ataques de negação de serviço distribuída (DDoS), doxing, swatting e ransomware, enquanto os grupos “Offline Com” se dedicam sobretudo a ataques na vida real, como fogo posto, esfaqueamentos ou homicídios. Os grupos de extorsão sexual aliciam e extorquem sobretudo raparigas menores para praticarem atos sexuais ou violentos, que são gravados e depois usados para as coagir a cometer atos cada vez mais degradantes.

A lógica interna é competitiva e cruel. Segundo a Europol, quanto mais extremo e nocivo for o conteúdo que um utilizador ou grupo consegue produzir ou extorquir, mais elevado é o seu estatuto na comunidade online. Estes atos são frequentemente transmitidos em direto em plataformas de redes sociais, onde espetadores incentivam, e depois guardados e disseminados. O conteúdo sinalizado incluiu os chamados “blood walls”, pinturas feitas com sangue que exibem o pseudónimo e a filiação do extorsor, e “cut-signs”, em que as vítimas são forçadas a gravar o nome do extorsor no próprio corpo.

Cronologia recente

DataMarco
Janeiro de 2025Lançamento do Project Compass, liderado pelo ECTC da Europol, reunindo autoridades de vários países contra a The Com.
Julho de 2025FBI e a National Crime Agency do Reino Unido alertam para o recrutamento de adolescentes para crimes violentos e serviços de swatting.
Janeiro/fevereiro de 2026Balanço do Project Compass: 30 detenções e 179 suspeitos ligados à rede, segundo a Europol.
Junho–julho de 2026“Referral Action Days”: 4340 URL sinalizados por investigadores de nove países.

Sobre o balanço do Project Compass, a Europol indicou que a ação coordenada, com a duração de um ano, levou a 30 detenções e a 179 suspeitos ligados à The Com, com os investigadores a identificarem 62 vítimas e a protegerem diretamente quatro delas; lançada em janeiro de 2025 e liderada pelo ECTC, reuniu autoridades de 28 países. A dimensão do problema é sinalizada pela própria procura: nos últimos dois anos, o ECTC observou a rede a evoluir para uma ameaça global, sobretudo no que respeita a menores como vítimas e como perpetradores, tendo recebido centenas de pedidos de Estados-Membros e de terceiros relativos a crimes cometidos no meio da The Com.

Como funciona a sinalização a nível europeu

A EU IRU, sediada na Haia, é o instrumento europeu para este tipo de operação. Deteta, analisa e sinaliza conteúdos terroristas e de extremismo violento disponíveis publicamente online, com o objetivo de restringir a sua acessibilidade e de facilitar a atribuição de crimes e a acusação dos autores. Os “Referral Action Days” fazem parte deste conjunto de capacidades e podem ser temáticos ou específicos de plataforma: os temáticos são campanhas de sinalização sobre conteúdos online relacionados com um tema específico identificado em várias plataformas.

Vale a pena distinguir dois regimes. Existe a sinalização voluntária, em que o conteúdo é avaliado pela plataforma à luz dos seus termos de serviço, e existe o mecanismo vinculativo do Regulamento (UE) 2021/784 relativo ao combate à difusão de conteúdos terroristas online. Este regulamento visa garantir que os conteúdos terroristas acessíveis ao público sejam removidos rapidamente, de forma cooperativa e coordenada entre os Estados-Membros, a Europol e os fornecedores de serviços de alojamento, aplicando-se a todos os que oferecem serviços na UE. A cooperação voluntária por sinalização coexiste com estes instrumentos vinculativos.

O que isto significa para Portugal

Portugal dispõe de um canal nacional para reportar exatamente este tipo de material. Segundo o CNCS, o Consórcio do Centro Internet Segura disponibiliza um canal gratuito e confidencial, a Linha Internet Segura, que apoia quanto à utilização segura da Internet e integra um canal de denúncia de conteúdos ilegais online, nomeadamente conteúdos de abuso sexual de menores, apologia ao racismo e apologia à violência. As denúncias chegam ao Centro Internet Segura a partir da Linha Internet Segura, operacionalizada pela APAV; o CIS é coordenado pelo CNCS e resulta de um consórcio que envolve a DGE, o IPDJ, a FCT, a APAV e a Microsoft Portugal.

