O backdoor que vive dentro do seu balanceador de carga (e não deixa rasto nos logs)

Investigadores da Rapid7 Labs documentaram um conjunto de ferramentas de espionagem para Linux até agora desconhecido, construído à volta de um backdoor compilado dentro do próprio balanceador de carga HAProxy da vítima. O toolkit foi identificado em ataques a organizações dos setores automóvel e dos media da Coreia do Sul, recorreu a uma instância de HAProxy batizada «ted backdoor» e a versões trojanizadas de crond, agetty, atd, sshd e polkitd, permitindo execução remota de comandos, injeção de scripts em tráfego web, recolha de credenciais e vigilância de longo prazo. Não existe aqui qualquer falha do HAProxy: o implante não é uma vulnerabilidade do produto e a sua instalação exige execução de código no servidor e a capacidade de substituir o binário em execução.

Resposta rápida: A Rapid7 Labs revelou um toolkit Linux inédito que esconde um backdoor (“ted”) dentro de builds legítimos do HAProxy 2.8.12, acompanhado de um RAT baseado em curl, um keylogger SSH e daemons de sistema trojanizados. A empresa atribui a atividade, com confiança média, a atores estatais norte-coreanos e situa as vítimas nos setores automóvel e dos media sul-coreanos. Não há CVE nem patch aplicável: a defesa passa por verificar a integridade dos binários de servidores de fronteira, correlacionar tráfego a partir de sensores externos ao equipamento e rodar credenciais que tenham passado por esses sistemas.

Um implante que se confunde com a infraestrutura

A característica mais relevante deste caso é a profundidade da integração. Segundo a Rapid7, o ted backdoor é compilado como parte da versão do HAProxy 2.8.12 já existente no ambiente da vítima e utiliza a API nativa de filtros, as pools de memória internas, o agendador de eventos e as funções de gestão de processos do próprio software para intercetar tráfego e escapar à monitorização, enquanto o balanceamento legítimo continua a funcionar normalmente. Os operadores terão obtido execução de código nos servidores de fronteira e substituído o executável legítimo por uma versão modificada.

Ao viver dentro do processo do balanceador, o implante vê o tráfego já desencriptado. O ted liga-se ao processamento HTTP do HAProxy, inspecionando pedidos antes de serem entregues aos serviços de backend, e pode capturar metadados de valor elevado como endereços IP de origem, cabeçalhos Host, Referer, user agents, cookies e tráfego que corresponda a expressões regulares definidas pelo atacante.

Comandos que nunca chegam aos registos

O canal de comando e controlo (C2) é ativado por um pedido aparentemente banal. A Rapid7 verificou que o implante desencadeia comunicações C2 através do endpoint /favorite_list_2x_m500_ico.jpg: quando esse caminho é pedido, o ted interceta a carga útil, encaminha-a por named pipes e impede-a de chegar à aplicação de backend, pelo que o tráfego de comandos fica ausente dos registos aplicacionais. Para reduzir ainda mais a visibilidade, o malware altera os contadores internos de ligações e pedidos do HAProxy, decrementando estatísticas ativas e cumulativas associadas aos seus próprios pedidos. Na prática, nem os registos do backend nem as estatísticas do balanceador guardam vestígio dessas ligações.

curlRAT, keylogger SSH e daemons substituídos

Ao lado do ted operam um keylogger SSH, um RAT baseado em curl e um stager; o RAT mantém uma thread de vigilância dedicada a acompanhar o estado do HAProxy e a reportá-lo à infraestrutura do operador. O curlRAT oferece execução de comandos, descarregamento de payloads, acesso por reverse shell e shell PTY, perfilagem do anfitrião e envio de informação de sistema.

ComponenteFunção observada
ted backdoor (HAProxy 2.8.12)Interceção de tráfego HTTP já desencriptado através da API de filtros, mantendo o balanceamento legítimo
curlRATComandos remotos, download de payloads, reverse shell, PTY e recolha de informação do sistema
sshd trojanizadoCaptura de palavras-passe em texto simples guardadas em ficheiro cifrado em /var/lib/sshd/c8c68e629bba773a10ac80012d10bf19
StagerSó atua com HAProxy ou cron presentes e após verificar privilégios de root; substitui o crond legítimo, copia a data de criação de /usr/bin/ssh e limpa palavras-chave do histórico do root e de seis registos de sistema
agetty, atd, polkitdVersões trojanizadas de serviços legítimos usadas no mesmo enquadramento

A cadeia observada é coerente com uma operação paciente. A partir do ponto de apoio na fronteira da rede, o atacante avança para o interior e coloca o stager em servidores internos; este verifica a presença de crond ou HAProxy antes de instalar o curlRAT, obtido da sua própria secção de dados ou do servidor web de fronteira, enquanto o ted é colocado no balanceador, estabelece o seu canal C2 e permite exfiltração, execução de comandos e injeção de scripts, com o balanceador comprometido a redirecionar silenciosamente ou a servir conteúdo malicioso a clientes selecionados.

