Inverno e verão da cibersegurança no mundo – Época NEGÓCIOS

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Ataques cibernérticos aumentam em número e ficam mais sofisticados (Foto: Marcello Casal jr/Agência Brasil)

Você que está lendo esse artigo no seu computador ou celular tem certeza de que seus dados estão seguros? Saberia como reagir a um ataque hacker? Há quem pense que essas questões são parte de um roteiro de ficção científica. Para quem já tem um ou outro fio de cabelo branco, como eu ,deve lembrar do tempo em que segurança era sinônimo de travas no carro (de uma fabricante israelente, inclusive), guarda-costas, carros blindados e demais recursos de proteção no mundo físico. Porém, a triste realidade, hoje, é que as ameaças virtuais já são parte da rotina. Todos os dias há uma verdadeira guerra invisível a olho nu acontecendo no terreno da cibersegurança. A pandemia agravou a situação, com muito mais pessoas conectadas e atividades sendo realizadas online, abrindo espaço para uma nova onda de ameaças sem precedentes e as coisas ainda devem piorar antes de melhorar.

Em Israel, 1 em cada 5 negócios foi alvo de um ataque em 2020, sendo metade deles companhias de tecnologia de ponta e 42% grandes empresas, de acordo com a Autoridade Nacional de Segurança Cibernética. O líder da “Israel National Cyber Directorate”, Yigal Unna, recentemente atualizou sua previsão sombria de que o ‘inverno cyber está a caminho’ para ‘o inverno cyber é agora’. No ano passado, 1 em cada 30 companhias israelenses reportaram prejuízos causados por ciberataques e em 2021 as coisas não estão melhores.

De acordo com pesquisa global da EY com mais de 1.000 executivos, 81% deles admitiram que suas organizações se viram forçadas a passar por cima de procedimentos de cibersegurança por conta da pandemia. A crise sanitária colocou um holofote em três principais desafios para os líderes de segurança nas companhias: orçamentos insuficientes, complexidades regulatórias e relações tensas entre os negócios. De uma hora para outra, eles se viram em uma tempestade perfeita para a ação dos hackers. Para conseguir atender à demanda urgente de ter os funcionários trabalhando em home office, por exemplo, muita gente correu para os serviços de hospedagem na nuvem sem necessariamente envolver as questões de segurança na tomada de decisão.

Assim, o que se viu no último ano foi não somente um aumento significativo do número de ataques, mas também uma escalada na sofisticação das investidas. Muitas delas, no entanto, poderiam ter sido evitadas se as companhias tivessem incorporado a segurança digital em toda a cadeia do negócio.

Se já estamos vivendo o inverno cyber, usando a expressão de Yigal Unna, infelizmente a primavera ainda parece distante. As companhias estão de certa forma em uma encruzilhada: ao mesmo tempo em que desejam investir em tecnologia e inovação para a fase pós-Covid, elas ainda precisam fazer uma lição de casa e resolver os riscos adiados e vulnerabilidades potenciais que foram introduzidos durante seus esforços de transformação no auge da pandemia.

Uma das principais autoridades mundiais em cibersegurança, o professor israelense Yitzhak Ben Israel, tem alertado nos últimos anos para o fato de que as operadoras de telecom, geradoras e distribuidoras de energia, empresas de água e demais companhias de infraestrutura estão entre os alvos preferenciais dos terroristas cibernéticos. O professor, que foi visionário ao defender anos atrás a ideia da criação de uma entidade com participação pública e privada focada em Segurança da Informação, hoje acredita que a solução para as questões de cibersegurança não serão resolvidas com tecnologia, mas com pessoas. Por isso, sua equipe da Universidade de Tel Aviv reúne especialistas das mais diferentes áreas do conhecimento, como médicos, economistas, designers, psicólogos, sociólogos e antropólogos. Só pela combinação de diferentes olhares é que será possível buscar soluções efetivas.

A situação mundial em termos de cibersegurança é, sem dúvida, grave e urgente, mas em um aspecto ela nos traz esperança da chegada do verão após esses tempos difíceis. As novas ameaças cibernéticas criaram espaço para o desenvolvimento de uma das profissões mais promissoras para o futuro: o profissional especializado em cibersegurança. Com o armazenamento em nuvem cada vez mais popular nas empresas, cresce também a demanda por proteção, e isso tem um impacto direto no mercado de trabalho. Os profissionais especializados têm sido altamente demandados hoje e essa é uma tendência que certamente veio para ficar. Boa notícia para o Brasil e demais países com altas taxas de desemprego.

*Renato Ochman é presidente da Câmara de Comércio Brasil-Israel (BRIL Chamber)