Myanmar. Online é novo campo de batalha dos protestos contra a junta militar – RTP

Um grupo em particular está envolvido nesta guerra digital contra a junta militar que a 1 de Fevereiro depôs a chefe do Governo, Aung San Suu Kyi, num movimento golpista que levou à sua detenção juntamente com o Presidente Win Myint e vários ministros do executivo de Suu Kyi: o “Myanmar Hackers”.

O grupo, que visou vários sites oficiais – incluindo a página de propaganda dos militares que instauraram um estado de emergência no país sob o argumento de que as eleições de novembro foram fraudulentas –, compara a sua ação a um “protesto em massa de pessoas em frente a sites do Governo”.

Tendo agora um grupo de generais à frente do país, a antiga Birmânia está a viver uma onda de protestos com a tensão a instalar-se em várias cidades, obrigando as forças de segurança a endurecer a reação nas ruas para dispersar os manifestantes. Mas, num sinal dos tempos, parte da contestação dos birmaneses transferiu-se agora para o mundo virtual da Internet num movimento massivo de desobediência civil.

Além da página de propaganda da junta militar, os hackers atacaram o site do banco central e o canal estatal MRTV, com a estratégia apontada à disrupção da ação governativa da junta militar.

Desobediência civil online


“Estamos a lutar pela justiça em Myanmar. Isto é como um protesto em massa frente a edifícios do Governo”
, refere o grupo na sua página de Facebook.

Um site fornece depois os links necessários aos manifestantes e à população em geral para que possam juntar-se à batalha digital, que consiste para já numa tentativa de sobrecarga dos serviços por excesso de acessos e consequente incapacidade de operar dos sites oficiais (denial-of-services attacks).

O protesto online promete dar novo corpo à onda de insatisfação que foi levada para as ruas esta quarta-feira naquelas que foram até ao momento as maiores manifestações do país como reacção ao golpe militar, com ruas-chave bloqueadas por condutores que estacionaram os carros em plena via e marchas de trabalhadores bancários em greve e estudantes, engenheiros e agricultores a apelarem à libertação dos políticos “legitimamente eleitos” que se encontram detidos pelos militares.


Na segunda cidade do país, Mandalay, os trabalhadores ferroviários chegaram a impedir a circulação dos comboios
, obrigando à intervenção das forças de segurança, que usaram armas de fogo para dispersar o grupo, deixando ferida pelo menos uma pessoa.

Mão-de-ferro atiça a rua


Pelo menos meio milhar de pessoas foram já detidas, na tentativa dos golpistas de controlarem a insurreição nas ruas e foi ainda decretada a proibição de ajuntamentos
. Face ao envolvimento de figuras públicas nos protestos, a junta emitiu uma série de mandados de detenção visando celebridades do mundo do cinema e da música: vários realizadores, atores e um cantor enfrentam acusações que poderão valer até dois anos de prisão.

Na tentativa de reinstalar um clima de normalidade, a junta militar instou os funcionários públicos a regressarem ao trabalho, ameaçando retaliar contra aqueles que não seguirem a indicação. No entanto, não parece ser essa a determinação dos birmaneses, que redobraram os protestos em reação à propaganda oficial depois de um porta-voz dos militares ter tentado passar a ideia de que o golpe granjeava o apoio da maioria da população.

Visando eliminar uma das principais fontes do protesto, a junta prepara ainda um decreto que aperta a vigilância online e criminaliza as actividades no ciberespaço. Ainda esta madrugada, foi imposto logo às primeiras horas um novo bloqueio da Internet, um movimento denunciado pelo NetBlocks, uma organização não-governamental que rastreia a cibersegurança e desde 2017 monitoriza a liberdade de acesso à Internet por todo o planeta.

O Twitter e o Facebook foram algumas das páginas visadas pelos golpistas, dado que tem sido através destes sites que os manifestantes têm organizado os protestos.

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