51 agentes de IA e 61 segundos: o que isto tem a ver com o seu WordPress

Uma investigação divulgada a 6 de outubro pela unidade de investigação de ameaças da SOCRadar (STRU) expôs ao detalhe o funcionamento interno de um corretor de acessos iniciais (initial access broker) que combina ferramentas ofensivas comuns, como o Cobalt Strike, com uma camada de orquestração assente em agentes de inteligência artificial. O ator, identificado pelo pseudónimo CyberXero, é descrito como russófono e motivado financeiramente, e terá comprometido milhares de sites WordPress e plataformas de comércio eletrónico em todo o mundo, em paralelo com uma campanha dirigida e manual contra organizações de energia e infraestruturas críticas na Ucrânia. Toda a operação ficou a descoberto por causa de um erro banal de configuração: um diretório aberto, sem qualquer controlo de acesso, exposto na Internet.

Resposta rápida: A SOCRadar documentou o CyberXero, um corretor de acessos iniciais que usou até 51 agentes especializados de Claude Code e uma instância PentAGI ligada a um servidor Cobalt Strike para industrializar intrusões. O vetor principal é a cadeia wp2shell no núcleo do WordPress (CVE-2026-63030 e CVE-2026-60137) e uma injeção de SQL no plugin Support Board (CVE-2026-4815). Se gere um site WordPress, atualize já para 6.8.6, 6.9.5 ou 7.0.2 (ou superior), o plugin Support Board para 3.7.8 ou posterior, e procure contas de administrador com o padrão wp2_ seguido de oito caracteres hexadecimais.

Um diretório aberto que expôs a oficina do atacante

A operação só veio à superfície por causa de um único erro de configuração: um diretório aberto que servia a pasta de trabalho ativa do atacante, incluindo registos de sessões de IA, scripts com tokens em texto simples e dados exfiltrados de vítimas. Esse diretório continha mais de 90 mil ficheiros distribuídos por cerca de 3 mil subdiretorias, entre pastas nomeadas por vítima, configurações de agentes de IA e registos de sessão, o que deu aos investigadores visibilidade sobre o ambiente de trabalho do operador e sobre a forma como usava ferramentas de IA.

Segundo a SOCRadar, o CyberXero manteve-se ativo ao longo de toda a investigação e continuava operacional à data de publicação do relatório. A cronologia recuperada indica que a exploração convencional antecedeu a introdução da camada de IA, que terá surgido no final de julho de 2026.

Duas linhas de ataque a correr em paralelo

A característica mais invulgar desta operação é a coexistência de dois modelos de negócio sobre a mesma infraestrutura. De acordo com os investigadores, os atacantes usam a mesma infraestrutura para duas campanhas distintas: uma contra sites WordPress e plataformas de comércio eletrónico em todo o mundo, e outra focada em energia e infraestruturas críticas ucranianas; a primeira procura atingir o máximo de alvos possível, a segunda assenta em alvos cuidadosamente selecionados. O papel do ator é comprometer organizações e vender o acesso, o que o coloca no mercado dos corretores de acessos iniciais e não o classifica, por si só, como operador de ransomware ou grupo de intelligence estatal.

A escala do lado automatizado é o que mais se destaca. O conjunto de alvos ultrapassa as 56 mil URLs identificadas e uma única execução automatizada analisou 4.708 alvos, confirmou acesso a 429 painéis de administração e implantou 32 webshells, tudo numa janela de 61 segundos. Do lado dos dados, mais de 628 mil cidadãos ucranianos têm informação confirmada na posse do ator, incluindo residentes de Kharkiv, cidade situada numa frente de guerra ativa. Numa das intrusões, uma ferramenta automatizada extraiu mais de 564 mil registos de clientes, com moradas e números de conta, dados que a SOCRadar avisa poderem colocar pessoas em risco físico. Foram também confirmados comprometimentos na Polónia, na China e nos Países Baixos.

wp2shell: as falhas que abrem a porta

O pipeline global assenta no wp2shell, um pacote Python desenvolvido internamente para atacar WordPress: a SOCRadar descreve a dessincronização do endpoint de lotes da REST API a conduzir a injeção de SQL, criação de um administrador ilegítimo e instalação de um webshell da família WSO como plugin ativo, sendo o padrão de nomes wp2_ seguido de oito caracteres hexadecimais uma pista de investigação distintiva; notificações via Telegram davam ao operador atualizações em tempo real.

