Cibersegurança como nova frente de poder. Governos reforçam arsenal digital e passam ao ataque


Num cenário internacional cada vez mais tenso, há uma frente de conflito que raramente se vê, mas ganha peso todos os dias. Não envolve tropas nem território, mas código, dados e infraestruturas críticas. É nesse campo invisível que os governos estão a redefinir estratégias.

A cibersegurança está a deixar de ser apenas uma questão técnica para passar a integrar diretamente a estratégia geopolítica dos Estados. A conclusão é da mais recente edição do “Radar Global de Políticas Cibernéticas” da NCC Group, que aponta para uma mudança clara: governos de várias regiões estão a reforçar não só as suas defesas, mas também capacidades ofensivas no ciberespaço.

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Segundo a consultora, o agravamento das tensões internacionais, aliado à rápida adoção de tecnologias como a inteligência artificial, está a transformar profundamente o enquadramento regulatório digital. A política de cibersegurança passa agora a ser usada como instrumento de segurança nacional, estratégia económica e projeção de poder, num contexto global cada vez mais fragmentado.

O relatório destaca que a tradicional abordagem defensiva já não é considerada suficiente por muitos países. Em resposta ao aumento de operações maliciosas, os Estados estão a investir em capacidades ofensivas, integrando-as nas suas estratégias militares e geopolíticas. Este movimento, inicialmente mais visível nos Estados Unidos, começa a ser replicado por países europeus, sinalizando uma mudança estrutural na forma como o ciberespaço é encarado.

Na prática, esta evolução levanta novos riscos. A ausência de normas internacionais claras para operações cibernéticas ofensivas pode agravar a fragmentação do ecossistema digital e aumentar a probabilidade de escalada entre Estados. Para as empresas, isso traduz-se em maior complexidade no cumprimento regulatório e numa pressão crescente para colaborar com iniciativas governamentais na área da cibersegurança.

O estudo identifica três tendências principais a moldar este novo cenário. A primeira é o reforço da soberania digital, com governos a procurarem maior controlo sobre dados, infraestruturas críticas e cadeias de fornecimento tecnológicas. A segunda passa pela aplicação de regras de cibersegurança já existentes à inteligência artificial, aumentando o escrutínio sobre a forma como estas tecnologias são implementadas e protegidas. A terceira tendência é o aumento da responsabilização ao nível da gestão, com reguladores a exigirem maior envolvimento direto dos conselhos de administração na supervisão do risco cibernético.

Este quadro é reforçado pela entrada em vigor de novas iniciativas legislativas em várias geografias, como a diretiva europeia NIS2, o regulamento DORA para o sector financeiro, o Cyber Resilience Act e o AI Act, bem como legislação norte-americana focada na resposta a incidentes. Em conjunto, estas medidas ampliam significativamente as exigências sobre governação, resiliência e transparência.

Perante este cenário, a consultora defende que as organizações devem adotar uma abordagem mais proactiva. Isso implica reforçar estruturas de governação, clarificar posições sobre cooperação com entidades públicas e preparar os órgãos de gestão para um ambiente onde cibersegurança, regulação e geopolítica estão cada vez mais interligadas.

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