O seu Android desligou a Google Play sozinho? Pode ser o ToxicPanda 2.0

Uma nova geração de um trojan bancário para Android com historial de infeções em Portugal acaba de ser documentada por investigadores de segurança. A equipa zLabs da Zimperium publicou a 19 de agosto de 2026 uma análise do ToxicPanda 2.0, uma versão profundamente reescrita do malware que a empresa apresentou como uma evolução significativa das capacidades técnicas e da escala da campanha de fraude. A nova variante suporta 167 comandos remotos e sobreposições de phishing dirigidas a 349 aplicações bancárias, financeiras, de criptomoedas e carteiras digitais em 16 países, além de um módulo separado de captura de PIN que visa 140 aplicações e cuja lista de alvos pode ser atualizada dinamicamente. Para efeitos de comparação, a investigação original da Cleafy, em 2024, identificara uma botnet com mais de 1500 dispositivos infetados em Itália, Portugal, Espanha e América Latina, visando 16 instituições bancárias.

Resposta rápida: O ToxicPanda 2.0 é um trojan bancário para Android que se instala fora da Google Play e pede permissões de VPN para bloquear a comunicação da loja e dos serviços Google, instalando depois a carga maliciosa escondida na aplicação. Abusa dos Serviços de Acessibilidade para sobrepor ecrãs falsos a 349 aplicações financeiras e capturar PIN em mais de 140 aplicações, incluindo o código de desbloqueio do próprio telemóvel. Não instale aplicações fora da Google Play, revogue permissões de acessibilidade e de VPN que não reconheça e, em caso de suspeita, contacte o seu banco e reporte ao CERT.PT.

De 16 para 349 aplicações: o salto de escala

O ToxicPanda não é uma novidade absoluta. A Cleafy descreveu-o publicamente em novembro de 2024 e a família ficou conhecida por representar uma mudança geográfica invulgar: operadores associados a atores de língua chinesa a dirigirem-se a bancos europeus e latino-americanos. Segundo a Cleafy, a propagação assentava em engenharia social que levava as vítimas a instalar a aplicação lateralmente (sideloading) e, uma vez instalada, o malware explorava os serviços de acessibilidade do Android para obter permissões elevadas e executar ações não autorizadas.

Em 2025, a Bitsight TRACE acompanhou a evolução da família e documentou melhorias como a integração de um algoritmo de geração de domínios (DGA) para reforçar a resiliência da infraestrutura, técnicas melhoradas de evasão a sandbox, conjuntos de comandos alargados, mecanismos de persistência refinados e rotinas de cifra atualizadas. Essa mesma investigação apontava a distribuição por país com Itália à cabeça, seguida de Portugal.

AspetoToxicPanda (2024, Cleafy)ToxicPanda 2.0 (2026, Zimperium zLabs)
Alvos financeiros16 instituições bancárias349 aplicações bancárias, financeiras, de carteiras digitais e cripto
Abrangência geográficaItália, Portugal, Espanha e América Latina16 países
Comandos remotosConjunto limitado, com funções por implementar167 comandos, incluindo funções antes inativas
Captura de PINNão documentada nesta formaMódulo dedicado com mais de 140 aplicações-alvo
Escalada de privilégiosBaseada em acessibilidadeAutomação da Depuração Sem Fios (ADB) para acesso shell

Como decorre a infeção, passo a passo

A cadeia de ataque descrita pela Zimperium começa com um dropper — uma aplicação aparentemente inofensiva que serve apenas para instalar a verdadeira ameaça. Segundo os investigadores, o malware pede privilégios de serviço VPN para bloquear a comunicação de rede da Google Play e dos Google Play Services no dispositivo da vítima, apresentando para isso um ecrã de instalação falso numa WebView; preparado o terreno, decifra e extrai a carga real guardada na pasta de assets da aplicação e avança com a instalação. Só depois solicita as permissões de Serviços de Acessibilidade.

O truque da VPN é o detalhe mais engenhoso: em vez de tentar desativar proteções, o malware limita-se a interpor-se no tráfego local para silenciar os canais que poderiam sinalizar a aplicação. Quanto à distribuição, a Zimperium indica que o ToxicPanda 2.0 tem sido difundido através de buckets alojados na Amazon AWS.

