Tecnologia desenhada para cibersegurança pode ser uma ciberameaça, admite a própria criadora. Autoridades financeiras mundiais estão preocupadas.
A Anthropic lançou este mês o Mythos e apresentou-o como o seu modelo de inteligência artificial mais avançado até agora, mas isso não são necessariamente boas notícias.
Concebido para tarefas defensivas de cibersegurança, o “recém-nascido” Mythos já começou a alimentar uma vaga de preocupação, nomeadamente por, potencialmente, vir a ultrapassar a capacidade de resposta das equipas de segurança tradicionais.
Segundo a Anthropic, o modelo, em pré-visualização, conseguiu identificar milhares de vulnerabilidades graves em praticamente todos os grandes sistemas operativos e navegadores web. A própria empresa alerta que esta capacidade, embora possa ser usada para reforçar a defesa digital, também poderá representar grandes riscos para a economia, a segurança pública e a segurança nacional se for explorada de forma abusiva.
O acesso ao Claude Mythos Preview foi inicialmente limitado através de uma iniciativa controlada, designada “Project Glasswing”, de acordo com a Reuters. Entre as organizações com acesso à IA estão gigantes tecnológicas como Amazon, Microsoft, Nvidia e Apple, bem como mais de 40 entidades responsáveis pelo desenvolvimento ou manutenção de infraestruturas críticas de software.
Os receios centram-se sobretudo na possibilidade de o Mythos conseguir descobrir e explorar falhas até agora desconhecidas a uma velocidade superior àquela com que as empresas conseguem corrigi-las.
Especialistas sublinham que as capacidades avançadas de programação e autonomia da tecnologia podem acelerar ciberataques sofisticados, sobretudo em sec+tores como o da banca.
O impacto destas preocupações já se fez sentir nos mercados. No dia 9 de Abril, as ações de empresas norte-americanas de software caíram após o lançamento do Mythos, a 7 de Abril, reacendendo receios sobre o efeito disruptivo da IA sobre empresas tecnológicas tradicionais.
Nos Estados Unidos, a Casa Branca reuniu-se com o CEO da Anthropic, Dario Amodei, para discutir cooperação, cibersegurança e o equilíbrio entre inovação e segurança — aconteceu apesar de o Pentágono ter atribuído à Anthropic uma designação formal de risco na cadeia de fornecimento. Segundo a Bloomberg, o governo norte-americano prepara ainda a disponibilização de uma versão do Mythos a grandes agências federais.
A Europa também se começa a preocupar. No Reino Unido, as autoridades abriram conversações com bancos e responsáveis de cibersegurança. Também a Austrália e da Coreia do Sul estão a acompanhar com crescente preocupação o novo modelo de inteligência artificial.
Para já, não foi anunciada qualquer medida regulatória formal.