Tema de segurança do 5G foi politizado, diz diretor da Huawei no Brasil – Época NEGÓCIOS

Marcello Motta, da Huawei (Foto: Divulgação)

Marcello Motta, da Huawei (Foto: Divulgação)

A empresa chinesa Huawei esteve no centro das disputas entre Estados Unidos e China, acaloradas durante o governo Trump. O governo brasileiro, com a ala ideológica alinhada ao republicano, ameaçou encampar a briga dos aliados e barrar a companhia de telecomunicações do leilão do 5G no país. A minuta do trâmite, divulgada na semana passada, não exclui nenhum fornecedor, mas as preocupações com cibersegurança, em um mundo cada vez mais conectado, não acabaram.

Em entrevista exclusiva a Época NEGÓCIOS, o diretor de cibersegurança da Huawei no Brasil, Marcello Motta, fala sobre 5G e o que vem por aí para o ambiente digital. Confira os principais trechos: 

Quais são os principais desafios de cibersegurança quando falamos das redes 5G?

O tema de segurança do 5G foi politizado. Tecnicamente, o 5G é mais seguro do que o 4G, que é mais seguro do que o 3G. Não estou falando da Huawei, mas sim do padrão estabelecido para a tecnologia pelo 3GPP [organização que padroniza criação e troca de arquivos em aparelhos wireless]. Essas são as especificações que todos os fornecedores seguem. Segundo, o risco de segurança cibernética não é exclusivo das redes 5G, eles já existem hoje. Não é um assunto novo para operadoras: isso envolve equipamentos, arquitetura de rede e operação de rede. A Huawei oferece equipamentos, que são ligados com outros para essa arquitetura. Nesse processo, a operadora divide a rede em domínios seguros – se um falha, não afeta a rede inteira. Há uma série de coisas para evitar que os problemas de segurança se alastrem pela rede. Na operação, há o fator humano. Nada disso é novo.

Nós temos os maiores esforços para fazer o melhor equipamento, com testes antes de chegar ao mercado e certificações internacionais. Mas o equipamento é um pedacinho: ainda há a rede, a operação, sob responsabilidade da operadora, de forma rotineira. Não podemos fechar os olhos e pensar que o espaço cibernético é, única e exclusivamente, as redes de telecom. Em 2015, tivemos um megavazamento de dados do Facebook. Quais operadoras estavam envolvidas com isso? Várias. O problema de segurança não estava nelas, mas sim lá na camada de aplicação. Todas as partes são importantes: redes de telecomunicações, operadoras e aplicações. Precisamos criar regras e cooperação para que diversos países possam compartilhar suas experiências para rapidamente mitigar qualquer novo ataque hacker.

Já que os desafios não são necessariamente novos, quais são as transformações nas operações e os investimentos da empresa tendo em vista essa nova fase?

Esse assunto de segurança é prioridade máxima da Huawei, e isso é de longa data. Temos investimentos fortes, organização global de mais de 2.300 profissionais dedicados a isso, processo de governança voltado pra isso, cobrindo avaliação de fornecedores e desenvolvimento seguindo requisitos de segurança e proteção de privacidade. Temos milhares de testes, com o Independent Cybersecurity Lab, para todas as soluções da Huawei. E só então elas chegam ao mercado. Isso garante os padrões internacionais e evita invasões de hackers. Essas acusações que pesam contra a Huawei vêm de mais de década e, felizmente, nunca se provou qualquer uma delas. O crescimento da Huawei é o mais expressivo da indústria: em 2019, crescemos 19% em relação a 2018. No ano passado, crescemos 10%. Ou seja, mesmo nessa onda fenomenal de acusações, a Huawei continua crescendo suas receitas. Assim, continuamos com segurança como prioridade máxima e fazendo os investimentos que sempre fizemos.

Qual é a sua avaliação dos padrões internacionais? Como eles se comparam com como a Anatel tem tratado o assunto do 5G?

Logo que o 5G foi trazido para o mercado, em 2019, ainda não existia uma certificação internacional para garantia de segurança. Ao final de 2019, o 3GPP lançou especificações, e o GSMA [organização internacional de operadoras] desenvolveu um padrão de testes, o Network Equipment Security Assurance Scheme. Os testes são laboratórios de certificação credenciados ao ILAC [International Laboratory Accreditation Conference]. O processo da Huawei passou pela certificação do GSMA e tivemos a primeira estação rádio-base 5G certificada também. Existe hoje, portanto, uma certificação internacional que segue padrões. E cada vez mais uma preocupação com o software. Existe o Commom Criteria (CC), que traz vários níveis para isso. O 4 é quando a empresa abre o código-fonte para que analistas independentes analisem. A Huawei é a única empresa de telecom que faz isso, e ele pode ser testado e analisado de forma independente.

