A Anthropic começou a avisar utilizadores do Claude de que sessões de autenticação ativas foram furtadas dos seus computadores por malware do tipo infostealer e estão a ser reutilizadas por terceiros para aceder às contas e consumir os limites de utilização. A empresa está a terminar sessões dos utilizadores afetados, a remover métodos de pagamento guardados e a reembolsar cobranças que identifica como não autorizadas. Não se trata de uma falha na plataforma: o ponto de compromisso é o equipamento do utilizador, e o mesmo padrão aplica-se a qualquer serviço web que dependa de cookies de sessão.
Resposta rápida: Malware ladrão de informação instalado em computadores de utilizadores copiou sessões autenticadas do Claude, permitindo a terceiros usar as contas sem palavra-passe nem segundo fator. A Anthropic está a invalidar sessões, a retirar meios de pagamento guardados e a reembolsar cobranças indevidas, sublinhando que não há indícios de que a infeção tenha origem no próprio serviço. Se notou limites de utilização a esgotarem-se sem os usar, analise o equipamento com uma solução de segurança atualizada, termine todas as sessões, mude palavras-passe a partir de um dispositivo limpo e reative a autenticação multifator.
O que foi comunicado aos utilizadores afetados
O aviso está a ser enviado por email às contas comprometidas. Segundo a mensagem partilhada publicamente por um utilizador no Reddit, a empresa refere ter tomado conhecimento de um agente malicioso que usa infostealers comuns para roubar sessões de início de sessão do Claude a partir dos computadores das pessoas e depois aceder às contas e consumir a respetiva utilização. A comunicação acrescenta um sinal prático: se os limites de utilização pareceram renovar-se e esgotar-se enquanto o utilizador não estava a usar o serviço, esta será provavelmente a causa.
A investigação continua em curso, mas a leitura da empresa é a de que os equipamentos já estariam infetados com malware genérico de roubo de informação. A Anthropic sublinha não ter razões para acreditar que este malware esteja relacionado com o Claude, tenha sido instalado através do Claude ou resulte de alguma ação do utilizador dentro do serviço. De acordo com a mesma comunicação, este tipo de malware chega normalmente através de transferências ou aplicações maliciosas e recolhe informação guardada localmente — palavras-passe do navegador, cookies de sessão e credenciais de outras aplicações —, sendo a sessão do Claude apenas mais um dos muitos elementos recolhidos, que um agente malicioso passou agora a selecionar e a utilizar.
Porque é que uma sessão roubada anula a palavra-passe e o 2FA
O detalhe técnico decisivo é este: o atacante não precisa de saber a palavra-passe. Quando um utilizador inicia sessão num serviço web, o navegador guarda um token ou cookie que serve de prova de autenticação. Se esse ficheiro for copiado para outro computador e injetado num navegador controlado pelo atacante, o serviço reconhece a sessão como legítima. Como notam os relatos sobre este caso, os infostealers conseguem copiar uma sessão já autenticada, o que significa que o atacante pode não ter de passar pelo fluxo habitual de palavra-passe e autenticação em dois passos.
Esta técnica é conhecida como pass-the-cookie ou roubo de cookie de sessão web e está catalogada na matriz MITRE ATT&CK sob o identificador T1539. É por isso que, perante uma suspeita de infeção, mudar apenas a palavra-passe é insuficiente: enquanto a sessão antiga não for invalidada do lado do servidor, o acesso do atacante mantém-se.
Sinais de alerta a verificar na sua conta
- Limites de utilização esgotados em períodos em que não usou o serviço.
- Conversas, projetos ou histórico que não reconhece.
- Cobranças, atualizações de plano ou compras de créditos não solicitadas.
- Sessões ativas em localizações, dispositivos ou navegadores desconhecidos.
- Alertas de início de sessão ou de alteração de definições que não desencadeou.
Plano de resposta por ordem de prioridade
A ordem das ações importa. Repor credenciais a partir de um computador ainda infetado equivale a entregar as novas credenciais ao mesmo malware.
| Prioridade | Ação | Porquê |
|---|---|---|
| 1 | Isolar e analisar o equipamento com solução antimalware atualizada | Enquanto o infostealer estiver ativo, qualquer nova sessão volta a ser roubada |
| 2 | Terminar todas as sessões ativas em todos os dispositivos | Invalida os cookies já exfiltrados |
| 3 | Alterar palavras-passe a partir de um dispositivo comprovadamente limpo | Evita reinfeção imediata das credenciais novas |
| 4 | Reforçar a autenticação multifator, de preferência com chaves de acesso ou tokens físicos | Reduz o valor de credenciais isoladas em futuras fugas |
| 5 | Rodar chaves de API, tokens de programador e credenciais de outros serviços no mesmo navegador | O malware recolhe tudo o que está guardado localmente, não apenas um serviço |
| 6 | Rever movimentos no cartão e faturação do serviço | Permite detetar e contestar cobranças não autorizadas |
Em contexto empresarial, acrescente a revisão de acessos de contas partilhadas, a verificação de registos de autenticação e, se aplicável, a reinstalação do sistema operativo do posto afetado. Contas de trabalho usadas em máquinas pessoais são um vetor recorrente neste tipo de compromisso.
