Putin reescreve a lei da selva geopolítica – Brasil 247

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Por Pepe Escobar, para o The Saker

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

A fala de Putin à Assembleia Federal Russa – um Estado da Nação de fato – foi o golpe de judô que deixou particularmente atordoados os falcões da esfera atlanticista.

O “Ocidente” sequer foi mencionado nominalmente, mas apenas de forma indireta, com uma deliciosa metáfora, O Livro da Selva, de Kipling. Questões de política externa só foram tratadas ao final, como se por um quase esquecimento.

Por boa parte da hora e meia de sua fala, Putin se concentrou em assuntos internos, detalhando uma série de políticas que mostram o estado russo prestando auxílio aos mais necessitados – famílias de baixa renda, crianças, mães solteiras, jovens profissionais, pessoas carentes – indo, por exemplo, desde exames médicos gratuitos até a possibilidade de uma renda básica universal em um futuro próximo.

É claro que Putin teria também que tratar do estado altamente volátil das relações internacionais do momento presente. A maneira concisa que ele escolheu para tal, contrapondo-se à atual russofobia da esfera atlanticista, foi surpreendente.    

Primeiramente, o fundamental. A política russa “visa a assegurar a paz e a segurança para o bem-estar de nossos cidadãos e para o desenvolvimento estável de nosso país”.  

Mas se “alguém se recusar a entrar em diálogo, preferindo um tom egoísta e arrogante, a Rússia sempre encontrará maneiras de defender sua posição”.

Ele destacou “a prática de sanções econômicas ilegais e politicamente motivadas”, conectando-a com “algo muito mais perigoso” e, na verdade, tornado invisível na narrativa ocidental: a “recente tentativa de organizar um golpe de estado na Bielorússia e o assassinato do presidente daquele país”. Putin fez questão de enfatizar que “todas as fronteiras foram cruzadas”.

A conspiração para matar Lukashenko foi descoberta pelos serviços de inteligência russos e bielorrussos – que detiveram diversos agentes apoiados por quem mais? Pela inteligência norte-americana. O Departamento de Estado dos Estados Unidos, como seria de se prever, negou qualquer participação. 

Putin: “Vale a pena apontar as confissões dos conspiradores detidos no sentido de que um bloqueio de Minsk vinha sendo preparado, para atingir sua infraestrutura urbana e suas telecomunicações e o completo fechamento de toda a rede de energia elétrica da capital bielorrussa. O que, incidentalmente, significa preparação para um ciberataque maciço”.  

E isso leva a uma verdade muito incômoda: “Ao que tudo indica, não foi por acaso que nossos colegas ocidentais rejeitaram inúmeras propostas apresentadas pelos russos no sentido de estabelecer um diálogo internacional no campo da informação e da cibersegurança”. 

“Assimétrico, rápido e duro” 

Putin observou que “atacar a Rússia se transformou em  um esporte, um novo esporte, uma competição para ver quem faz os ataques mais estridentes”. E então Putin partiu para um Kipling total: “A Rússia é atacada por todos os lados sem qualquer motivo. E, é claro, tabaquis (chacais) subalternos de todo o tipo ficam correndo em círculos, como o Tabaqui corria em torno de Shere Khan, o tigre – é tudo como no livro de Kipling – aos uivos, e prontos para servir seu soberano. Kipling era um grande escritor”.  

A metáfora – contendo diversas camadas – é ainda mais surpreendente por ecoar o Grande Jogo geopolítico de fins do século XIX entre os impérios britânico e russo, do qual Kipling foi protagonista. 

Mais uma vez Putin teve que enfatizar que “realmente não queremos queimar pontes. Mas se alguém interpretar nossas boas intenções como indiferença ou fraqueza, e tiver a intenção de queimar totalmente essas pontes, ou até mesmo explodi-las, essa pessoa deve ficar sabendo que nossa resposta será “assimétrica, rápida e dura”.  

Então, aqui vai a nova lei da selva geopolítica – reforçada pelos Senhores Iskander, Kalibr, Avangard, Peresvet, Khinzal, Sarmat, Zircon e por outros cavalheiros respeitados, hipersônicos ou não, a serem mais tarde elogiados oficialmente por serviços prestados. Aqueles que cutucam o Urso a ponto de ameaçar “os interesses fundamentais de nossa segurança se arrependerão do que fizeram, como há muito tempo não se arrependem de coisa alguma”. 

