O seu Microsoft 365 parou? A falha estava na camada que devia protegê-lo

O seu Microsoft 365 parou? A falha estava na camada que devia protegê-lo

Esta terça-feira, 13 de outubro, uma degradação no Global Secure Access (GSA), o serviço de acesso seguro da Microsoft, deixou utilizadores no Reino Unido e na Alemanha com dificuldades em aceder ao Microsoft 365. A Microsoft informou que os utilizadores destes dois países estavam a ter problemas de ligação aos serviços Microsoft 365 devido ao mau desempenho da infraestrutura do GSA. O caso mostra um risco pouco discutido: quando uma organização faz passar o tráfego por uma camada de segurança na nuvem, uma falha nessa camada pode cortar o acesso às ferramentas de trabalho do dia a dia.

Resposta rápida: Uma parte da infraestrutura do Microsoft Global Secure Access teve uma quebra de desempenho a 13 de outubro e afetou o acesso ao Outlook, Teams, OneDrive, SharePoint Online e Windows 365 no Reino Unido e na Alemanha. Nada indica que tenha havido um ciberataque: a Microsoft atribuiu o problema ao desempenho da infraestrutura. Se a sua organização usa o GSA, consulte a página pública de estado da Microsoft e confirme se tem contas de acesso de emergência excluídas das políticas de acesso condicional. Reveja também o seu plano de continuidade para falhas do fornecedor.

O que aconteceu

Entre os serviços afetados estavam o Outlook, o Outlook na web, o OneDrive, o SharePoint Online, o Microsoft Teams e os Cloud PCs do Windows 365. Segundo a explicação da Microsoft, divulgada pelo The Register, a causa foi uma secção da infraestrutura do GSA que estava a funcionar abaixo dos limites de desempenho aceitáveis e a afetar a ligação aos serviços Microsoft 365.

Para resolver o problema, a empresa disse que estava a aplicar otimizações de tráfego e de desempenho para “remediate impact and restore connectivity”, ou seja, reduzir o impacto e repor a ligação. Ao mesmo tempo, a Microsoft teve de publicar as atualizações na página pública de estado do serviço porque, segundo a própria empresa, os administradores do Microsoft 365 podiam não conseguir aceder ao centro de administração para consultar a informação sobre o estado dos serviços.

Até ao fecho deste artigo, a Microsoft ainda não tinha divulgado uma análise detalhada da causa raiz. Continua por esclarecer o que provocou esta falha. Também não há nenhuma confirmação pública de que se tratou de um incidente de segurança. A Microsoft fala apenas de um problema de desempenho na infraestrutura.

Cronologia conhecida

Hora (UTC)Hora em LisboaAcontecimento
11h4312h43Primeiro registo de impacto indicado nas comunicações da Microsoft
12h5113h51Primeiros relatos na imprensa especializada, já com a Microsoft a aplicar otimizações de tráfego
13h3014h30Hora marcada pela Microsoft para a atualização seguinte
Em cursoEm cursoResolução completa ainda sem confirmação pública detalhada

A cronologia baseia-se em relatos publicados nesse dia: o problema durava pelo menos desde as 11h43 UTC e a Microsoft anunciou a atualização seguinte para as 13h30 UTC. Oficialmente, só a Alemanha e o Reino Unido foram referidos. Ainda assim, os rastreadores comunitários de falhas sugerem que também houve problemas noutros países. No StatusGator surgiram, por exemplo, relatos de utilizadores na Dinamarca e nos Países Baixos. Estes relatos não foram confirmados pela Microsoft.

O que é o Global Secure Access e por que razão bloqueou o Microsoft 365

O GSA não é uma aplicação de escritório. É uma camada de rede e de segurança. De acordo com a documentação oficial da Microsoft, o Microsoft Entra Internet Access e o Microsoft Entra Private Access formam a solução Security Service Edge (SSE) da Microsoft, e Global Secure Access é o nome que agrupa os dois. A empresa diz ainda que o serviço segue os princípios Zero Trust: privilégio mínimo, verificação explícita e assumir que pode haver uma intrusão.

Na prática, as organizações instalam um cliente nos computadores e telemóveis dos trabalhadores, e esse cliente encaminha o tráfego pela rede da Microsoft. Com este cliente, as organizações podem encaminhar perfis de tráfego específicos através do Entra Internet Access e do Entra Private Access, o que permite exigir controlos como a avaliação contínua de acesso, a conformidade do dispositivo ou a autenticação multifator. Há clientes para Windows, Android, macOS e iOS.

