A sua equipa usa Codex ou Claude Code? Um «relay» desliga as proteções sem avisar

A sua equipa usa Codex ou Claude Code? Um «relay» desliga as proteções sem avisar

A equipa Threat Hunter da Symantec identificou um serviço intermediário (um «relay») que instala nos computadores de empresas as versões legítimas das ferramentas de programação com IA da OpenAI e da Anthropic. Pelo caminho, altera a configuração para que o tráfego passe pela infraestrutura do próprio serviço e desliga proteções importantes, como o isolamento de execução (sandbox). Até agora não foi observado malware. Mesmo assim, os investigadores consideram que as organizações afetadas ficaram bastante mais expostas.

Resposta rápida: Um serviço não autorizado distribui os clientes oficiais do Codex e do Claude Code, mas encaminha todos os pedidos pelos seus próprios servidores e desliga as salvaguardas de segurança. A atividade foi detetada sobretudo em organizações asiáticas, mas o risco vale para qualquer equipa que use intermediários não oficiais para aceder a modelos de IA. Faça o inventário dos agentes de programação instalados, confirme para onde enviam o tráfego e verifique se o sandbox e as aprovações continuam ativos.

O que a Symantec encontrou

Segundo a Dark Reading, que cita o relatório publicado pela Symantec, o serviço instala versões genuínas das interfaces de linha de comandos (CLI) do Codex e do Claude Code em sistemas empresariais, mas reconfigura-as para encaminhar os pedidos pela infraestrutura do relay, em vez de os enviar para as redes da OpenAI ou da Anthropic. A finalidade aparente é contornar as restrições geográficas, porque o serviço parece ter sido criado para escapar às limitações regionais que impedem certos países e regiões de usar ferramentas de IA de empresas norte-americanas.

A descoberta começou com um ficheiro suspeito. Brigid O Gorman, analista sénior da equipa Threat Hunter, disse à Dark Reading que os investigadores encontraram um downloader PowerShell suspeito que mais tarde classificaram como «an AI-agent hijack script» (um script de sequestro de agentes de IA). Ao aprofundar a análise, a equipa encontrou atividade semelhante noutras redes e ligou-a ao serviço de relay não autorizado.

Quanto ao alcance, o serviço está ativo desde o início de 2026 e já instalou as ferramentas em sistemas de uma dúzia de organizações, sobretudo na China continental, mas também na Coreia do Sul, em Taiwan e na Malásia.

Como funciona a instalação

A técnica não depende de uma versão adulterada do software. Pelo que o relatório descreve, quando um utilizador do relay instala pelo npm um CLI legítimo do Codex ou do Claude Code, um script PowerShell ou bash sem ficheiro é descarregado de um domínio de imitação através de um comando de uma linha que o próprio utilizador parece executar. Este passo lembra técnicas de engenharia social como o ClickFix, mas os investigadores notaram que os clientes CLI não são modificados nem transformados em trojans.

Esta é a parte que exige mais atenção às equipas de segurança. Como os binários são autênticos, uma verificação de integridade ao pacote não deteta nada. O que muda são os ficheiros de configuração e as variáveis de ambiente que definem o destino do tráfego e as permissões do agente.

Porque é que desligar o sandbox é grave

Os agentes de programação executam comandos na máquina do programador: instalam dependências, correm testes e alteram ficheiros. O sandbox é a barreira que limita o que esses comandos conseguem ler, escrever e alcançar na rede. A documentação oficial do Claude Code explica que o sandbox de Bash é uma fronteira imposta pelo sistema operativo em torno dos comandos de shell que o Claude executa na máquina. A mesma documentação lembra que o sandbox vem desligado por omissão e liga-se com o comando /sandbox ou definindo sandbox.enabled como true num ficheiro de configuração como ~/.claude/settings.json.

No Codex CLI, o isolamento está ativo desde a instalação. Usa Seatbelt no macOS, Landlock e seccomp no Linux e tokens restritos no Windows, com os modos read-only, workspace-write e danger-full-access. O último modo retira, na prática, todos os limites.

Juntam-se aqui dois problemas. Por um lado, um terceiro desconhecido fica no meio de toda a comunicação entre o agente e o modelo, e por isso pode ler código, segredos e contexto e, em teoria, alterar as respostas devolvidas ao agente. Por outro, sem sandbox nem aprovações, uma resposta manipulada pode chegar diretamente à shell do programador. Os investigadores admitem que não sabem porque é que as proteções são desligadas, e não foi observado até agora malware nem atividade maliciosa. Ainda assim, segundo a Symantec, o serviço está a criar um enorme risco para as organizações que o utilizam.

Um padrão que já tinha aparecido

Os intermediários que revendem acesso a modelos ocidentais em mercados onde estes não estão disponíveis não são novos, e já surgiram em investigações sobre atacantes. A Unit 42, da Palo Alto Networks, descreveu um operador de língua chinesa que encaminhava o Claude Code e o Codex através de um serviço de proxy de terceiros (code.newcli[.]com) para dificultar o rastreio, depois de ter retirado as permissões de execução do lado do cliente.