Os surpreendentes desdobramentos das últimas semanas – a cúpula China-Estados Unidos no Alasca, a cúpula Lavrov-Wang Yi em Guilin, a cúpula da OTAN, o acordo estratégico Irã-China, a fala de Xi Jinping’s no fórum de Boao – agora fundem-se em uma nova e dura realidade: a era de um Leviatã unilateral impondo sua vontade de ferro chegou ao fim.

Dirigindo-se aos russofóbicos que ainda não entenderam a mensagem, um imperturbável, calmo e contido Putin viu-se na contingência de acrescentar que “claramente, temos suficiente paciência, responsabilidade, profissionalismo, autossuficiência e autoconfiança na correção de nossa posição, e bom-senso ao tomarmos decisões. Mas espero que ninguém pense em cruzar as chamadas linhas vermelhas da Rússia. E por onde passam essas linhas nós mesmos determinaremos em cada caso específico”. 

Voltando à realpolitik, Putin, mais uma vez, teve que enfatizar que  os “cinco estados nucleares” têm “responsabilidade especial” de discutir seriamente “questões relacionadas a armamentos estratégicos”. É uma questão em aberto se o governo Biden-Harris – por trás do qual posta-se um coquetel tóxico de neocons e imperialistas humanitários – irá concordar. 

Putin: “O objetivo dessas negociações poderia ser a criação de um ambiente de coexistência livre de conflito, baseado em segurança igualitária, cobrindo não apenas as armas estratégicas, como mísseis balísticos intercontinentais, bombardeiros pesados e submarinos, mas também, como eu gostaria de ressaltar, todos os sistemas ofensivos e defensivos capazes de solucionar tarefas estratégicas, seja qual for seu equipamento”. 

Assim como a fala de Xi no fórum de Boao foi dirigida principalmente ao Sul Global, a de Putin enfatizou que “estamos ampliando nossos contatos com nossos parceiros mais próximos da Organização de Cooperação de Xangai, dos BRICS, da Comunidade dos Estados Independentes e também com nossos aliados da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, e elogiou os “projetos conjuntos do sistema da União Econômica Eurasiana”, vistos como instrumentos práticos para resolver os problemas de desenvolvimento nacional”. 

Resumindo: integração em andamento, com base no conceito russo de “Grande Eurásia”. 

“Tensões beirando níveis de tempos de guerra”

Agora, compare-se tudo o que foi dito acima com a Ordem Executiva (OE) da Casa Branca declarando que “tratar da ameaça russa” é uma questão de “emergência nacional”. 

O que está diretamente relacionado com a promessa do Presidente Biden – aliás, do combo que controla seu fone de ouvido e o teleprompter que diz a ele o que fazer – ao Presidente Zelensky da Ucrânia, de que Washington “adotaria medidas” para apoiar o sonho irrealista de Kiev de vir a retomar Donbass e a Crimeia. 

Há vários pontos alarmantes nessa OE. Ela priva qualquer cidadão russo de plenos direitos sobre propriedades que ele possua nos Estados Unidos. Qualquer residente nos Estados Unidos pode ser acusado de ser um agente russo engajado em prejudicar a segurança dos Estados Unidos. Um sub-subparágrafo (C) detalhando “atos ou políticas que prejudiquem processos ou instituições democráticas nos Estados Unidos ou no exterior” é vago o bastante para permitir a eliminação de qualquer tipo de jornalismo que apoie as posturas russas em assuntos internacionais.

As aquisições de títulos da OFZ russa foram objeto de sanções, bem como as de uma empresa envolvida na produção da vacina Sputnik V. Mas a cereja desse bolo de sanções talvez seja que, de agora em diante, todos os cidadãos russos, inclusive aqueles com dupla cidadania, podem ser impedidos de entrar no território dos Estados Unidos, exceto quando portadores de uma rara autorização especial além do visto de entrada comum. 

O jornal russo Vedomosti observou que em uma atmosfera de tamanha paranoia, os riscos para grandes empresas como a Yandex ou o Kaspersky Lab aumentam a cada dia. Mesmo assim, essas sanções não foram recebidas com surpresa em Moscou. O pior ainda está por vir, segundo pessoas que conhecem o Beltway por dentro, dois pacotes de sanções contra o Nord Stream 2 já foram aprovados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. 