A marca Claude tem sido usada como isco
Embora este caso concreto não tenha origem na plataforma, investigadores têm documentado ao longo de 2026 várias campanhas que exploram a popularidade das ferramentas de IA para distribuir precisamente este tipo de malware. A Zscaler descreveu repositórios GitHub falsos que prometem versões «fugidas» do Claude Code e que distribuem uma dupla carga maliciosa — o infostealer Vidar e o malware GhostSocks —, com repositórios preparados para parecerem credíveis através de convenções de nomenclatura, formatação de README e contagens de estrelas semelhantes às de projetos legítimos.
A Straiker, por seu turno, acompanhou uma campanha que imitava páginas do Claude Code, do JetBrains e do NotebookLM em dezenas de domínios distribuídos por várias plataformas de alojamento, com um infostealer orientado especificamente para chaves de API de assistentes de programação com IA, além dos alvos habituais como navegadores e carteiras de criptomoedas. Foi também reportada uma campanha analisada pela Cyderes em que, através de envenenamento de resultados de pesquisa, os utilizadores eram levados a páginas falsas da Anthropic e instruídos a colar um comando na caixa «Executar» do Windows — o padrão conhecido como ClickFix.
A lição operacional é simples e repete-se: instalar ferramentas de IA apenas a partir dos domínios oficiais dos fabricantes, desconfiar de anúncios patrocinados em motores de busca e nunca colar comandos copiados de páginas web em terminais ou na caixa de execução do sistema.
Contas de IA valem agora como credenciais corporativas
O que este episódio ilustra é a mudança de estatuto das contas de IA no mercado criminoso. Uma subscrição com limites generosos é revendível, permite processar tarefas maliciosas com custos suportados por terceiros e dá acesso a um histórico de conversas que pode conter código proprietário, dados de clientes ou documentos internos. O impacto imediato — limites esgotados — é o sintoma mais visível, mas raramente o mais grave.
O ecossistema dos infostealers é hoje um dos motores da economia do cibercrime, alimentando mercados de credenciais e o trabalho dos corretores de acesso inicial. O Panorama de Ameaças da ENISA relativo a 2025 analisou 4875 incidentes entre 1 de julho de 2024 e 30 de junho de 2025 e documenta a utilização de infostealers de mercado inclusive por grupos associados a Estados, sinal de que esta classe de malware deixou de ser um problema exclusivo do consumidor doméstico.
Porque é que isto importa às organizações em Portugal
Para PME e organizações nacionais, o cenário mais preocupante não é a fatura inflacionada, mas o que mais foi recolhido no mesmo posto de trabalho: credenciais de VPN, acessos a correio eletrónico, painéis de gestão e chaves de API. Se do histórico de conversas ou dos serviços comprometidos resultarem dados pessoais expostos, aplicam-se as obrigações do RGPD, incluindo a avaliação do risco para os titulares e, quando aplicável, a notificação à CNPD no prazo de 72 horas.
As entidades abrangidas pelo Regime Jurídico da Cibersegurança, que transpõe a diretiva NIS2, devem ainda enquadrar este tipo de compromisso nos respetivos processos de gestão de risco e de notificação de incidentes ao CNCS. Na prática, três medidas reduzem drasticamente a exposição: proibir a utilização de contas profissionais de IA em equipamentos pessoais não geridos, encurtar o tempo de vida das sessões em serviços críticos e monitorizar mercados de stealer logs em busca de credenciais da organização. O CERT.PT mantém canais de apoio para reporte e resposta a incidentes que envolvam roubo de credenciais.
Perguntas frequentes
A plataforma Claude foi pirateada?
Não. A Anthropic afirma não ter razões para acreditar que o malware esteja relacionado com o Claude ou tenha sido instalado através do serviço. O compromisso ocorre no computador do utilizador, onde o malware copia sessões e credenciais guardadas localmente.
Mudar a palavra-passe resolve o problema?
Só parcialmente e apenas se for feito na ordem certa. Primeiro é preciso remover o malware do equipamento e terminar todas as sessões ativas; só depois faz sentido alterar a palavra-passe, de preferência a partir de um dispositivo limpo.
A autenticação em dois passos protege contra este ataque?
Não impede a reutilização de uma sessão já autenticada que tenha sido roubada, porque o atacante reaproveita a prova de autenticação em vez de iniciar sessão de novo. Continua a ser essencial, mas deve ser combinada com sessões de menor duração e revogação rápida de acessos.
Como saber se a minha conta foi usada por terceiros?
O indício mais direto apontado pela empresa é a utilização a esgotar-se em períodos em que não estava a usar o serviço. Verifique também conversas desconhecidas, sessões ativas em dispositivos que não reconhece e cobranças inesperadas.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Anthropic, por investigadores de segurança como a Zscaler e a Straiker, e pela ENISA.
