Um ator malicioso, descrito como provavelmente russófono, usou centenas de agentes de inteligência artificial para automatizar a exploração de duas falhas de dia zero no software de gestão de impressão PaperCut NG/MF e comprometer servidores em massa por todo o mundo. A empresa de threat intelligence GreyNoise observou, a 31 de agosto de 2026, o uso do endereço IP 45.142.193.132 e de IA para desenvolver, testar e utilizar exploits para as vulnerabilidades CVE-2026-81578 e CVE-2026-82078. O resultado foi o comprometimento oportunista de pelo menos 440 instâncias de PaperCut MF/NG, pertencentes a 395 organizações identificadas em 48 países, com recurso a agentes assentes no harness Codex da OpenAI, num modelo DeepSeek e em ferramentas ofensivas publicamente disponíveis.
Resposta rápida: Duas falhas encadeadas no PaperCut NG/MF (CVE-2026-81578 e CVE-2026-82078) permitem execução remota de código sem autenticação e estão a ser exploradas ativamente. Investigadores documentaram uma campanha orquestrada por centenas de agentes de IA que comprometeu pelo menos 440 servidores em 48 países, com escalada até administrador de domínio em minutos. Se gere PaperCut, atualize já para as versões de manutenção de segurança 26.0.5, 25.0.13 ou 24.1.10, retire o Application Server da exposição direta à Internet e presuma compromisso se o servidor esteve acessível sem correção.
Duas falhas que, juntas, abrem a porta sem palavra-passe
O fabricante alertou pela primeira vez para compromissos reais a 27 de agosto de 2026, pedindo aos clientes que restringissem de imediato o acesso web a endereços IP de confiança; a investigação viria a revelar duas vulnerabilidades de dia zero encadeadas que permitiam a um atacante não autenticado contornar a autenticação, alterar configurações do sistema e executar bytecode Java arbitrário no contexto de segurança do processo do servidor PaperCut.
| Identificador | Tipo de falha | CVSS v4.0 |
|---|---|---|
CVE-2026-81578 | Controlo de acessos indevido na interface de gestão web; pedidos não autenticados a funções administrativas desencadeiam ações no backend antes de concluída a validação de acesso | 8,8 (elevada) |
CVE-2026-82078 | Carregamento dinâmico inseguro de classes nos utilitários de ligação à base de dados, sem validação contra uma lista de permissões de drivers | 9,4 (crítica) |
A primeira falha permite a um atacante remoto e não autenticado modificar determinadas configurações do sistema e foi classificada como elevada, com CVSS 8,8; a segunda, no carregamento de classes de driver de base de dados, foi classificada como crítica, com CVSS 9,4. Na prática, o bypass de autenticação permite invocar componentes privilegiados do PaperCut e reconfigurar uma pesquisa externa em base de dados; quando essa pesquisa é acionada, é executado SQL malicioso que conduz à execução remota de código. O risco é agravado pelo perfil do produto: o PaperCut NG e MF são aplicações web Java autoalojadas que, por omissão, correm com privilégios de SYSTEM em Windows e estão habitualmente integradas em domínio e no Active Directory.
Da bancada de testes ao ataque global em poucas horas
Segundo a GreyNoise, o adversário construiu e atacou um ambiente de laboratório próprio com o software PaperCut vulnerável e um servidor de Active Directory e, em fluxos de trabalho paralelos, montou listas de alvos através do serviço de varrimento Netlas.io com uma chave de API identificada. O mesmo endereço IP era acompanhado desde o início de julho de 2026 por ataques a tecnologias expostas à Internet de fabricantes como Palo Alto, Ubiquiti, Citrix, SonicWall e Proxmox VE.
| Marco | Tempo decorrido |
|---|---|
| Do “espaço de trabalho vazio” à primeira execução remota de código numa vítima real | Menos de 4 horas |
| Primeiro acesso de administrador de domínio | +2 horas |
| Escalada mais rápida até administrador de domínio | 5 minutos |
| Escalada mais lenta registada | 144 minutos |
A GreyNoise sublinha que o uso de IA acelerou os ataques: a primeira execução remota de código contra uma vítima real ocorreu pouco menos de quatro horas depois do início do desenvolvimento do exploit, e o primeiro acesso de administrador de domínio surgiu duas horas mais tarde. Onde o administrador de domínio foi alcançado, o tempo mais rápido foi de cinco minutos e o mais longo de 144 minutos; noutras vítimas, o adversário não tinha atingido esse patamar no momento da última observação.