FaseO que acontece no dispositivo
1. EntregaFicheiro APK obtido fora da Google Play, alojado em armazenamento na nuvem
2. Falsa instalaçãoEcrã em WebView pede permissão de serviço VPN
3. SilenciamentoBloqueio da comunicação da Google Play e dos Google Play Services
4. Instalação da cargaDecifra e instala o payload escondido na pasta assets
5. AcessibilidadePedido de Serviços de Acessibilidade para leitura e automação do ecrã
6. ReconhecimentoEnvio de nomes de pacote e ícones das apps instaladas para o C2
7. FraudeSobreposições HTML, captura de PIN e controlo remoto via WebSocket

Dois caminhos para roubar credenciais

Depois de instalado, o trojan inventaria as aplicações presentes e envia nomes de pacote e ícones para o servidor de comando e controlo; quando a vítima abre uma aplicação financeira visada, os operadores podem entregar uma sobreposição HTML de phishing desenhada para imitar o ecrã de início de sessão ou de transação. Em paralelo, o malware monitoriza a aplicação em primeiro plano através dos Serviços de Acessibilidade e pode usar sobreposições transparentes para recolher os toques introduzidos pela vítima — camadas que, segundo os investigadores, são invisíveis para o utilizador.

A flexibilidade operacional também aumentou: através do comando replacePinTargets, os operadores podem substituir remotamente nomes de pacote e palavras-chave dos alvos, adaptando campanhas sem produzir uma nova versão do malware. E há uma novidade particularmente incómoda: o relatório indica que o malware consegue roubar as credenciais do ecrã de bloqueio, colocando sobreposições por cima desse ecrã. Na prática, isso significa entregar ao atacante o PIN, padrão ou palavra-passe do próprio telemóvel.

Depuração sem fios: uma porta lateral pouco vigiada

O elemento tecnicamente mais relevante desta versão é o abuso de uma funcionalidade que a maioria dos utilizadores nunca tocou. A zLabs descreve que o ToxicPanda 2.0 abusa dos Serviços de Acessibilidade para automatizar o processo de configuração da Depuração Sem Fios do Android, funcionalidade introduzida no Android 11 para ligações ADB por Wi-Fi. O resultado, segundo o relatório, é um mecanismo automatizado baseado em cliques que permite escalada de privilégios e acesso ao nível da shell nos dispositivos comprometidos.

Com acesso shell, muitas das barreiras habituais deixam de existir: torna-se possível executar comandos que contornam os fluxos normais de consentimento em tempo de execução, alargar permissões, reduzir restrições em segundo plano, ativar componentes e reforçar a persistência. A automação estende-se ainda às particularidades de cada fabricante: a capacidade catAllViewSwitch consegue identificar caixas de diálogo de permissões do sistema, avisos de otimização de bateria e definições de arranque automático específicas do fabricante, interagindo com elas através dos Serviços de Acessibilidade. Quanto às comunicações, o malware fala com o C2 através de um handshake HTTPS seguido de um canal WebSocket persistente, dando aos operadores execução de comandos bidirecional e de baixa latência.

Indicadores e medidas de mitigação

A Zimperium publicou uma lista de indicadores de compromisso associados a esta versão num repositório GitHub, que deve ser a referência para equipas de segurança que queiram alimentar SIEM, MISP ou plataformas de MTD. Do lado do utilizador e das equipas de TI, valem sobretudo os indicadores comportamentais:

  • Ícone de VPN ativo sem que exista uma VPN corporativa ou pessoal configurada.
  • Falhas persistentes de ligação da Google Play Store ou dos Google Play Services.
  • Aplicações desconhecidas com Serviços de Acessibilidade ativos em Definições > Acessibilidade.
  • Depuração sem fios ativada sem intervenção do utilizador, nas Opções de Programador.
  • Ecrãs de início de sessão bancários com aspeto ligeiramente diferente do habitual, ou pedidos inesperados de PIN.
  • Consumo anómalo de bateria e dados, ou exclusão da aplicação das otimizações de bateria sem autorização consciente.