Isto explica o alcance da falha. Quando o tráfego do Microsoft 365 é obrigado a passar pelo GSA, uma quebra nesse ponto deixa o utilizador sem acesso, mesmo que o Exchange ou o SharePoint estejam a funcionar. A lista de pontos de presença do GSA inclui centros de dados em Berlim e Frankfurt, na Alemanha, e em Londres, no Reino Unido. A Microsoft explica também que o serviço usa encaminhamento Anycast, que envia o tráfego dinamicamente para o ponto de presença da Microsoft mais próximo que esteja disponível.

Um dia carregado para os administradores

A falha coincidiu com outros acontecimentos no ecossistema da Microsoft. O dia 13 de outubro marcou o fim do suporte ao Office 2021 LTSC. No mesmo dia, foi também noticiado que uma alteração de configuração provocou uma falha no Exchange Admin Center e impediu os administradores de aceder à consola de gestão. Segundo a Microsoft, reverter a alteração repôs o funcionamento normal do serviço.

Não é o primeiro problema regional deste ano. Em setembro, segundo um agregador de avisos de estado da Microsoft, houve um incidente em que utilizadores no Reino Unido podem não ter conseguido aceder a vários serviços Microsoft 365. Nessa altura, a empresa apontou uma alteração recente num componente de autenticação como causa provável.

O que podem fazer as organizações que usam o GSA

Não há patch para instalar, porque não se trata de uma vulnerabilidade. Ainda assim, este incidente é uma boa altura para as equipas de TI verificarem a sua dependência do fornecedor. Entre as medidas que fazem sentido:

  • Acompanhar o estado fora do portal: como o centro de administração pode ficar inacessível, guarde a página pública de estado do Microsoft 365 e a conta oficial da Microsoft nas redes sociais como fontes alternativas.
  • Confirmar se o problema está no GSA: as orientações de operação da Microsoft recomendam que o apoio técnico compare as queixas de desempenho do Microsoft 365 com os registos de tráfego do GSA, para perceber se o encaminhamento pelo GSA está envolvido.
  • Rever as políticas de acesso condicional: se uma política exige que o acesso venha de uma “rede conforme” do GSA, desligar o cliente ou o perfil de tráfego pode bloquear os utilizadores em vez de os ajudar. Teste qualquer contorno num grupo piloto antes de o aplicar a todos.
  • Manter contas de acesso de emergência: contas break-glass excluídas das políticas de acesso condicional ajudam a não perder o controlo administrativo durante uma falha.
  • Ter um plano de continuidade: defina com antecedência canais de comunicação alternativos e procedimentos manuais para os processos críticos que dependem do e-mail e do Teams.

Porque é que isto importa em Portugal

Até agora, a Microsoft só confirmou impacto na Alemanha e no Reino Unido. Mesmo assim, o caso diz respeito a qualquer organização portuguesa que esteja a substituir VPN e proxies tradicionais por soluções SSE na nuvem. A cibersegurança não se resume à confidencialidade: a disponibilidade é igualmente essencial. Uma camada de proteção mal dimensionada, ou sem alternativa, pode tornar-se ela própria um ponto único de falha.

Para as entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), a segurança da cadeia de abastecimento e a continuidade de negócio são obrigações de gestão de risco. Falhas de fornecedores de nuvem devem constar dos planos e dos exercícios de resposta a incidentes. Quando uma interrupção afeta de forma significativa os serviços prestados, a entidade deve avaliar se tem de notificar o CNCS/CERT.PT. Também o RGPD inclui a disponibilidade e a resiliência dos sistemas entre as medidas de segurança que os responsáveis pelo tratamento têm de garantir. Para as PME, a lição é mais simples: saber de que serviços depende o negócio e o que fazer quando deixam de funcionar.

Perguntas frequentes

Esta falha do Microsoft 365 foi um ciberataque?

Nada indica que sim. A Microsoft atribuiu o problema ao desempenho insuficiente de uma parte da infraestrutura do Global Secure Access e não referiu qualquer atividade maliciosa.

Que serviços foram afetados?

O Outlook, o Outlook na web, o OneDrive, o SharePoint Online, o Microsoft Teams e os Cloud PCs do Windows 365, para utilizadores cujo tráfego passa pelo GSA no Reino Unido e na Alemanha.

Utilizadores particulares do Microsoft 365 foram afetados?

O GSA é uma solução empresarial gerida através do Microsoft Entra. A falha afetou sobretudo organizações que encaminham o tráfego do Microsoft 365 por este serviço, e não os utilizadores domésticos comuns.

O que deve fazer um administrador numa situação destas?

Acompanhar a página pública de estado da Microsoft, confirmar nos registos se o problema vem do GSA, ter contas de acesso de emergência e rever as políticas de acesso condicional antes de aplicar qualquer contorno.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Microsoft (documentação do Global Secure Access), pela Microsoft (pontos de presença do GSA), pelo The Register e pelo Neowin.