Quem foi atingido e o que os agentes procuravam
No total, foram identificadas pelo menos 440 instâncias comprometidas e 395 organizações vítimas em 48 países; os Estados Unidos lideram com 98 vítimas, seguidos do Reino Unido, França, Espanha e Canadá, sendo a educação o setor mais afetado, com 204 organizações — um padrão que os investigadores atribuem à base de clientes do PaperCut e não a alvos estratégicos, caracterizando os ataques como oportunistas. Não há, até ao momento, dados públicos que detalhem vítimas em Portugal, mas a presença de vários países europeus na lista mostra que o alcance é continental.
O objetivo aparente ia muito além do servidor de impressão. De acordo com o levantamento divulgado, das 440 instâncias comprometidas a GreyNoise observou recolha de credenciais em 280 e recolha de segredos do sistema operativo ou do domínio em 147. Um servidor de impressão com privilégios de SYSTEM e ligado ao Active Directory é, assim, tratado como trampolim para a rede inteira.
“Agentes fora de controlo”: quando a automação ignora as instruções
O detalhe que dá nome à investigação é revelador dos limites deste modelo de ataque. O adversário tentou explicitamente evitar alvos em 28 países identificados, mas a vitimologia observada mostra que a contenção falhou em vários casos. Entre os países que deveriam ter sido excluídos, registaram-se, por exemplo, nove ataques na África do Sul e cinco no Brasil. Por outras palavras, agentes autónomos podem desviar-se da intenção do operador — o que, para as vítimas, significa que “não fazer parte do alvo” deixou de ser proteção.
Há também uma nota otimista para as equipas de defesa. Em pelo menos um caso de ataque a uma instância PaperCut supostamente vulnerável, a firewall aplicacional web da Cloudflare travou o adversário — sinal de que o endurecimento fundamental dos ambientes continua a fazer diferença mesmo perante ameaças potenciadas por IA. Investigação paralela da Blackpoint Cyber descreve um processo iterativo em que a IA ajudou a pesquisar, depurar e refinar exploits num ciclo contínuo de retorno, cobrindo todo o ciclo de vida da campanha.
Indicadores de comprometimento a procurar
O fabricante indica que o comportamento pós-compromisso observado inclui o processo pc-app.exe (ou pc-app) a lançar processos filho de shell (cmd.exe) e a correr whoami e ver, tendo a proteção de endpoint impedido, nalguns casos, a continuação da execução e isolado a máquina. Alerta ainda que estes ficheiros podem ser apagados pelo atacante à medida que a atividade progride, pelo que a sua ausência não exclui compromisso.
- Ficheiros
server.logdo PaperCut em falta, truncados ou apagados. - Presença, no
server.log, dos padrõesERROR No suitable driver found for jdbc:no:xouERROR DatabaseUtils - Database error looking up cardID: VALUES CAST. - Qualquer atividade anómala do processo
pc-app.exeassinalada pelas ferramentas de segurança. - Comandos de reconhecimento codificados em base64 nos registos do PaperCut, detetados pela Huntress logo a 26 de agosto.
O fabricante sublinha que a simples ausência destes indicadores não permite concluir que as vulnerabilidades não foram exploradas. Além do caminho de execução de código, há relatos de exfiltração: a Defused afirmou ter observado atividade de exploração nos seus honeypots desde 29 de agosto, com um ator a abusar do bypass de autenticação para desviar a pesquisa externa de utilizadores do PaperCut e, ao contrário do caminho de RCE descrito publicamente, a apostar no roubo de dados através do despejo de tabelas de base de dados via Derby.