Medidas práticas: instalar aplicações apenas a partir da Google Play ou de lojas de fabricante; manter o Play Protect ativo e verificar periodicamente se não foi desativado; nunca conceder acessibilidade a aplicações que não a justifiquem funcionalmente; desativar as Opções de Programador e a depuração sem fios; e, em ambiente empresarial, bloquear o sideloading por política de MDM. Em caso de suspeita de infeção, o mais seguro é isolar o dispositivo da rede, contactar o banco para suspender operações, alterar credenciais a partir de outro equipamento e efetuar reposição de fábrica.

Porque é que isto importa em Portugal

Portugal não é um espetador distante nesta história. A Cleafy indicou que o ToxicPanda visava sobretudo banca de retalho em Android e que a infeção se espalhou por Itália, Portugal, Espanha e algumas regiões da América Latina. Com um universo de alvos que passou de 16 para 349 aplicações, a probabilidade de aplicações usadas por clientes portugueses figurarem na lista aumenta substancialmente — ainda que a Zimperium não tenha publicado a lista nominal de instituições.

Para as empresas, o problema deixou de ser apenas de fraude ao consumidor. Um telemóvel pessoal usado para aceder a correio eletrónico corporativo, autenticação multifator ou aplicações internas passa a ser um endpoint comprometido com acesso shell nas mãos de terceiros. Isso tem implicações diretas no Regime Jurídico da Cibersegurança (Decreto-Lei n.º 125/2025, que transpõe a NIS2), que exige às entidades abrangidas medidas de gestão de risco proporcionais e notificação de incidentes significativos ao CNCS. Dispositivos móveis e política de BYOD entram nesse perímetro de gestão de risco. Se houver acesso indevido a dados pessoais de clientes ou colaboradores, aplicam-se ainda as obrigações do RGPD, incluindo a avaliação de notificação à CNPD no prazo de 72 horas e a comunicação aos titulares quando exista risco elevado.

Para cidadãos e PME, a recomendação prática mantém-se simples e é a mesma que o CNCS repete há anos a propósito de esquemas de engenharia social: desconfiar de pedidos inusitados, confirmar por canal alternativo qualquer ação crítica e reportar. O CNCS aconselha que, em caso de vitimização, sejam contactados o CERT.PT ([email protected]) e a Polícia Judiciária ([email protected]).

Perguntas frequentes

O ToxicPanda 2.0 está na Google Play?

Não há indicação disso. Segundo a Zimperium, a distribuição desta versão tem sido feita através de ficheiros alojados em armazenamento na nuvem, com instalação lateral pelo próprio utilizador. O malware chega a pedir permissões de VPN precisamente para bloquear a comunicação da Google Play e dos Google Play Services no dispositivo.

Como sei se o meu telemóvel está infetado?

Sinais a vigiar incluem um ícone de VPN ativo sem VPN configurada, falhas persistentes da Google Play Store, aplicações desconhecidas com Serviços de Acessibilidade ativos e a depuração sem fios ligada sem que a tenha ativado. Se detetar algum destes sinais, isole o dispositivo da rede e contacte o seu banco.

A autenticação multifator protege-me deste malware?

Ajuda, mas não é suficiente quando o segundo fator vive no mesmo telemóvel comprometido. Como o trojan lê o ecrã e controla o dispositivo remotamente, códigos por SMS ou aplicações no mesmo aparelho perdem eficácia. Chaves físicas FIDO2 ou confirmações num segundo dispositivo separado oferecem proteção mais robusta.

O que deve fazer uma PME se um telemóvel de trabalho for infetado?

Isolar o dispositivo, revogar sessões e credenciais associadas a partir de outro equipamento, repor o telemóvel de fábrica e avaliar se houve acesso a dados pessoais. Se a organização estiver abrangida pelo Regime Jurídico da Cibersegurança, deve avaliar o dever de notificação ao CNCS; havendo dados pessoais afetados, aplica-se também a avaliação de notificação à CNPD.

Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Zimperium zLabs, pela Cleafy, pela Bitsight TRACE e pelo CNCS/CERT.PT.