Navalny: “Rússia não leva a União Europeia a sério”, considera Francisco Seixas da Costa – Diário Digital

Profundo conhecedor da realidade política internacional, depois de uma carreira diplomática entre 1975 e 2013 que o conduziu aos mais variados pontos do mundo em diferentes papéis para diversas instituições, Francisco Seixas da Costa permanece um observador atento dos diferentes quadrantes e avalia a atualidade com um olhar aguçado. A propósito da real importância de Alexei Navalny como possível ameaça ao poder de Vladimir Putin, o embaixador comenta, em análise enviada por e-mail:

“A ideia que parece prevalecer, na generalidade dos especialistas ocidentais em política interna russa, é a de que Alexei Navalny é hoje o mais importante fator de congregação dos opositores de Vladimir Putin. Nenhuma outra figura parece ter, nesse setor, um destaque similar. Dito isto, é importante relativizar o peso dessa própria oposição no seio do sistema russo de poder”, considera.

Em seguida, explicita o seu pensamento: “Ao que parece, o nome de Navalny, boicotado pelos media, nem sequer é muito conhecido no país. Acresce que, na Rússia, a questão da liberdade e dos direitos democráticos parece não figurar no topo da hierarquia de preocupações de uma opinião pública que, tendo embora evoluído bastante, nos últimos anos, na sua reação perante temas como a corrupção e a apropriação de bens públicos, com escândalos que chocam algumas consciências igualitárias e afetam a imagem do aparelho político e do próprio Putin, essas pessoas colocam a sua segurança económica, as questões da lei e a ordem e a eficácia de algumas políticas públicas que lhes são vitais à frente de tudo o resto.”

Neste sentido, “parece-me haver uma assimetria de perspetivas no modo como os russos e os ocidentais olham para a questão dos anseios democráticos na Rússia. Mas, nesse caso, Navalny é assim tão importante para justificar esta sua perseguição, algo desmesurada, por parte de Putin? Posso estar enganado, mas tenho a sensação de que, sendo Navalny, com certeza, uma figura cujo crescendo de projeção não deixa de preocupar Putin, este acha que pode ir bastante longe na repressão que dedica ao seu opositor, pela consciência que tem de que o faz com uma relativa impunidade. O mundo ocidental pode esbracejar o seu desagrado e reclamar o que quiser, mas não há nenhum cenário plausível de intervenção constrangente sobre a Rússia que Putin, pelo menos por ora, não possa contrariar com alguma eficácia. E convém não esquecer que, em muitos setores russos, prevalece a ideia nacionalista de que o país, tido como injustamente tratado no final da Guerra Fria, continua a ser vítima de um “cerco” ocidental hostil. E Navalny, com os seus apoiantes externos, pode mesmo ser visto, por muita gente, como um elemento dessa “conspiração” anti-russa.”

Lavrov, “o super-funcionário”

Quanto ao papel que desempenha alguém como Sergei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros de Putin, o embaixador Seixas da Costa regressa ao passado com humor para uma primeira análise: “Durante muitos anos, existiu no Ocidente uma escola, quase profissional, de “kremlinologia”, que tentava perceber, às vezes pela coreografia de posição nas cerimónias, a evolução do poder relativo das figuras do aparelho político soviético. Quando Vladimir Putin e Dmitri Medveded ensaiaram o seu “bailado” de poder, entre o papel formal e o poder executivo, a curiosidade foi muita e os “kremlinólogos” ficaram alerta. Mas, com o tempo, logo perceberam que era uma tarefa sem sentido: as cartas do jogo em Moscovo estavam “marcadas” e Putin era o único “dono da bola”, como os miúdos antes diziam nas “peladas”.

Já avaliando diretamente o ministro, o diplomata observa: “Sergei Lavrov é um experiente diplomata, com um excecional faro político, em especial para uma tarefa que é essencial para a Rússia de Putin: saber ‘ler’ o exterior e poder antecipar as reações do mundo naquilo que à Rússia interessa. Não parece ser alguém que tenha mais do que um poder delegado, feito da confiança que o líder nele deposita. De uma certa forma, mas com uma postura mais afirmativa, porque os tempos também são outros, faz recordar Andrei Gromiko, que dirigiu a diplomacia soviética durante três décadas e, no final, acabou numa elevada posição institucional honorífica, na constelação da URSS. O pouco que conheço de Lavrov, havendo colegas meus que lidaram muito mais com ele, revelou-me um homem muito cuidadoso, muito seguro de si, um super-funcionário que sabe interpretar muito bem a doutrina oficial, um modelo de pessoa que, muitas vezes, é um bem precioso nos Estados autocráticos, como é o caso da Rússia dos nossos dias.”

A União Europeia mal se vê de Moscovo e, já agora, de Washington

Numa fase em que, tendo a questão Navalny como pano de fundo, Rússia e União Europeia revelam um relacionamento turbulento, a questão acerca de outras consequências para lá da troca de expulsões de diplomatas merece a seguinte resposta de Francisco Seixas da Costa: “A Rússia sabe que a União Europeia, tendo potencialmente algumas ‘armas’ que pode usar (as sanções e as expulsões de diplomatas já entraram na rotina), numa escalada de tensões com Moscovo, é uma entidade onde se refletem interesses muito diversos, alguns contraditórios, que limitam a eficácia da sua ação. A circunstância de muitos Estados europeus manterem, por cima das medidas decididas aquando da crise ucraniana, relevantes relações económicas com a Rússia, contribui para um regular impasse.”

O diplomata recorre a um episódio recente para demonstrar como faz sentido o seu olhar crítico sobre os problemas dos 27: “Como se constatou aquando da patética ida a Moscovo do chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, de Bruxelas saem apenas gestos de retórica e ‘balas de papel’. Nas grandes questões globais, constata-se que a União Europeia é incapaz de afirmar peso por si própria. Apenas quando consegue uma conjugação operativa com os EUA, a Europa consegue alguma eficácia. Mas o caso da Ucrânia revelou que, mesmo nesse circunstancialismo ótimo, as coisas não funcionaram bem. Daí que seja fácil, mas triste, ter de concluir que a Rússia não leva a União Europeia a sério, como entidade política com expressão coletiva. Nisso não difere muito dos Estados Unidos: Biden não teve uma palavra até agora para a União Europeia, limitando-se a citar o Reino Unido, a França e a Alemanha como interlocutores futuros. Não deixa de ser significativo.”

EUA-Rússia: diálogos nucleares

A mudança de poder em Washington, com a eleição de Joe Biden para Presidente a 3 de novembro do ano passado, exerce influência na correlação de forças com a Rússia? Seixas da Costa reflete: “No seu primeiro discurso sobre política externa, Joe Biden teve palavras duras para a Rússia, talvez mesmo mais do que as que dedicou à China, ao contrário do que alguns esperariam. Isso poderá ter a ver com o facto de querer marcar uma diferença forte face à estranha e persistente complacência de Donald Trump para com Putin. Sabe-se que a diplomacia profissional americana viveu contrariada, nos últimos quatro anos, com o modo como a Rússia foi poupada. A prisão de Navalny e a certeza de que, a partir da Rússia, ataques de cibersegurança continuam a efetuar-se, terão motivado o tom forte de Biden, embora de certo modo compensado com a resposta positiva da nova Administração americana face à proposta russa de renovar o novo Start, o acordo sobre armas nucleares. A Rússia pode ser hoje uma ‘potência regional’, como um dia ironizou Obama, mas é o único poder nuclear que Washington elege como interlocutor em termos de armamentos estratégicos.”

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