Football Leaks: “Não vou dizer que era receio da Doyen ou das pessoas ligadas aos contratos” – O Jogo

Antigo jornalista revela pressões para deixar de publicar matérias após a Doyen ter contratado uma agência de comunicação

Está a decorrer, esta manhã, no Campus da Justiça, em Lisboa, mais uma sessão do caso Football Leaks, com a audição de António Varela, antigo jornalista do Record e atual funcionário do Comité Olímpico Português (COP), na qualidade da testemunha de Rui Pinto.

Varela começou por confirmar ter recebido informação na sua caixa de email: “Foi com imensa surpresa que recebi. Durante meses foi o meu trabalho preferencial, acompanhar a matéria que era revelada, isto em 2015.”

“Foi uma surpresa porque ele [Bruno de Carvalho, então presidente dos leões] só queria jogadores cem por cento do Sporting. E, ali, o passe era parte de um clube angolano e de António Mosquito. Era Bruno Paulista, que pouco jogou no Sporting. Foi surpreendente porque Bruno Carvalho defendia uma coisa e depois, afinal, a realidade não era bem assim”, afirmou, a questões colocadas por Luísa Teixeira da Mota, da equipa de advogados de defesa do denunciante.

Sobre as revelações envolvendo a Doyen e a atuação de quem lhe estava a fornecer informação, disse: “Tinha dúvidas se era uma pessoa ou várias, porque era muito trabalho, minucioso, era muita matéria. (…) Escrevi bastante sobre a Doyen. Tinham posto lá Rojo e Labyad, o Sporting tirava proveitos desportivos, mas numa futura venda era difícil tirar mais-valias, daí Bruno Carvalho ter rompido com esse tipo de negócios”.

Questionado sobre o interesse público do manancial informativo, esclareceu o tribunal: “O objetivo era dar matéria nova, dar notícias e ali havia muita matéria oculta e que tinha evidente interesse público em ser revelado”.

Varela deu a sua versão sobre a transparência dos negócios então divulgados: “A arquitetura da Doyen era de uma complexidade muito grande, perceber toda aquela arquitetura, aquele sistema quase larvar com tantas pontas, era bastante complexo. Havia jogadores comprados num dia e vendidos no outro. Eram coisas que, não sendo ilegais, eram muito estranhas. (…) Havia Nélio Lucas e caras internacionais, do Cazaquistão, por aí.”

“A certa altura comecei a seguir mais à distância. Depois o interesse arrefeceu, depois da Doyen ter contratado uma agência de comunicação, que começou a fazer bem o seu trabalho, a falar com a Direção do jornal e a Direção começou a ter dúvidas, diria até receio, do interesse dessa matéria”, afirmou António Varela, um dos jornalistas que, então assinava várias peças sobre as divulgações pela plataforma Football Leaks.

E o testemunho prosseguiu: “Não vou dizer que era receio da Doyen ou das pessoas ligadas aos contratos. Uma das coisas que levou o jornal a travar [as matérias] foi um contrato ligado a Luka Jovic [Benfica]. Eu tinha a matéria e a esta nunca mais era publicada. Um contrato muito estranho com Jovic. A Direção [do Record] levou mais tempo do que o suposto, ou norma, para publicar. Da parte do Football Leaks começou a haver também mais distanciamento. (…) Começou a haver muita pressão nas fontes”.

“Os jornais têm proximidade com as fontes dos grandes clubes, historicamente, que propiciam maior audiência. Estar a dar eco a matéria que punha em causa a estrutura do clube era secar as fontes dentro dos clubes. Vocês dão esta notícia e na próxima, quando nos baterem à porta, já não vão dar a notícia”, explicou Varela.

Segundo Varela, “questionava-se se os contratos eram verdadeiros. Mas ficou claro que não havia manipulação, nem documentos forjados”.

No seu testemunho, António Varela afirmou desconhecer como o Football leaks tinha acesso à informação revelada, mas disse ser da opinião de que contribuiu para que houvesse mais transparência no futebol: “Acho que sim, houve alguns processos judiciais a decorrer, havia crimes fiscais, ficavam à vista de todos, até envolvendo pessoas importantes. Logo por aí, o Football Leaks cumpriu o seu papel: pessoas que não estavam a a ter o comportamneto que era suposto e até pessoas com alguma proeminência”.

Negou, ainda, terem-lhe sido solicitadas contrapartidas – “Nunca, zero” -, e confirmou que que o email “era qualquer coisa da Rússia”.

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