Quando falamos de Brasil, todos os equipamentos têm de ser certificados pela Anatel. No caso do 5G, o GSI, o Gabinete de Segurança Institucional, definiu em março passado requisitos mínimos de segurança do 5G. A gente achou isso fenomenal, porque são critérios técnicos, objetivos. É justamente isso que achamos que deve ser feito. Segurança não se aplica única e exclusivamente à Huawei: se aplica a todos os fornecedores. Esses critérios permitem que todos os equipamentos sejam avaliados e que a gente forneça equipamentos seguros.

E estamos caminhando dentro de critérios objetivos também no leilão do 5G?

Essa sempre foi a tradição. Isso traz mais fornecedores para o mercado, o que contribui para uma rápida implementação das redes e preços competitivos. Vejo com naturalidade isso que está acontecendo porque é uma continuação do que sempre foi. Felizmente, as redes se desenvolveram muito nos últimos anos. A Huawei está no Brasil há 23 anos e participamos do processo de criação de banda larga fixa e móvel. Hoje somos a maior fornecedora dessas soluções no Brasil. Não somos desconhecidos do mercado. Não temos histórico de problemas dentro da área.

Então o ponto de polarização foi fora da curva e não deve se repetir no futuro?

Nós imaginamos que, em função da politização do 5G, é normal que haja questionamentos. Somos uma empresa aberta a esclarecer dúvidas e testar equipamentos por técnicos brasileiros, [e queremos] que o país possa de uma forma soberana avaliar racionalmente o que é fato e o que é lenda e tirar suas próprias conclusões. Questionamentos são normais.

Hoje estamos preocupados com o 5G. Quais serão os próximos pontos de atenção em relação à cibersegurança?

Temos a rede, os dispositivos e os data centers que abrigam os dados na nuvem. Esse último já não pertence às operadoras, mas é a partir deles que desenvolvemos aplicações. Enxergamos essas quatro camadas no espaço cibernético. Para mitigar ataques e proteger dados, é importante ter colaboração entre essas diversas camadas – de forma vertical, e com países trocando experiências, servindo como alerta. Em função da quantidade de dispositivos que vão ser conectados, que vai crescer de forma acentuada, vamos ter desafios. Para isso, devemos melhorar a segurança em cada uma das camadas, colaborar entre elas e entre países. Aí entram requisitos para equipamentos e operação, e hoje já existe a consciência de que temos que atacar essas frentes.

Qual a perspectiva para a colaboração entre países tendo em vista o contexto geopolítico ainda conturbado e que privilegiou o bilateralismo nos últimos anos?

Os países de forma geral têm preocupações legítimas com segurança cibernética. A gente pode ver governos que querem polemizar por questões comerciais e outras que não as objetivas. A questão objetiva é que, por meio da colaboração, um incidente que acontece num país ‘A’ pode ser evitado em outros. Esse movimento de colaboração vai se acentuar ao longo do tempo. Hoje ele já existe e os mecanismos vão ser aprimorados. Cada vez mais, a economia é digital. Então não tem outra forma de a gente lidar que não esse modo racional.

E para a Huawei, quais são os próximos passos quando falamos de Brasil?

Temos uma base instalada muito grande e ela pode evoluir para trazer o 5G. Os investimentos feitos desde 2012, 2013, com as redes 4G, podem ser preservados para a chegada do 5G. Essa vai ser a forma mais rápida e econômica de trazer a tecnologia para o Brasil tão logo o leilão aconteça. O passo natural e esperado é esse, porque envolve primordialmente upgrade de softwares. Se não fosse assim, seria um processo mais demorado e custoso.

O 5G em si é um meio de conectividade mais rápida, mas isso vai servir à aplicações. O que você vai fazer com elas? Temos trabalhado muito forte com o 5G na agricultura, como a fazenda em Rio Verde, em Goiás. É fenomenal, porque cobrimos áreas agrícolas e conseguimos usar drones em cima de plantações e, com a análise de imagem, identificar áreas com necessidade de fertilizante, por exemplo. Outras aplicações incluem a área de mineração, para evitar pessoas em locais de alta periculosidade, e fábricas inteligentes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *