Reskilled, e depois? – Observador

Um em cada três empregadores não consegue contratar o perfil certo. E se, nos últimos anos, a necessidade de reskilling era central para a competitividade e desenvolvimento económico, em 2020 ganhou outra dimensão. Milhares de Portugueses perderam o que davam como garantido ao verem os seus trabalhos, rendimentos e, em muitos casos, auto-estima diminuída pelo impacto da Covid-19. Apoiar o acesso a programas de requalificação é potenciar uma saída do desemprego.

É esse o desafio que estamos a resolver com a StudentFinance: tecnologia que permite remover as barreiras financeiras à educação, através de um modelo de Income Share Agreements. Neste modelo, o pagamento pela educação é diferido, ocorrendo quando o “estudante” estiver empregado e a ganhar acima de um patamar mínimo. Isto permite alinhar incentivos no apoio à colocação no mercado laboral após a educação, o que é absolutamente fundamental para que o reskilling cumpra o seu objectivo.

É importante dar acesso a dados atuais do mercado de trabalho, saídas profissionais e projeções salariais, permitindo uma tomada de decisão baseada em dados e alinhar expectativas à realidade do mercado de trabalho. Na StudentFinance analisamos, semanalmente, mais de um milhão de oportunidades profissionais nos sectores em que operamos para empregos na Europa e remotos. Isto permite-nos fazer recomendações de emprego personalizadas no final dos programas de educação e optimizar a empregabilidade. O reskilling já tem muitas caras e testemunhos de transformações profundas que ocorreram em tempo de pandemia: empregados de restauração e contabilistas que se qualificaram em data scientists, arquitectos em web-developers, engenheiros em especialistas de cibersegurança.

No entanto, temos ainda uma cultura avessa ao risco, em que predomina a ideia de que estamos “agarrados” a um único caminho profissional. É fundamental, enquanto sociedade, incentivarmos a mudança e adotarmos modelos de partilha do risco financeiro e de empregabilidade, que deixam de estar concentrados apenas no trabalhador.

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A OCDE publicou recentemente dados salariais dos seus 37 membros, posicionando Portugal lamentavelmente na cauda, com um nível salarial médio de $26,634 (a média da OCDE é $48,587). Estes dados reforçam uma necessidade profunda de alterar o posicionamento de Portugal para uma sociedade de conhecimento, apostando no reforço de competências tecnológicas e digitais, para concorrermos internacionalmente na base de skills e não da mão-de-obra pouco qualificada.

Atualmente, repensam-se modelos educativos e emergem por todo o mundo bootcamps e programas disruptivos, com currículos desenhados para o desenvolvimento das competências tecnológicas e digitais mais procuradas no mercado laboral, focados na capacitação num curto espaço de tempo (tipicamente inferior a 9 meses). Portugal não é exceção, com presença de players como a Ironhack, a Le Wagon ou a recém-lançada 42 Lisboa.

Simultaneamente, empresas de todo o mundo, sectores e dimensões estão a adotar culturas remote-first ou flexíveis. Isto significa que, ao contrário das décadas anteriores em que vimos níveis elevados de imigração, é agora possível aceder a muitas oportunidades profissionais remotas e com salários competitivos a partir de Portugal.

O grande desafio é, agora, implementar em escala estes modelos. Essa será a melhor forma de ligar a requalificação ao mercado laboral, estabelecendo os incentivos para que todos – trabalhadores, empresas e governos – saiam mais competitivos.

Marta Palmeiro é co-fundadora e CFO da StudentFinance, Fintech dedicada a eliminar as barreiras à educação e mobilidade económica. É também co-fundadora da Portugal Fintech, tendo-se especializado na área de Fintech pelo MIT e em Blockchain Business Strategy pela Universidade de Oxford. A sua carreira conta ainda com mais de 10 anos de experiência em Banca de Investimento, no departamento de Mercados de Capitais do Credit Suisse em Londres e Madrid. É uma activa angel investor em startups em fase inicial.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõem o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.

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