O procedimento é concreto. Se o conteúdo estiver alojado em Portugal, é feito um “Notice and Take Down”, ou seja, uma denúncia ao serviço de alojamento para que seja removido no espaço de 72 horas, sendo a Polícia Judiciária sempre informada destes procedimentos. Se o conteúdo se encontrar noutro país, é dado seguimento à congénere internacional para que sejam notificadas as autoridades e os ISP desse país.

Os números portugueses acompanham a tendência europeia. Em 2025 foram realizadas pelo CNCS 1747 denúncias de conteúdos ilegais, mais 70% do que no ano anterior, sendo que 62% foram relacionadas com abuso sexual de menores e 33% com discurso de ódio. Quanto às vítimas, das 949 que contactaram a Linha Internet Segura em 2025, um aumento de 39% face a 2024, cerca de 13% (119 vítimas) eram crianças e jovens. Um padrão relevante para pais e educadores: a prevalência das situações começa nas redes sociais, mas a esmagadora maioria tende depois a passar para outras plataformas, nomeadamente encriptadas, como o WhatsApp.

Este caso não é um incidente clássico de cibersegurança com CVE e correção; é um problema de segurança online que cruza cibercrime, extremismo e proteção de menores. Ainda assim, liga-se ao ecossistema de resiliência digital que o Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a diretiva NIS2) e o CNCS procuram reforçar, e ao papel do RGPD e do tratamento sensível de dados de menores. Para organizações que operam plataformas com utilizadores jovens, o recado é claro: moderação de conteúdos, canais de denúncia eficazes e cooperação com as autoridades deixaram de ser opcionais.

O que pode fazer

  • Denuncie conteúdos ilegais online, de forma anónima, à Linha Internet Segura (canal coordenado em Portugal pelo CNCS).
  • Mantenha o diálogo aberto com crianças e jovens sobre o que fazem em redes sociais, aplicações de mensagens e jogos, prestando atenção a mudanças de comportamento.
  • Desconfie de “amizades” que rapidamente empurram o contacto para plataformas privadas ou encriptadas.
  • Em situações de extorsão sexual, guarde provas, não pague nem ceda a chantagens e contacte de imediato as autoridades.

Perguntas frequentes

O que é a rede “The Com” visada pela Europol?

É uma rede difusa de grupos online, muitos dos seus membros também menores, envolvida em crimes que vão da extorsão sexual à produção de material de abuso sexual de crianças, ao swatting e à violência física. A Europol e parceiros de nove países europeus sinalizaram 4340 URL ligados a esta rede para remoção.

Como posso denunciar conteúdo de exploração de menores ou aliciamento online?

Em Portugal, pode denunciar de forma anónima através da Linha Internet Segura, coordenada pelo Consórcio do Centro Internet Segura. Não é necessário identificar-se, e a denúncia é encaminhada às entidades competentes.

Qual é a diferença entre sinalização voluntária e o mecanismo do Regulamento (UE) 2021/784?

A sinalização voluntária é avaliada pela plataforma à luz dos seus próprios termos de serviço. O Regulamento (UE) 2021/784 é um mecanismo vinculativo que obriga à remoção rápida e coordenada de conteúdo terrorista acessível ao público, aplicável a todos os fornecedores de serviços de alojamento na UE.

Que sinais de alerta devem os pais e educadores conhecer?

Mudanças súbitas de comportamento, secretismo sobre atividade online, novos contactos não identificados em jogos ou redes sociais, e sinais de coação ou medo associados ao telemóvel são indicadores a levar a sério. Em caso de dúvida, o canal de denúncia da Linha Internet Segura permite reportar de forma anónima e obter orientação.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Europol, pela EU Internet Referral Unit e pelo Centro Nacional de Cibersegurança / Centro Internet Segura.