23,2 milhões de ataques DDoS em seis meses: o seu site aguenta 100 Mbps?

A Cloudflare divulgou o relatório de ameaças DDoS relativo ao primeiro semestre de 2026 e os números confirmam que a negação de serviço distribuída deixou de ser um evento excecional para se tornar ruído de fundo permanente na Internet. Segundo o relatório, a empresa mitigou 23,2 milhões de ataques DDoS à camada de rede e 29,64 trilhões de pedidos HTTP maliciosos no primeiro semestre do ano — dados apresentados na conferência Black Hat e publicados no blogue da empresa a 12 de agosto de 2026. Mais relevante do que o volume total é a mudança de escala e de técnica: os ataques acima de 1 Tbps multiplicaram-se e o centro de gravidade dos vetores deslocou-se para o DNS e para a amplificação.

Resposta rápida: A Cloudflare afirma ter mitigado 23,2 milhões de ataques DDoS de camada de rede entre janeiro e junho de 2026, incluindo 935 acima de 1 Tbps. A maioria dos ataques continua a ser curta e de baixo caudal, mas mesmo esses derrubam servidores sem proteção. Para PME e organizações portuguesas, a recomendação prática é ter mitigação automática sempre ativa (não por pedido), proteger o DNS autoritativo e testar o plano de resposta a indisponibilidades, incluindo as obrigações de notificação previstas no novo regime nacional de cibersegurança.

Os números do primeiro semestre de 2026

Trata-se da 25.ª edição do relatório de ameaças DDoS da Cloudflare e da primeira edição semestral da série: em vez de publicar relatórios separados para o primeiro e o segundo trimestres de 2026, a empresa juntou a cobertura de janeiro a junho num único volume. A análise é produzida pela Cloudforce One, a organização de threat intelligence da Cloudflare, com base nos dados observados na rede da empresa.

Traduzido em ritmo operacional, o volume total é difícil de conciliar com resposta humana: os 23,2 milhões de ataques de camada de rede e os 29,64 trilhões de pedidos HTTP DDoS correspondem a cerca de 5.343 ataques por hora, ou aproximadamente 128 mil por dia. O número trimestral subiu de 10,04 milhões no primeiro trimestre para 13,17 milhões no segundo, um aumento de 31,2%.

Indicador (H1 2026)Valor reportado
Ataques de camada de rede mitigados23,2 milhões
Pedidos HTTP DDoS mitigados29,64 trilhões
Ataques acima de 1 Tbps935 (130 no Q1; 805 no Q2)
Variação trimestral dos ataques >1 Tbps+519%
Peso dos ataques baseados em DNS34,3% da atividade de camada de rede

O “clube do 1 Tbps” deixou de ser exclusivo

A Cloudflare descreve o crescimento do chamado “clube do 1 Tbps”: foram mitigados 935 ataques de camada de rede acima de 1 Tbps no primeiro semestre de 2026, com uma subida de 519% entre o primeiro e o segundo trimestre. Desses 935, 805 concentraram-se apenas no segundo trimestre, contra 130 no trimestre anterior.

O crescimento não se limita ao topo da tabela. Os ataques entre 500 Gbps e 1 Tbps aumentaram 143%, enquanto os situados entre 100 e 500 Gbps subiram 105%. Para contexto de definições, a Cloudflare classifica como hipervolumétricos os ataques que excedem 1 Tbps, mil milhões de pacotes por segundo ou um milhão de pedidos por segundo.

De floods de botnet para reflexão e amplificação

A mudança técnica mais significativa está nos vetores. O centro de gravidade deslocou-se dos floods diretos de botnet para técnicas de reflexão e amplificação: os ataques baseados em DNS representaram 34,3% de toda a atividade de camada de rede no semestre, com os DNS Floods a subir de 25,7% para 40,0% dos ataques entre trimestres, e os CLDAP Floods a crescerem 580% num trimestre, tornando-se o terceiro vetor mais usado no Q2.

A distinção é operacionalmente importante. Num flood de DNS, o atacante sobrecarrega a infraestrutura de DNS autoritativo com grandes volumes de consultas, podendo impedir a resolução do domínio e o acesso aos serviços que dele dependem; na amplificação de DNS, o atacante abusa de resolvers abertos e endereços de origem falsificados para transformar pedidos pequenos em respostas muito maiores dirigidas à vítima. Nos ataques de amplificação, sistemas expostos publicamente são explorados para converter pedidos relativamente pequenos em volumes de tráfego muito superiores contra o alvo. Ou seja: quem tem servidores DNS ou serviços legados expostos pode ser simultaneamente vítima e instrumento involuntário de um ataque.

