Investigadores da Malwarebytes descreveram uma campanha de burla que recorre a janelas pop-up em ecrã inteiro para convencer o utilizador de que a sua conta Apple ou Amazon acabou de ser usada numa compra não autorizada no valor exato de 149,99 dólares. A mensagem imita o aspeto oficial das marcas, exibe um ícone de aviso e um número de telefone para ligar de imediato — mas trata-se de uma fraude concebida para gerar pânico e levar a vítima a telefonar. Do outro lado da linha está um falso agente de apoio, cujo objetivo é obter acesso remoto ao dispositivo, extrair dados de conta ou de pagamento, ou empurrar a vítima para o pagamento de taxas fictícias.
Resposta rápida: Um pop-up alega uma compra não autorizada de 149,99 € (ou dólares) na sua conta Apple ou Amazon e pede que ligue para um número. É burla. Nem a Apple nem a Amazon avisam de atividade suspeita através de pop-ups no navegador nem pedem que ligue para «cancelar» uma cobrança. Não ligue, feche o navegador e, em caso de dúvida, verifique diretamente na aplicação ou no site oficial.
O mesmo esquema com logótipos diferentes
O elemento mais revelador desta campanha é a sua estrutura reciclada. Segundo a Malwarebytes, ao colocar dois destes pop-ups lado a lado — um mascarado de suporte da Apple, outro da Amazon — a estrutura é idêntica: um ícone de aviso, a alegação de uma compra de 149,99 dólares feita «via Pré-Autorização» e um número de telefone para ligar imediatamente. Ainda mais elucidativo é o facto de esse número de telefone ser exatamente o mesmo em ambos. Por outras palavras, os autores trocam apenas o logótipo e a paleta de cores, mantendo o resto do golpe intacto.
A escolha do valor não é aleatória. De acordo com a Malwarebytes, um valor de 149,99 dólares é suficientemente elevado para alarmar, mas baixo o bastante para soar a uma subscrição ou produto real, e não a uma mentira óbvia. A expressão «Pré-Autorização» (Pre-Authorization) acrescenta uma camada de aparente legitimidade, por ser terminologia de pagamentos genuína. É esta combinação de credibilidade e urgência que torna o esquema eficaz.
O que acontece se ligar
O pop-up é apenas o isco. O verdadeiro golpe começa no telefonema. Conforme descreve a Malwarebytes, se ligar, o número liga-o a um burlão ao vivo que finge ser pessoal de apoio, cujo verdadeiro objetivo é obter acesso remoto ao dispositivo, conduzi-lo a «verificar» a identidade de forma que entrega dados reais de conta ou pagamento, ou empurrá-lo para pagar uma taxa falsa — frequentemente através de cartões-presente ou transferência bancária.
Este padrão não é novo. As autoridades norte-americanas já tinham documentado variantes deste esquema há vários anos, em que os falsos representantes chamam a atenção com mensagens sobre atividade suspeita ou compras não autorizadas e, quando a vítima liga, um representante fingido induz a concessão de acesso remoto ao computador ou telefone, alegadamente para resolver o problema e devolver o dinheiro. A partir daí, é comum a técnica do «reembolso a mais»: simulam ter creditado dinheiro em excesso, com uns zeros a mais teclados por engano, para exigir que a vítima «devolva» a diferença.
Como distinguir o falso do verdadeiro
A Malwarebytes sublinha alguns testes que funcionam independentemente da marca imitada. Primeiro, a Apple e a Amazon notificam sobre atividade da conta por e-mail, notificações na aplicação ou no registo de atividade da conta — nunca através de um pop-up inesperado durante a navegação. Segundo, nenhuma empresa legítima lhe diz para telefonar para um número a fim de travar uma cobrança; a contestação de uma cobrança faz-se através do banco, do emissor do cartão ou do painel de conta real da empresa — não de uma linha ditada por um pop-up.
Se recebeu um destes avisos, os passos são simples e concretos:
- Não ligue para o número indicado no pop-up nem em e-mails ou SMS não solicitados.
- Feche a janela do navegador ou termine o processo do navegador. Se o pop-up impedir o fecho, force o encerramento da aplicação.
- Verifique o histórico de compras diretamente na aplicação ou no site oficial da Apple ou da Amazon, escrevendo o endereço à mão.
- Nunca conceda acesso remoto ao seu dispositivo a quem quer que ligue neste contexto.