Cronologia e atribuição: confiança média, não certeza

MomentoFacto
Novembro de 2024Lançamento do build HAProxy 2.8.12-0fdb194, que fixa a data de compilação mais antiga possível para este implante
Nov. 2024 – fev. 2025Período da Operation SyncHole, campanha do Lazarus documentada pela Kaspersky, em que sites de media sul-coreanos foram comprometidos para redirecionar visitantes
Início de 2025Data provável do início das campanhas com este toolkit, segundo a Rapid7
Meados de 2025Primeiros carregamentos de amostras para o VirusTotal
Julho de 2026Acesso inicial semelhante reportado pela ENKI WhiteHat, sugerindo que a exploração poderá continuar em curso

A atribuição deve ser lida com prudência. A Rapid7 atribui o toolkit com confiança média a APT norte-coreanos, com base na vitimologia sul-coreana, no uso de cifra XOR simples e de uma cifra de substituição própria, e no facto de a lista de C2 codificada estar associada ao APT37 pelo ThreatFox e pelo maltrail. A empresa afirma que são necessárias mais provas para uma avaliação mais definitiva. A investigação também não conseguiu estabelecer uma linha temporal firme nem determinar o acesso inicial; ambas as vítimas tinham um servidor web de fronteira com as portas 80, 443 e 25 expostas, com um portal de groupware em 443 e um servidor de correio em 25.

Indicadores de comprometimento

TipoIndicador
Domínios C2img.darklights.store, img.monderhouse.space, img.smartnords.site, img.responsive.pstatic.autos, img.socialteams.store, img.worksongo.store
Ficheiros e caminhos~/cache/haproxy-1000.cache, ~/cache/haproxy-1001.cache, /tmp/jasper-log
Credenciais capturadas/var/lib/sshd/c8c68e629bba773a10ac80012d10bf19
Ativação de C2Pedidos a /favorite_list_2x_m500_ico.jpg

Uma ressalva importante para as equipas de resposta a incidentes: os domínios divulgados já não resolvem, pelo que são sobretudo úteis para revisão de registos históricos e não para bloqueio de tráfego em tempo real.

O que fazer: deteção e mitigação

A Rapid7 recomenda correlação de rede, análise comportamental de memória e verificações de integridade dos binários. Há, porém, uma limitação a assumir desde já: o relatório não publica regras de deteção para essa última verificação e um HAProxy recompilado apresenta a mesma string de versão que um build limpo. As medidas práticas passam por:

  • Rever sistemas de fronteira que tratem tráfego web, cifra, correio ou módulos em tempo de execução; comparar os binários do HAProxy e dos serviços Linux com versões conhecidas; inspecionar bibliotecas partilhadas inesperadas e alterações no cron; e rodar credenciais que possam ter passado por servidores afetados.
  • Recorrer a monitorização de rede independente, uma vez que os registos no equipamento comprometido podem ter sido alterados.
  • Investigar pedidos anómalos a caminhos que aparentam ser imagens, ligações de saída inesperadas a partir de balanceadores e respostas web que mudam apenas para determinados visitantes.
  • Manter servidores de groupware e de correio atualizados, reduzindo as oportunidades prováveis de entrada.
  • Segmentar a rede para limitar o acesso do HAProxy a recursos internos sensíveis e reforçar auditorias de credenciais e autenticação multifator.

Porque é que isto importa em Portugal

Nenhuma vítima portuguesa foi identificada e a campanha é geograficamente circunscrita à Coreia do Sul. A lição, contudo, é transversal: balanceadores de carga, reverse proxies, servidores de correio e portais de colaboração expostos são hoje alvos de primeira linha, precisamente por serem componentes de confiança onde o tráfego surge já desencriptado. Muitas PME portuguesas operam HAProxy, Nginx ou appliances equivalentes na fronteira da rede sem qualquer mecanismo de verificação de integridade dos binários — exatamente o cenário que este toolkit explora.

Para as entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), este tipo de intrusão toca em vários pilares das medidas de gestão de risco exigidas: segurança na aquisição e manutenção de sistemas, políticas de deteção e registo, gestão de acessos privilegiados e capacidade de notificação de incidentes ao CNCS/CERT.PT nos prazos legais. Um implante concebido para apagar o próprio rasto nos contadores e nos registos põe à prova, na prática, a qualidade da telemetria independente de cada organização.

Há ainda um ângulo de proteção de dados. Um backdoor capaz de recolher cookies de sessão, credenciais e conteúdo de pedidos HTTP representa uma violação de dados pessoais na aceção do RGPD, com obrigação de notificação à CNPD em 72 horas quando existir risco para os titulares — e, se a manipulação de páginas servir malware a visitantes, o impacto estende-se aos clientes da organização. Setores como o automóvel e os media não foram escolhidos ao acaso: propriedade intelectual industrial e acesso a audiências são objetivos clássicos de espionagem estatal, e ambos existem em Portugal.

Perguntas frequentes

O HAProxy tem uma vulnerabilidade que devo corrigir?

Não. Não se trata de uma vulnerabilidade do HAProxy: a instalação do implante exige que o atacante já tenha execução de código no servidor e consiga substituir o binário em execução. Não foi publicado qualquer CVE associado a esta campanha.

Como sei se o meu balanceador foi adulterado?

A Rapid7 aponta para correlação de rede, análise comportamental de memória e verificação de integridade dos binários. Compare os binários instalados com pacotes de origem confiável, verifique o cron e as bibliotecas partilhadas e recolha telemetria de rede a partir de sensores externos ao próprio equipamento.

Quem está por trás desta campanha?

A Rapid7 Labs atribui o conjunto de ferramentas com confiança média a atores estatais norte-coreanos e afirma que são precisas mais provas para uma avaliação definitiva. Existem sobreposições apontadas com infraestrutura associada ao APT37 e com atividade do Lazarus, mas nada está confirmado de forma conclusiva.

Bloquear os domínios divulgados resolve o problema?

Não é suficiente. Os domínios listados deixaram de resolver, servindo sobretudo para pesquisa retroativa em registos históricos e não para bloqueio de tráfego ativo. A prioridade deve ser a verificação de integridade dos servidores de fronteira e a rotação de credenciais.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Rapid7 Labs e por investigadores de segurança que analisaram a campanha.