Geopolítica, media e setor público no centro do alvo

O relatório liga picos de atividade a acontecimentos concretos. Segundo a Cloudflare, a 28 de fevereiro de 2026 Israel e os Estados Unidos lançaram a operação militar designada Epic Fury e, em 72 horas, investigadores de segurança registaram 149 reivindicações de ataques DDoS hacktivistas contra 110 organizações distintas em 16 países, com cerca de 47,8% das organizações visadas a pertencerem ao setor governamental. O setor de media, produção e edição foi o mais atacado em ambos os trimestres, com 14,2% de todos os pedidos HTTP DDoS mitigados, num período de cobertura intensa do Irão, da Ucrânia e do Mundial de futebol.

Há ainda deslocações na origem do tráfego malicioso: o Brasil ultrapassou os Estados Unidos como principal origem do tráfego de pedidos DDoS no semestre, com 14,9% do tráfego mitigado contra 13,4% dos EUA, mantendo-se a Indonésia em terceiro lugar em ambos os trimestres. Em termos de volume, a empresa indica que abril de 2026 foi o mês de pico, com 6,46 trilhões de pedidos e 165 petabytes.

DataAcontecimento relevante
Novembro de 2025Ataque recorde de 31,4 Tbps, com 35 segundos de duração, mitigado automaticamente pela Cloudflare
19 de dezembro de 2025Início da campanha “The Night Before Christmas”, atribuída ao botnet Aisuru/Kimwolf
28 de fevereiro de 2026Operação militar Epic Fury; seguem-se 149 reivindicações hacktivistas em 72 horas
13 de abril de 2026Semana de ação da Operação PowerOFF contra serviços de DDoS-a-pedido
Abril de 2026Mês de pico do semestre em atividade e volume DDoS
12 de agosto de 2026Publicação do relatório semestral de ameaças DDoS da Cloudflare

O teto subiu: 31,4 Tbps em 35 segundos

O limite superior destes ataques tem subido rapidamente. O botnet AISURU/Kimwolf foi associado a um ataque recorde que atingiu 31,4 Tbps e durou apenas 35 segundos, incidente ocorrido em novembro de 2025 e integrado num aumento de ataques HTTP DDoS hipervolumétricos no final desse ano, todos detetados e mitigados automaticamente. A mesma infraestrutura esteve por trás da campanha internamente designada “The Night Before Christmas”, que visou clientes da Cloudflare e também o painel e a infraestrutura da própria empresa com ataques HTTP acima de 200 milhões de pedidos por segundo. A Cloudflare descreve o Aisuru-Kimwolf como um conjunto massivo de dispositivos infetados, sobretudo televisores Android, estimado entre um e quatro milhões de máquinas, capaz de derrubar soluções legadas de proteção e até de afetar a conectividade de países inteiros.

Porque é que os ataques “pequenos” continuam a ser o maior risco para PME

Este é o ponto que interessa a quem gere um site institucional, uma loja online ou um portal de serviços. A Cloudflare observa que, apesar do crescimento hipervolumétrico, o ataque mediano do semestre continuou curto e pequeno, com 96,62% dos ataques de camada de rede abaixo de 500 Mbps e 90,60% a terminar em menos de 10 minutos — sublinhando que “pequeno” é relativo, porque a maioria das propriedades na Internet não resistiria sequer a esses ataques, e que 100 Mbps bastam para saturar um servidor ou website.

A curta duração tem uma consequência prática: quando o alerta chega ao analista de segurança, o ataque já terminou, o que torna a mitigação manual e as soluções ativadas a pedido demasiado lentas para esta realidade. Ainda assim, os efeitos secundários prolongam-se além do ataque. A empresa nota que mesmo uma rajada curta pode desencadear instabilidade de encaminhamento, retransmissões TCP, timeouts aplicacionais e degradação de serviços a jusante que levam horas ou dias a resolver, concluindo que a proteção automática e permanente é uma necessidade e não uma conveniência.