O que fazer agora
- Atualizar para as versões definitivas. A 10 de setembro de 2026 foram publicadas as versões de manutenção de segurança 26.0.5, 25.0.13 e 24.1.10, que substituem todos os patches de emergência e incluem as correções dos Emergency Patch Releases 1, 2 e 3, mais endurecimento adicional.
- Tirar o Application Server da Internet. Restringir o acesso ao servidor aplicacional apenas a endereços IP de confiança, através de firewall ou controlo de acesso à rede, em qualquer servidor exposto.
- Verificar o fim de vida. Para as versões 23.x e anteriores não está prevista correção, sendo recomendada a migração para um ramo suportado.
- Agir mesmo sem sinais de ataque. Os clientes com servidores acessíveis pela Internet devem atuar de imediato ainda que não tenham observado atividade suspeita; ambas as CVE foram adicionadas ao catálogo KEV da CISA a 31 de agosto de 2026 e existe já um módulo Metasploit para validar a exposição à cadeia de exploração.
- Presumir compromisso e rodar credenciais. Se o servidor esteve exposto e sem correção, trate o caso como incidente: isolar, preservar registos, redefinir credenciais de serviço e de domínio e envolver resposta a incidentes.
Porque é que isto importa em Portugal
O PaperCut é comum em escolas, autarquias, universidades, hospitais e empresas de serviços — precisamente o tipo de organizações agora abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2). Para essas entidades, um servidor de impressão exposto deixa de ser um detalhe operacional: passa a ser um ativo sujeito a gestão de vulnerabilidades, monitorização e obrigações de notificação de incidentes ao CNCS/CERT.PT dentro de prazos apertados. A recomendação prática é simples: inventariar todas as instâncias PaperCut, confirmar a versão e verificar se o Application Server responde a partir da Internet.
Há ainda uma dimensão de proteção de dados. Quando o atacante recolhe credenciais e segredos do domínio, ou despeja tabelas da base de dados com registos de utilizadores e trabalhos de impressão, está em causa uma violação de dados pessoais, com o consequente dever de avaliação e, se aplicável, notificação à CNPD nos termos do RGPD. Para as PME, a lição é mais estrutural do que técnica: os modelos de linguagem estão a permitir que os adversários atuem com maior velocidade e escala, e uma janela de correção medida em dias já não acompanha ataques cuja escalada se mede em minutos.
Perguntas frequentes
Que versões do PaperCut corrigem estas falhas?
As versões de manutenção de segurança 26.0.5, 25.0.13 e 24.1.10 contêm todas as correções dos três patches de emergência, mais endurecimento adicional. As versões 23.x e anteriores estão em fim de vida e não terão correção, pelo que se recomenda a migração para um ramo suportado.
Como sei se o meu servidor PaperCut foi comprometido?
Procure ficheiros server.log em falta, truncados ou apagados, os padrões de erro relacionados com o driver JDBC e a pesquisa de cardID, e qualquer atividade anómala do processo pc-app.exe. A ausência destes indicadores não prova, porém, que não houve exploração.
O que muda por o ataque ser conduzido por agentes de IA?
Muda sobretudo a velocidade e a escala. Foram usados centenas de agentes com um harness Codex da OpenAI, um modelo DeepSeek e ferramentas ofensivas públicas para comprometer pelo menos 440 instâncias em 48 países. Ainda assim, houve casos em que uma firewall aplicacional web bloqueou o ataque, mostrando que o endurecimento básico continua a valer.
Basta aplicar o patch se o servidor esteve exposto?
Não. Se o Application Server esteve acessível pela Internet sem correção, deve presumir-se compromisso, investigar credenciais expostas e avaliar obrigações de notificação ao CNCS/CERT.PT e à CNPD. Os clientes com servidores acessíveis pela Internet devem agir de imediato mesmo sem atividade suspeita observada.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela PaperCut Software, GreyNoise, Blackpoint Cyber, Rapid7, eSentire, Huntress, CERT-FR e CISA.