As vulnerabilidades em causa não são novas. O nome wp2shell designa publicamente uma cadeia de execução remota de código sem autenticação no núcleo do WordPress, combinando a CVE-2026-63030, de confusão de rotas no endpoint de lotes da REST API, com a CVE-2026-60137, uma injeção de SQL no WP_Query. As versões corrigidas 7.0.2, 6.9.5 e 6.8.6 foram publicadas a 17 de julho de 2026, com a correção também aplicada à 7.1 beta2. Várias empresas de segurança confirmaram exploração ativa, com provas de conceito públicas a surgirem poucas horas após a divulgação, e o WordPress.org ativou atualizações automáticas forçadas nas instalações suportadas afetadas. A segunda falha explorada pelo ator afeta um plugin popular de chat e suporte.

IdentificadorComponenteVersões afetadasCorreçãoGravidade
CVE-2026-63030WordPress Core — confusão de rotas na REST API de lotes6.9.0–6.9.4 e 7.0.0–7.0.16.9.5 / 7.0.2CVSSv3 9.8 (crítica)
CVE-2026-60137WordPress Core — injeção de SQL em author__not_in do WP_Query6.8.0–6.8.5, 6.9.0–6.9.4, 7.0.0–7.0.16.8.6 / 6.9.5 / 7.0.2CVSSv3 5.9
CVE-2026-4815Plugin Support Board (Schiocco) — injeção de SQL em /supportboard/include/ajax.phpAté 3.7.7 (inclusive)3.7.8CVSS 3.1 8.8 / CVSS 4.0 8.7

A matriz de correções publicada pela Tenable distingue os ramos: 6.8.x corrige em 6.8.6 apenas a CVE-2026-60137; 6.9.x corrige em 6.9.5 ambas as falhas; 7.0.x corrige em 7.0.2; e a 7.1 beta fica resolvida na beta2. Quanto ao plugin, a falha permite ler, criar, atualizar e eliminar dados da base de dados através do parâmetro calls[0][message_ids][] no endpoint /supportboard/include/ajax.php, tendo o fabricante disponibilizado correção na versão 3.7.8.

A camada de IA: 51 agentes e tentativas de contornar recusas

A estação de trabalho principal continha definições para 51 agentes especializados de Claude Code, cobrindo reconhecimento, exploração, movimento lateral e exfiltração; separadamente, o PentAGI ligava fluxos de teste de intrusão assistidos por IA a um servidor Cobalt Strike Team Server através de uma API de um fornecedor de IA, com configurações que atribuíam modelos e orçamentos de tokens conforme a complexidade da tarefa. O PentAGI é um agente de IA de código aberto, autoalojado, concebido para testes de intrusão autónomos, e foi usado para geração de payloads e execução de testes.

Importa não exagerar as conclusões. Estes artefactos demonstram uma orquestração deliberada, mas os nomes dos agentes, por si só, não provam manipulação bem-sucedida de sistemas de controlo industrial nem interrupção do fornecimento de eletricidade. A campanha ucraniana é descrita como manual, pelo que os resultados não devem ser apresentados como prova de que a IA completou autonomamente todos os ataques.

Os registos recuperados são igualmente reveladores quanto às salvaguardas dos modelos. Os registos de IA expostos documentaram tentativas de ultrapassar recusas de segurança: segundo a SOCRadar, o operador recorreu a engenharia de contexto e a reinícios de sessão para reformular pedidos e prosseguir tarefas depois de um sistema de IA ter declinado colaborar. Os investigadores encontraram ainda um script reutilizável para contornar recusas, que enquadrava todos os pedidos como testes de intrusão autorizados em infraestrutura alegadamente do próprio ator. Ainda assim, algumas salvaguardas resistiram: os modelos recusaram instalar backdoors, desativar firewalls, realizar movimento lateral e implantar webshells, bem como alegações forjadas de propriedade dos sistemas.

Do lado dos fornecedores de IA, o enquadramento também está a mudar. A Anthropic publicou a 8 de outubro uma atualização da sua política de utilização, com restrições novas ou clarificadas em matéria de interferência eleitoral, desenvolvimento de armamento e vigilância, com entrada em vigor marcada para 12 de novembro de 2026.