O ponto crucial é que essa OE vê como ameaça potencial à “democracia americana” qualquer pessoa que traga informações sobre as posições políticas da Rússia. Como o importante analista político Alastair Crooke observou, esse procedimento “é geralmente reservado a cidadãos de estados inimigos em tempos de guerra”.  Crooke acrescenta: “Os falcões dos Estados Unidos estão dobrando furiosamente a aposta contra Moscou. As tensões e a retórica estão beirando níveis de tempos de guerra”.

Não se sabe ainda se o Estado da Nação proferido por Putin será seriamente examinado pelo tóxico e lunático combo de neocons e imperialistas humanitários incumbidos de achacar simultaneamente a China e a Rússia.

Mas o fato é que algo extraordinário já começou a acontecer: uma espécie de reversão da escalada militar.

Mesmo antes da fala de Putin, Kiev, OTAN e o Pentágono parecem ter entendido a mensagem quando a Rússia enviou dois exércitos, maciças baterias de artilharia e divisões aéreas para as fronteiras de Donbass e para a Crimeia – para não falar das poderosas forças navais transferidas do Mar Cáspio para o Mar Negro. Nem em sonhos a OTAN poderia igualar essa capacidade.

Fatos ocorridos em outros países falam por si sós. Tanto Paris quanto Berlim ficaram aterrorizadas com a possibilidade de um ataque de Kiev dirigido contra a Rússia, e lançaram-se a um furioso lobby para se contrapor a essa ameaça, passando por cima da União Europeia e da OTAN. 

Então alguém – pode ter sido Jake Sullivan – deve ter sussurrado no aparelho auditivo do Boneco de Teste de Colisão que não se pode andar por aí insultando o chefe de um estado nuclear e esperar manter sua “credibilidade” global. Portanto, depois daquele agora famoso telefonema de “Biden” para Putin, veio o convite para a cúpula das mudanças climáticas, na qual as promessas altissonantes serão em grande parte retóricas, uma vez que o Pentágono continuará a ser a entidade mais poluidora do planeta Terra.  

Então, Washington talvez tenha encontrado uma maneira de deixar aberta pelo menos uma via de diálogo com Moscou. Ao mesmo tempo, Moscou não tem a menor ilusão de que o drama Ucrânia/Donbass/Crimeia tenha chegado ao fim. Apesar de Putin não o ter mencionado no Estado da Nação. E apesar de o Ministro da Defesa Shoigu ter ordenado uma reversão da escalada militar. 

O sempre inestimável Andrei Martyanov comentou, deliciado, o “choque cultural quando Bruxelas e o Distrito de Colúmbia começaram a suspeitar que a Rússia não ‘quer’ a Ucrânia. O que a Rússia quer é que aquele país apodreça e imploda sem que o excremento liberado por essa implosão respingue na Rússia. Que o Ocidente tenha que pagar pela faxina dessa gigantesca cagada também está nos planos russos para o Bantustão Ucraniano .  

O fato de Putin não ter mencionado o Bantustão em sua fala corrobora essa análise. No que se refere às “linhas vermelhas”, a mensagem implícita de Putin continua a mesma: uma base da OTAN no flanco ocidental da Rússia simplesmente não será tolerada. Paris e Berlim sabem disso. A União Europeia tenta negar. A OTAN sempre se recusará a admiti-lo.

Sempre nos vemos obrigados a retornar à mesma crucial pergunta: se Putin conseguirá, contra tudo e contra todos, chegar a uma manobra combinada Bismarck-Sun Tzu e construir uma entente cordiale (o que é muito diferente de uma ‘aliança’) duradoura entre a Rússia e a Alemanha. O Nord Stream 2 é uma peça fundamental desse motor – e é isso que vem deixando enlouquecidos os falcões de Washington.

Aconteça o que acontecer a seguir, para todos os fins práticos a Cortina de Ferro 2.0 está de volta, e voltou para ficar. Haverá mais sanções. Tudo foi jogado contra o Urso, só faltando a guerra quente. Será imensamente divertido ver de que forma, e usando de que medidas, Washington irá se engajar em um processo “diplomático e de reversão da escalada militar” com a Rússia.

O Hegêmona sempre conseguirá encontrar uma maneira de desencadear uma campanha maciça de relações públicas e acabar se gabando de seu sucesso diplomático em “dissolver” o impasse. Bem, certamente que isso é melhor que uma guerra quente. Caso contrário, os reles aventureiros do Livro da Selva já foram avisados: se tentarem alguma gracinha, estejam prontos para um encontro “assimétrico, rápido e duro”.

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