- Nunca pague «taxas» com cartões-presente nem transferências bancárias — é sinal quase certo de fraude.
- Ative a autenticação de múltiplo fator nas suas contas Apple e Amazon.
Por que razão a Amazon e a Apple são alvos preferidos
A escolha destas marcas segue uma lógica de escala. A Malwarebytes recorda que a Amazon terá cerca de 310 milhões de clientes ativos, o que a torna uma marca digna de ser personificada, e isso reflete-se no volume de burlas que usam o seu nome. Do lado das estatísticas oficiais, a Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) já tinha identificado a Amazon como a empresa mais imitada por burlões: entre julho de 2020 e junho de 2021, cerca de uma em cada três pessoas que denunciaram um impostor empresarial disse que o burlão alegava ser a Amazon. A Apple surgia então como a segunda empresa mais reportada, ainda que a uma distância considerável.
Estes esquemas tendem a afetar sobretudo pessoas mais velhas. A FTC observou que pessoas com 60 anos ou mais tinham mais de quatro vezes mais probabilidade do que as mais novas de reportar perdas de dinheiro a um impostor da Amazon. Vale a pena partilhar estes avisos com familiares mais vulneráveis a este tipo de pressão.
Porque importa em Portugal
Embora os valores citados pela Malwarebytes surjam em dólares, o esquema é transversal e adapta-se facilmente ao mercado europeu, com montantes em euros e versões em português. O Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS), através do CERT.PT, tem alertado repetidamente para campanhas que combinam smishing, vishing e spoofing, técnicas que aproveitam o smartphone como superfície de ataque — precisamente os ingredientes deste golpe de «cobrança não autorizada».
Entre as boas práticas que o CNCS recomenda contam-se não clicar em links e anexos de mensagens suspeitas, suspeitar de solicitações de códigos e credenciais sob pretextos de urgência, nunca partilhar códigos e credenciais por mensagem ou telefone, confirmar a autenticidade do pedido junto da entidade através de outro canal e ativar o múltiplo fator de autenticação em todas as contas. Se foi vítima e houve prejuízo, o caminho em Portugal passa por duas frentes: reportar a componente técnica ao CERT.PT e, havendo crime e dano, apresentar queixa junto da Polícia Judiciária ou através do Portal de Queixa Eletrónica.
Para cidadãos, o risco é sobretudo o roubo de credenciais e de dados de pagamento, protegidos ao abrigo do RGPD. Para PME e organizações, o mesmo tipo de engenharia social pode servir de porta de entrada para comprometimentos mais graves — um cenário que ganha novo enquadramento legal com o Regime Jurídico da Cibersegurança, aprovado pelo Decreto-Lei n.º 125/2025, de 4 de dezembro, que transpõe a Diretiva NIS2 e entrou em vigor a 3 de abril de 2026, reforçando as obrigações de gestão de risco e de notificação de incidentes para as entidades abrangidas.
Perguntas frequentes
A Apple ou a Amazon avisam de compras não autorizadas por pop-up?
Não. Segundo a Malwarebytes, estas empresas notificam a atividade da conta por e-mail, notificações na aplicação ou no registo de atividade da conta, nunca através de um pop-up inesperado durante a navegação. Qualquer aviso deste tipo com um número para ligar deve ser tratado como fraude.
Já liguei para o número. O que devo fazer?
Desligue de imediato e não conceda acesso remoto nem partilhe dados. Se forneceu informação de conta ou pagamento, altere as palavras-passe, ative a autenticação de múltiplo fator e contacte o seu banco. Havendo prejuízo, apresente queixa à Polícia Judiciária e reporte a burla ao CERT.PT.
Como confirmo se a cobrança é real?
Verifique diretamente no histórico de compras da aplicação ou do site oficial, escrevendo o endereço à mão, e confirme os movimentos no extrato do seu cartão ou banco. Nunca use números de telefone ou links fornecidos pelo pop-up ou por mensagens não solicitadas.
Porque pedem pagamento em cartões-presente?
Porque os cartões-presente e as transferências bancárias são difíceis de reverter e de rastrear. Nenhuma empresa legítima exige o pagamento de taxas por estes meios; um pedido deste género é um dos sinais mais fiáveis de que está perante uma fraude.
Esta informação tem caráter noticioso e baseia-se em dados divulgados publicamente pela Malwarebytes, pela Comissão Federal de Comércio dos EUA (FTC) e pelo Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS/CERT.PT).