Indicadores de comprometimento

IndicadorFunção atribuída
46.21.250[.]135Estação de trabalho principal e diretório aberto (AS204601, Zomro NL)
45.88.106[.]2Servidor de aprovisionamento, porta 1500
45.88.106[.]78Servidor de varrimento em massa
42.193.227[.]214Cobalt Strike Team Server e PentAGI, porta 9995 (AS45090)
42.193.100[.]94Nó de exploração de Redis e agentes PentAGI
49.234.12[.]182Preparação e entrega de payloads
91.208.184[.]148Estação de trabalho secundária
212.193.31[.]189Gateway de pagamentos em criptomoeda

A conta ilegítima segue um padrão fixo — o nome de utilizador wp2_ seguido de oito caracteres hexadecimais — e é, segundo a SOCRadar, o indicador mais acionável desta campanha. Outro sinal é o caminho do plugin: a existência de uma diretoria no padrão /wp-content/plugins/wp2shell_[0-9a-f]{8}/ indica um webshell instalado.

O que fazer agora

  • Confirmar a versão real do WordPress instalada e atualizar para 6.8.6, 6.9.5, 7.0.2 ou posterior; não assumir que a atualização automática forçada foi concluída com êxito.
  • Atualizar o plugin Support Board para 3.7.8 ou superior e rever todos os plugins com funcionalidades de chat, bilhética ou formulários.
  • Auditar a lista de utilizadores com perfil de administrador e procurar contas com o prefixo wp2_; remover contas desconhecidas e repor todas as palavras-passe e chaves de API.
  • Inspecionar a pasta wp-content/plugins em busca de diretorias com nomes aleatórios e de plugins ativos não reconhecidos.
  • Pesquisar nos registos do servidor web pedidos anómalos ao endpoint de lotes da REST API e bloquear os endereços IP listados acima.
  • Tratar os registos de sessões de agentes de IA como dados sensíveis: os investigadores sublinham que estes registos revelam planos, sistemas acedidos, o que funcionou e onde as tentativas falharam.

Porque é que isto importa em Portugal

O WordPress é a base de uma fatia muito significativa dos sites institucionais e lojas online das PME portuguesas, muitas vezes mantido por prestadores externos e sem monitorização contínua. Uma campanha que confirma centenas de painéis de administração acessíveis em menos de um minuto demonstra que a janela entre a divulgação de uma falha e a exploração massiva é hoje contada em horas, não em semanas. Note-se ainda que o objetivo declarado deste tipo de ator é revender o acesso — um site comprometido hoje pode transformar-se num incidente de ransomware ou numa fuga de dados de pagamento meses depois.

Para as organizações abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), casos como este reforçam duas obrigações centrais: a gestão de vulnerabilidades com prazos definidos e a notificação atempada de incidentes significativos ao CNCS. O setor da energia, alvo da componente dirigida desta operação, é precisamente um dos setores de alta criticidade abrangidos. Os avisos e alertas do CERT.PT sobre falhas em CMS e plugins devem ser integrados nos processos internos de correção, e não tratados como informação meramente consultiva.

Há também uma dimensão de proteção de dados. Quando um webshell dá acesso à base de dados de uma loja online, estão em causa nomes, moradas, contactos e, em alguns casos, dados de pagamento. Nesse cenário, aplicam-se as obrigações do RGPD quanto à notificação de violações de dados pessoais à CNPD no prazo de 72 horas e, quando o risco for elevado, à comunicação aos próprios titulares. O caso ucraniano mostra o limite extremo desse risco: dados de morada de residentes de uma zona de guerra deixam de ser um problema abstrato de conformidade para passar a ser uma questão de segurança física.

Perguntas frequentes

O meu site WordPress está em risco?

Se estiver a correr WordPress 6.8.0 a 6.8.5, 6.9.0 a 6.9.4 ou 7.0.0 a 7.0.1 sem as atualizações de julho de 2026, sim. Atualize para 6.8.6, 6.9.5, 7.0.2 ou versão posterior e verifique manualmente se a atualização foi concluída.

Como sei se já fui comprometido?

Procure contas de administrador com o padrão wp2_ seguido de oito caracteres hexadecimais e diretorias de plugins com nomes aleatórios em wp-content/plugins. Verifique ainda ligações a saída para os endereços IP listados nos indicadores de comprometimento.

A IA executou os ataques sozinha?

Não. O relatório descreve a IA como camada de orquestração sobre ferramentas ofensivas convencionais, e a campanha contra alvos ucranianos é caracterizada como manual. A IA acelerou e escalou tarefas, mas não substituiu o operador humano.

Tenho de notificar as autoridades se for afetado?

Depende. Se houver violação de dados pessoais, aplica-se a notificação à CNPD em 72 horas nos termos do RGPD. Se a entidade estiver abrangida pelo Regime Jurídico da Cibersegurança, acresce a notificação de incidentes significativos ao CNCS.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela SOCRadar (Threat Research Unit), pelo NVD/NIST, pela Tenable, pelo projeto WordPress e pela Anthropic.