O que a senhora da praça deve saber! – Diário de Notícias – Lisboa

Às vezes tratamos de temas da vida de todos como se fossem temas económicos ou técnicos. Talvez possamos recuperar melhor e mais rápido dos desafios que nos têm assombrado, se tivermos os cidadãos e as famílias a bordo. Emprego é muito mais que um tema económico: é um tema de dignidade, e de sociedade. O Emprego – qualificado, especializado – é também a melhor forma de partilhar riqueza, que vem do valor previamente criado, e por isso, sustentável.

Os economistas são unânimes sobre os fatores necessários para o desenvolvimento económico no mundo moderno: capital – Talento – tecnologia. Foco-me apenas no Talento, porque o Talento de qualidade traz: 1) o Capital de qualidade – aquele que fica cá no longo prazo – e, 2) sabe operar e aplicar tecnologia com propósito para servir empresas, estado e cidadãos.

O que aprendemos com o passado? Retomando a experiência dos nossos Descobrimentos, sabemos, hoje, que o desenvolvimento tecnológico de então – sistemas de navegação, técnicas de marinharia e até algum armamento -, aliado à coragem de alguns que se fizeram ao Mar, concretizaram esse momento da história.

O que sabemos no presente? Hoje, o PRR, em linha com a agenda da Europa, tem três grandes vetores. Destaco dois, inevitáveis: a Transição Climática e a Transição Digital. E ambos caem diretamente sobre as áreas onde trabalho. Há um número que liga estes dois blocos de atividade…

…257! É o número de vagas nestas áreas que no final de abril estavam por preencher no grupo onde trabalho, numa base de 1800 colaboradores, em época de pandemia. Como será quando os meios do PRR chegarem à economia real? Faltam cientistas de dados, eletricistas, programadores, mecânicos HVAC, engenheiros de redes, cibersegurança, entre outras profissões. Profissões cuja média salarial é acima da média em Portugal. São profissões do “saber fazer”.

Os cidadãos têm que saber disto! A senhora da praça onde, lá em casa, compramos fruta aos sábados de manhã, tem um filho que deixou de estudar. Agora “entretém-se” a ajudar na sua banca. “Não sei o que posso fazer por ele”, diz. Esta senhora precisa de ajuda para saber guiar aquele jovem, para uma formação que lhe possa mudar a vida. Por isso, podíamos desenhar um plano de comunicação e sensibilização das famílias, começando já. Ao mesmo tempo, precisamos de um grande plano que ajude uma pessoa desempregada a mudar de vida para profissões de maior procura, tão necessárias para se recuperar a dignidade da vida.

É tempo de unir, agir, acelerar! Para garantirmos a requalificação da força de trabalho de Portugal é preciso a parceria do século. Empresas, governo, setor da educação e cidadãos, juntos. Esta parceria – neste formato – nunca aconteceu. O primeiro passo é esta tomada de consciência. A seguir, como nas empresas, é preciso mobilizar as pessoas com sentido de urgência.

Isto vai para além de um mandato de gestão, de uma legislatura, ou mesmo de uma presidência. Pelas 257 posições em aberto no grupo onde trabalho, ou pelas vagas em aberto em inúmeras empresas destes setores. O Emprego é muito mais que um tema económico: é de dignidade, e por isso, da sociedade. E a senhora da praça onde, lá em casa, compramos fruta aos sábados de manhã, tem que saber disto.

CEO da Vinci Energies Portugal

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *