‘Vivemos uma nova pandemia, uma pandemia digital’, afirma CEO da empresa que descobriu megavazamentos – Pequenas Empresas & Grandes Negócios

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‘Vivemos uma nova pandemia, uma pandemia digital’, afirma CEO da empresa que descobriu megavazamentos (Foto: Reprodução/Pexels)

Marcos De Mello, presidente da Psafe, afirma que não quer ser um “profeta do apocalipse”, mas afirma que os dois megavazamentos de dados descobertos por sua empresa no Brasil no último mês são alertas importantes. “Este é um sintoma. Se você pensar, em 2020 a internet evoluiu dez anos em seis meses. Isso aconteceu nas empresas e nos hackers também”, disse.

Em entrevista ao GLOBO direto de Los Angeles, onde está baseado, ele afirma que o crime é muito organizado nestes vazamentos. “Não estamos mais lidando com adolescentes no porão, com capuz, tentando invadir a empresa de alguém”.

Ele afirma que apesar de ser um problema global, a situação é mais grave no Brasil por falta de cultura de proteção de dados e por um descasamento de investimentos. “Há uma discrepância muito grande no Brasi entre a prioridade no acúmulo de dados versus a qualidade para proteger estes dados. Precisamos ter a mesma prioridade”, afirmou.

Vocês detectaram dois grandes vazamentos em um mês. Isso é um sinal perigoso para o país?

Este é um sintoma. Se você pensar, em 2020 a internet evoluiu dez anos em seis meses. Isso aconteceu nas empresas e nos hackers também. Uma das consequências da pandemia, foi a criação da pandemia digital, nós tivemos a pandemia biológica e agora uma pandemia de crime digital.

Estes novos ataques são muito sofisticados, são baseados em inteligência artificial e também os ataques de engenharia social evoluíram, ambos evoluíram muito. É preocupante o quadro no país, pois o Brasil é o penúltimo entre as nações monitoradas em termos de detecção de um vazamento.

O levantamento leva 46 dias para descobrir um vazamento, só estamos à frente da Turquia. Existe uma necessidade urgente da malha empresarial e do setor público de proteção de dados, para que todas as técnicas sejam  baseadas em inteligência artificial, assim como desenvolver a cultura de cibersegurança nas empresas e nos órgãos públicos. Todos temos essa obrigação compartilhada, não é uma obrigação do chefe da sua empresa, não é uma obrigação do governo.

Como foi a evolução dos cibercriminosos?

A situação já era grave, mas os cibercriminosos estão evoluindo em suas técnicas,  táticas e organização. Agora existe uma máfia, extremamente organizada e vasculhada na internet obscura, a deep web, trabalhando para o roubo de dados, que é a nova moeda, você troca por bitcoin, dado é o petróleo digital.

Em 2020 foram circulados US$ 1,8 trilhão na internet obscura, isso é mais que o PIB do Brasil.  Não estamos mais lidando com adolescentes no porão, com capuz, tentando invadir a empresa de alguém. Essa é uma imagem completamente fictícia, talvez funcione para Hollywood, para seriados. Mas na verdade estamos lidando com uma máfia extremamente organizada, muito bem equipada e algumas vezes patrocinada por partes de alguns estados, há uma sofisticação muito grande.

A sua empresa, a Psafe, descobriu os dois últimos grandes vazamentos no Brasil. Isso não demonstra uma fragilidade do governo e das empresas detentoras dos dados?

Eu acho que o governo pode e deve fazer mais para criar a internet segura no Brasil. O governo já faz, mas pode  fazer mais e melhor. Estamos trabalhando em cooperação com a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD). A gente ajuda a recomendar os inquéritos à Polícia Federal e Ministério Público. Mas em termos de monitoramento o governo pode melhorar. A gente tem essa expertise  para descobrir isso, desenvolvemos  essa ferramenta nos dez anos que temos de mercado.

Mas é necessário o constante aprimoramento de tecnologia e o uso de inteligência artificial não é mais opcional. Não queremos ter a função de profeta do apocalipse, mas no “novo normal” há esta pandemia digital, que é um problema gritante.

Diversos dados apontam déficit de profissionais de TI no Brasil e “fuga de cérebros” para outros países. Isso piora o problema?

Há uma malha de profissionais no Brasil muito boa e capacitada. A minha equipe toda é de brasileiros e está no Brasil, embora eu fale com você da Califórnia, onde temos um tipo. Mas há um déficit de formação de engenheiros e técnicos de computação. O Brasil deveria formar mais estes profissionais, é necessário um trabalho de longo prazo nesta área. Mas o Brasil tem profissionais capacitados e eficientes.

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