Medidas concretas de mitigação

  • Optar por mitigação always-on e automática, em vez de ativação manual ou on-demand, dado que a janela útil de resposta humana é praticamente inexistente.
  • Reforçar a resiliência do DNS autoritativo (redundância, anycast, limitação de taxa), o vetor que dominou a atividade de camada de rede no semestre.
  • Não expor serviços passíveis de abuso em reflexão/amplificação, como CLDAP (porta 389/UDP), NTP, SSDP, memcached ou resolvers DNS abertos à Internet.
  • Proteger o endereço IP de origem: se a infraestrutura real for descoberta, o atacante contorna a proteção na periferia.
  • Definir e ensaiar limites de taxa, páginas de erro degradadas e circuitos de comunicação com clientes, para reduzir o impacto reputacional de indisponibilidades.
  • Higienizar dispositivos IoT e routers da própria organização, incluindo equipamentos de baixo custo sem atualizações, que alimentam botnets como o Aisuru/Kimwolf.
  • Registar métricas de disponibilidade e evidências técnicas do incidente, essenciais para as notificações legais e para a análise posterior.

Mercado de DDoS-a-pedido sob pressão policial

Parte deste ecossistema é comercial e de baixo custo. A Europol indica que, a 13 de abril de 2026, 21 países juntaram esforços numa semana de ação coordenada com medidas de repressão e prevenção contra mais de 75 mil utilizadores de serviços de DDoS-a-pedido. Segundo a Europol, as ações incluíram mais de 75 mil mensagens de aviso a utilizadores identificados, quatro detenções, 25 mandados de busca e a desativação de 53 domínios ligados a serviços de booter. A análise dos sistemas apreendidos expôs mais de três milhões de contas de utilizador associadas a estes serviços. Portugal figura entre os países parceiros da Operação PowerOFF, coordenada pelo Centro Europeu de Cibercriminalidade da Europol e pela J-CAT.

Porque é que isto importa em Portugal

O DDoS não é uma ameaça abstrata no contexto nacional. O CNCS considerou os ataques de negação de serviço distribuída uma ameaça relevante no ciberespaço de interesse nacional devido ao seu impacto e associou esta tipologia à atividade de grupos hacktivistas, e dados do CERT.PT relativos aos incidentes mais relevantes apontaram um tempo médio de indisponibilidade de oito horas causado por estes ataques em 2024. O relatório do CNCS destacou ainda um crescimento expressivo dos incidentes em 2024, com ênfase em ransomware, DDoS e fugas de credenciais, e identificou cibercriminosos, atores estatais e hacktivistas como os agentes de ameaça mais relevantes.

Do lado legal, a disponibilidade é agora matéria de conformidade. As entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança, que transpõe a diretiva NIS2, têm de gerir riscos, registar-se e notificar incidentes significativos — e uma indisponibilidade prolongada de serviços essenciais entra nesse perímetro. O CNCS assinalou, no boletim do seu Observatório de junho de 2026, que com a publicação do Regulamento n.º 756/2026 começaram a contar vários prazos legais para as entidades públicas e privadas no âmbito do regime nacional. Quando um ataque de disponibilidade coincide com acesso indevido ou perda de dados pessoais, acresce o dever de avaliação ao abrigo do RGPD, com eventual notificação à CNPD. Para PME, a leitura é simples: proteção automática permanente, DNS resiliente e um plano de indisponibilidade testado valem mais do que qualquer promessa de reação em tempo real.

Perguntas frequentes

Quantos ataques DDoS mitigou a Cloudflare no primeiro semestre de 2026?

A empresa reporta 23,2 milhões de ataques de camada de rede e 29,64 trilhões de pedidos HTTP DDoS entre janeiro e junho de 2026, o equivalente a cerca de 5.343 ataques por hora.

Os ataques muito grandes são a maior ameaça para uma PME?

Não necessariamente. A Cloudflare indica que 96,62% dos ataques de camada de rede ficaram abaixo de 500 Mbps e que um ataque de 100 Mbps já é suficiente para saturar um servidor ou site sem proteção adequada.

Porque é que os ataques ao DNS ganharam peso?

Os ataques baseados em DNS representaram 34,3% da atividade de camada de rede no semestre. Saturar o DNS autoritativo impede a resolução do domínio, derrubando na prática todos os serviços que dependem dele, e a amplificação permite gerar grandes volumes com poucos recursos.

Um ataque DDoS tem de ser notificado em Portugal?

Depende da entidade e do impacto. As organizações abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança têm deveres de notificação de incidentes significativos ao CNCS; se houver dados pessoais afetados, pode acrescer a notificação à CNPD ao abrigo do RGPD.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Cloudflare (Cloudforce One), pela Europol e pelo Centro Nacional de Cibersegurança.