No caso agora divulgado, os clientes do relay parecem ser empresas que querem apenas usar as ferramentas. O resultado técnico, porém, é muito parecido: tráfego desviado para infraestrutura opaca e controlos locais desativados.

ElementoInstalação oficialInstalação via relay (segundo a Symantec)
Binário do CLIPacote legítimoPacote legítimo, sem alterações
Destino dos pedidosInfraestrutura da OpenAI ou da AnthropicInfraestrutura do relay
Origem do script de configuraçãoNão aplicávelDomínio de imitação, comando de uma linha
Salvaguardas (sandbox)Conforme a configuração do fabricanteDesativadas
Atividade maliciosa observada—Nenhuma até à data

Indicadores e o que verificar

Nos dados públicos consultados não encontrámos domínios nem hashes que possam ser confirmados de forma independente. Por isso não os publicamos e recomendamos consultar diretamente o relatório da Symantec. Enquanto isso, as equipas técnicas podem procurar sinais de configuração anómala, venham deste ou de outro serviço semelhante:

  • Fazer o inventário de todas as instalações do Codex CLI e do Claude Code nos postos de trabalho e servidores de CI/CD.
  • No Codex, rever ~/.codex/config.toml à procura de sandbox_mode = "danger-full-access", de políticas de aprovação como approval_policy = "never" e de fornecedores ou URL base desconhecidos.
  • No Claude Code, rever ~/.claude/settings.json e as configurações de projeto, confirmando que sandbox.enabled está ativo e que não há endpoints de API alheios ao fornecedor.
  • Verificar variáveis de ambiente como ANTHROPIC_BASE_URL e OPENAI_BASE_URL que apontem para domínios inesperados.
  • Procurar na telemetria do EDR comandos PowerShell ou bash de uma linha que descarregam e executam scripts diretamente em memória.
  • Impor configurações geridas centralmente. No Claude Code, a definição "allowUnsandboxedCommands": false impede que comandos bloqueados voltem a ser executados fora do sandbox.

Sobre este último ponto, a documentação da Anthropic indica que, com a nova tentativa sem sandbox desativada, o Claude Code ignora o parâmetro dangerouslyDisableSandbox. Também avisa que, se o sandbox não arrancar por falta de uma dependência ou por a plataforma não ser suportada, o Claude Code executa os comandos sem isolamento. Vale a pena confirmar esse comportamento nas máquinas Windows, onde o Claude Code corre os comandos sem sandbox, a menos que seja executado numa distribuição WSL2.

Porque é que isto importa em Portugal

As organizações identificadas estão na Ásia, mas o problema é universal: a chamada «IA sombra». Os programadores procuram muitas vezes acessos mais baratos, contas partilhadas ou gateways não oficiais para usar modelos sem passar pelos processos internos de compra. Quando o fazem, todo o código-fonte, credenciais, ficheiros .env e dados de clientes que o agente lê pode atravessar servidores de terceiros sem contrato, sem garantias e sem localização conhecida.

Se esse contexto incluir dados pessoais, há implicações diretas no âmbito do RGPD: um subcontratante não identificado, possíveis transferências internacionais sem fundamento e uma falha que pode ter de ser notificada à CNPD. Para as entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), a gestão do risco na cadeia de fornecimento e o controlo das ferramentas usadas pelas equipas de desenvolvimento passam a ser obrigações, e não apenas boas práticas. Um incidente com impacto significativo terá de ser comunicado ao CNCS/CERT.PT.

Para as PME, a recomendação prática é simples. Definir que ferramentas de IA estão aprovadas, comprá-las pelos canais oficiais, centralizar as configurações e incluir os agentes de programação no inventário de ativos, tal como qualquer outro software com privilégios elevados.

Perguntas frequentes

O Codex e o Claude Code instalados pelo relay estão infetados?

Segundo a Symantec, não. Os clientes de linha de comandos são as versões legítimas. O problema está na configuração: os pedidos são desviados para a infraestrutura do relay e as proteções de segurança são desligadas.

Há empresas portuguesas afetadas?

Não há indicação disso. As cerca de doze organizações identificadas estão sobretudo na China continental, na Coreia do Sul, em Taiwan e na Malásia. O risco, no entanto, aplica-se a qualquer equipa que use intermediários não oficiais para aceder a modelos de IA.

Como sei se o meu agente de programação envia tráfego para um terceiro?

Reveja os ficheiros ~/.codex/config.toml e ~/.claude/settings.json, bem como variáveis de ambiente como OPENAI_BASE_URL e ANTHROPIC_BASE_URL. Qualquer endpoint que não pertença ao fornecedor oficial deve ser investigado.

O sandbox do Claude Code está ativo por omissão?

Não. Segundo a documentação da Anthropic, tem de ser ativado com o comando /sandbox ou com a definição sandbox.enabled. No Codex CLI, o isolamento vem ativo por omissão.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Symantec (citados pela Dark Reading), pela documentação oficial do Claude Code e pela Unit 42 da Palo Alto Networks.